José Patricio/Estadão - 6/11/2018
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E-Investidor: como a queda do PIB afeta o mercado financeiro

‘Coronavírus fará setor de veículos retroceder 15 anos no Brasil’, diz presidente da Fiat Chrysler

Antonio Filosa participou da série de entrevistas ao vivo ‘Economia em Quarentena’, do 'Estadão'; executivo reafirmou compromisso do grupo com o País, mas disse que cronograma de investimentos deve ser atrasado em um ano

Entrevista com

Antonio Filosa, presidente da Fiat Chrysler Automóveis (FCA) para América Latina

Fernando Scheller e Mônica Scaramuzzo, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2020 | 17h42

As montadoras foram atingidas em cheio pela crise gerada pela pandemia de coronavírus. No Brasil, a demanda por veículos pode cair até 40% este ano, para 1,8 milhão de unidades. “Vamos retroceder 15 anos”, afirmou Antonio Filosa, presidente da Fiat Chrysler Automóveis (FCA) para a América Latina, durante a série de entrevistas ao vivo ‘Economia na Quarentena’, do Estadão, nesta quinta-feira, 21.

O executivo também afirmou que o grupo não tem “nenhuma intenção” de deixar o mercado brasileiro. Ele afirmou que a montadora manterá os investimentos de R$ 14 bilhões em novas fábricas, produtos e serviços no País. Esses aportes, que estavam previstos para ser concluídos até 2024, deverão ser esticados até 2025.

O compromisso de ficar no País deve ser uma das contrapartidas exigidas pelo Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para liberação de crédito às montadoras instaladas no País. “A Anfavea (associação que reúne as montadoras) está trabalhando com o governo (para receber recursos para reforçar o caixa) e recebendo respostas positivas. Mas até agora não houve nenhuma resposta concreta”, afirmou o executivo.

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

Como o sr. vê a demanda por carros no País? Não se corre o risco de o setor se ver com um mar de estoques nas mãos?

Esse é o “x” da questão. Tivemos, em abril, uma queda de 90%, enquanto o mês de maio caminho para uma retração de 70% a 75%. No terceiro trimestre, a demanda deva cair entre 40% e 50% e, no quarto, de 20% a 30%. Sendo assim, devemos fechar o ano com venda de 1,8 milhão de veículos, queda de 40% sobre 2019. Vamos retroceder 15 anos no nosso mercado, na soma do ano. Outro dado interessante é o da produção. A de abril foi menor do que 2 mil unidades na indústria automobilística toda. Um dado tão baixo que te leva a 1957.

Ou seja, pré-industrial...    

Exato. Talvez esse seja uma definição perfeita, quando a indústria automobilística no Brasil estava numa fase de implementação. Através da Medida Provisória 936, temos flexibilizado nosso regime de trabalho e temos um regime “stop and go”. Nós não vamos produzir todos os dias da semana. Teremos produções e paradas alternadas de acordo com a demanda. 

Algumas montadoras já começaram a vender carros para pagar a primeira parcela em 2021. Isso ajuda? 

Também temos programas comerciais neste sentido, até porque essa é uma crise global. Dependendo dos estímulos de retomada da demanda e de como o governo se posiciona, a crise pode se arrastar mais, por até um ano e meio. Por isso, esses programas comerciais foram colocados. A gente protege o caixa do consumidor que precisa comprar o carro. Ele pode ter o bem e pagar depois no ano novo. 

Até agora, o BNDES só concretizou a ajuda às aéreas, que vai ser subsidiada. Como está a negociação com as montadoras?

No começo da crise, identificamos dois problemas. O do trabalho e flexibilização da jornada e o de caixa. O problema do trabalho foi resolvido. A MP 936 permite importantes coisas, como a manutenção do trabalho por um período pré-estabelecido. Na nossa indústria a manutenção do trabalho é um fator crítico. Se um especialista em produção deixa o emprego, nós temos de gastar dinheiro para obter um novo profissional do mercado. Por isso, a manutenção do trabalho é crítica para nossa indústria. Já o segundo problema é o de caixa. Nosso faturamento caiu de forma dramática. É problema das montadoras, dos fornecedores e das concessionárias. É uma cadeia de 7 mil empresas, que emprega 1,2 milhão de pessoas. Agora, por meio da Anfavea (associação que reúne as montadoras), fomos falar com o governo e BNDES sobre esse tema.

E o BNDES vai exigir contrapartida das montadoras? A Fiat está preparada para assumir compromissos?

O diálogo foi iniciado há mais ou menos um mês e teremos reuniões finais em alguns dias. É uma situação sem precedentes, porque empresas globais não têm como

compensar o risco de um país com outra região do mundo. A famosa possibilidade de chamar a matriz, apresentar a situação e pedir ajuda é hoje muito mais difícil, para não dizer impossível. A Anfavea está trabalhando com o governo e recebendo respostas positivas. Mas até agora não houve nenhuma resposta concreta. Cada montadora também está trabalhando no mercado privado para negociar linhas de crédito para o caixa.

O BNDES disse que vai exigir que as empresas assumam o compromisso de ficar no Brasil. A Fiat Chrysler vai assumir esse compromisso?

A FCA, independentemente dessa mesa de negociação, nunca teve objetivo de sair do Brasil. Estamos no meio de um plano de investimento de R$ 14 bilhões para o Brasil e a América Latina. Revemos o tempo. Dentro do plano até 2024, já perdemos entre três e seis meses. O plano, que começou em 2018, continua em pé, mas com seu ‘timing’ postergado entre 6 e 12 meses. Agora estamos pensando em terminar o plano em 2025. Não temos nenhuma intenção de deixar o mercado brasileiro.

A Fiat recorreu em abril a antropólogos para entender o cliente no pós-pandemia. Já se tirou alguma conclusão desse estudo?

Sim, estamos chamando este estudo de Anthropos, ou “homem”, em grego. Buscamos o novo indivíduo que sairá dessa crise, que também é existencial. Teremos duas retomadas: uma quando se reabrir a sociedade e depois quando tivermos uma vacina, que definitivamente resolverá os problemas desse período. Isso pode durar de dois a cinco anos. Na primeira retomada, haverá dois motores: de consumo ‘celebration’, das pessoas que não tiveram grandes problemas econômicos e que reprimiram consumos. Isso projeta um certo crescimento do setor premium. Por outro lado, haverá o medo da aglomeração e de usar meios coletivos de transporte. Todos os carros de entrada terão uma nova demanda. São motores conflitivos que vão coexistir, embora a demanda como um todo vai cair. 

O “cabo de guerra” político no que se refere à abertura da economia piora a situação do Brasil nessa crise?

Quem diz que a saúde é um tema essencial, a prioridade número um, tem absoluta razão. Quem diz que a economia deve ser protegida também está certo. É óbvio que o sistema de saúde sempre deve ter prioridade, pois é a base elementar de tudo. É necessário que, se ainda não se encontrou uma convergência, isso seja estabelecido. É claro, que quanto mais se demorar para isso ocorrer, maiores são as incertezas. E isso gera ambientes de negócios menos previsíveis e mais arriscados.

Como é explicar o fato de o Brasil viver, além da crise do coronavírus, uma crise política, com a saída de vários ministros e ameaça de impeachment do presidente Jair Bolsonaro?

Eu tenho a vantagem de fazer parte do conselho global de administração da empresa, que se reúne todos os meses. O nosso acionista italiano também viveu no Brasil e conhece muito bem o país, incluindo a capacidade única da economia brasileira de se reinventar depois das crises. E isso é associado ao nosso histórico de bons resultados tanto no Brasil quanto na América Latina.

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