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Ói nós aqui outra vez

Como não há nada que indique que teremos uma vacina antes do ano que vem, ou as pessoas prestam atenção nos números e voltam a tomar cuidado, ou as chances de seguirmos na primeira onda, com o número de infectados crescendo, é real

Antonio Penteado Mendonça, O Estado de S. Paulo

23 de novembro de 2020 | 05h00

O coronavírus não foi embora, a covid-19 segue firme e forte, não tem vacina, continuam morrendo centenas de pessoas por dia, mas o brasileiro decidiu enfiar a pandemia no saco e tocar a vida, como se não tivesse nada mais importante do que a chegada do verão.

É olhar a quantidade de pessoas sem máscara ou com a máscara no queixo para não se ter dúvida. Para boa parte da população o mundo voltou ao normal. O dado novo são algumas centenas de mortes a mais todos os dias. Mas mesmo isso parece não preocupar muito. Já estamos habituados com horripilantes sessenta mil homicídios e quarenta mil mortes no trânsito todos os anos. Além disso, dengue, chikungunya, sarampo, febre amarela, hanseníase, gripe, doenças respiratórias, abortos clandestinos, acidentes do trabalho, etc. fazem parte do nosso cotidiano há anos. Então, mais quatrocentos ou quinhentos mortos por dia tanto faz. A população tocou em frente e fez de conta que não é com ela.

É verdade que a posição do Governo Federal não ajudou – e continua sem ajudar – no combate à pandemia e na redução do número de casos. Ao contrário, os exemplos menos edificantes foram dados pelas mais altas autoridades do País e, como o exemplo vem de cima, milhões de pessoas se miraram nelas para fazer de conta que a situação é normal. Temos uma dose de fatalismo que, se não faz parte da nossa índole, foi incorporada por falta de opção. Milhões de jovens das camadas mais pobres da população sabem que não têm muito o que esperar do futuro. Que as alternativas são poucas e que, entre mortos e feridos, há a chance concreta de eles morrerem antes de chegarem aos trinta anos de idade.

A Europa e os Estados Unidos estão vivendo uma segunda onda do coronavírus, que, no velho mundo, sofreu mutações e está mais agressivo e resistente. Todos os dias o número de mortos cresce e os Estados Unidos se aproximam de totais impressionantes, que tiveram impacto nos resultados das eleições, especialmente porque o presidente de lá também não deu a atenção que o vírus merecia.

O Brasil, de acordo com vários especialistas, tem um quadro diferente do resto do mundo. Nós não chegamos a ter um pico e também não tivemos uma queda acentuada. Nosso cenário é mais o de um platô, num primeiro momento, elevado e, depois, mais baixo, mas constante. Não há nada que indique que o vírus esteja regredindo. Ao contrário, os últimos boletins mostram a subida do número de casos.

Mas se é ou não a segunda onda é difícil dizer. Quando a primeira onda segue firme e forte, é complicado entender a dinâmica da pandemia e difícil definir se estamos entrando numa segunda onda.

O fato insofismável é que os hospitais privados voltaram a ficar com as UTIs lotadas. A explicação para isso seria que o coronavírus entrou no Brasil pelas mãos dos mais ricos, se espalhou pelos mais pobres, que nunca tiveram condições de fazer um isolamento social eficiente, e, com o relaxamento das medidas restritivas, voltou a atacar os mais ricos, que deixaram seus isolamentos para trabalhar nos escritórios e a frequentar bares, restaurantes e locais com aglomeração de pessoas, boa parte sem máscaras. 

A alta dos números diários de novos casos tem sido consistente e começa a pressionar de novo a rede do SUS. Ainda estamos longe do que aconteceu há alguns meses, mas o quadro está mudando e o cenário se agrava todos os dias. Como não há nada que indique que teremos uma vacina antes do ano que vem, ou as pessoas prestam atenção nos números e voltam a tomar cuidado, ou as chances de seguirmos na primeira onda, com o número de infectados crescendo, é real, com uma agravante: a segunda onda não deve demorar.

Se no primeiro semestre os planos de saúde privados tiveram resultados positivos porque o coronavírus comprimiu sua utilização, agora o quadro é outro. As pessoas estão usando seus planos normalmente e, com o aumento dos casos de covid-19, os custos devem subir. Como há pouca margem para aumento de preços e o desemprego segue alto, o faturamento de algumas operadoras pode ser insuficiente para fazer frente aos custos. 

SÓCIO DE PENTEADO MENDONÇA E CHAR ADVOCACIA  E SECRETÁRIO-GERAL DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS

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