Luciana Dyniewicz/Estadão
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‘Corralito’ causou mortes na Argentina em 2001

Um dos casos mais emblemáticos foi o do jornalista esportivo Horacio García Blanco, morto, aos 65 anos, seis meses após as restrições de acessos às contas

Luciana Dyniewicz, enviada especial

08 de setembro de 2019 | 04h00

BUENOS AIRES - A preocupação exacerbada dos argentinos com a possibilidade de o governo voltar a limitar o acesso às contas bancárias vem do trauma de 2001, quando o corralito chegou a causar mortes. Um dos casos mais emblemáticos do país foi o do jornalista esportivo Horacio García Blanco, morto, aos 65 anos, seis meses após o ex-presidente Fernando de la Rúa impor as restrições.

García Blanco, que sofria de diabete e pressão alta, entrou na Justiça para tentar liberar suas poupanças e usar o dinheiro para viajar à Espanha. Com cidadania argentina e espanhola, pretendia fazer um transplante de rim em Madri, onde a operação era mais difundida.

“Havia uma exceção no corralito que permitia que idosos e doentes sacassem suas economias”, conta a advogada e amiga do jornalista, Mónica Alicia Damuri. A Justiça, porém, liberou apenas 10% do dinheiro que García Blanco tinha, volume insuficiente para bancar a viagem. Mónica recorreu, mas ele morreu de insuficiência renal antes de uma nova decisão. “O corralito era inconstitucional. Violava o direito à propriedade”, destaca, indignada, a advogada.

Conhecido nacionalmente por comentar, na rádio, lutas de boxe e partidas de futebol, o jornalista morou o último ano de sua vida na casa de Mónica. Era o marido da advogada que buscava García Blanco diariamente das sessões de hemodiálise. “Quem conheceu Horacio de perto viu como o corralito foi prejudicial”, diz a advogada.

Mónica também defendeu a brasileira Izolina Maria Zen, que vive na Argentina há 43 anos. Izolina tinha US$ 13 mil na conta na época do corralito. Com o irmão com câncer de pele, pediu para que a Justiça liberasse sua poupança para poder enviar o dinheiro para ele, que se tratava em Passo Fundo (RS). Ao contrário de García Blanco, Izolina venceu a ação. Nunca mais poupou um dólar em banco.

“Até achei que agora poderia ser algo parecido com o corralito, mas a situação parece menos grave. Mesmo assim, está todos estão assustados, claro. Muitos já tiveram problema em 2001”, diz Izolina, que deve se aposentar em menos de um ano e, então, voltar ao Brasil. “Tenho irmãos lá e a situação econômica parece mais estável. Aqui é sempre assim: uns quatro anos bem e depois vem um baque.”

Mónica, porém, frisa que a medida adotada pelo governo de Mauricio Macri de limitar o acesso ao câmbio e proibir a remessa de lucros de empresas ao exterior é bastante diferente da adotada por De la Rúa em 2001. “Os poupadores continuam podendo sacar suas economias”, diz.

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