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Correção do FGTS pode aquecer economia

São apenas R$ 100 para um contribuinte, R$ 500 para outro e até R$ 1.000 para alguns, mas o montante superior a R$ 3 bilhões em correções do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) que estão sendo pagos pelo governo desde terça-feira podem, sim, melhorar indicadores da economia brasileira, dizem especialistas. Segundo o professor da Faculdade de Economia e Administração da USP, Nelson Barrizzelli, mesmo que a grande parte do dinheiro se destine ao pagamento de contas atrasadas ou engorde um pouco as cadernetas de poupança dos trabalhadores, uma boa parcela deve aquecer o consumo. "Qualquer valor, ainda que saia pulverizado, anima um pouco o mercado", diz. A análise é confirmada pelos depoimentos de pessoas que, na tarde de ontem, buscavam o Posto de Atendimento ao Trabalhador (PAT) da Caixa na Avenida Cruzeiro do Sul, na zona norte de São Paulo. O analista de sistemas Marcelo Pedro Gregório tinha uma lista de produtos que pretende comprar com os R$ 700 que recebeu. "Vou comprar um scanner para o meu computador, um aspirador de pó para a casa e um secador de cabelo para minha esposa. O resto, vai para a poupança", comentava, otimista. O comerciante Marcos Roberto de Lima tem um pouco menos a receber, mas não se mostrou muito feliz com o reforço imprevisto no caixa. "Vou juntar esse dinheiro com mais um pouco e pagar minhas dívidas", dizia. Outro trabalhador autônomo, o taxista David de Paula Ianovalli, se mostrava ainda menos empolgado, embora tenha descoberto que terá R$ 1.600 creditados em sua conta corrente: "Primeiro tenho de pagar dívidas. Depois, vamos ver se dá para gastar alguma coisa. Só sei é que não vai valer a pena guardar." Apesar de também não achar possível poupar os R$ 1.200 que tem a receber, o aposentado Rolando Marchesini comemorava a "bolada". "Sei que o dinheiro vai sumir no orçamento da casa, mas o reforço está vindo em grande benefício para minha família", afirmava. Renda transitóriaO economista Emílio Alfieri, da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), explica que o dinheiro da correção do FGTS, por não constar no orçamento da maioria dos trabalhadores, pode ser tratado como uma renda transitória, à semelhança do 13.º salário. "É um dinheiro que as pessoas costumam usar para pagar dívidas ou para consumir", diz. "Mas ainda é cedo para dizer qual alternativa receberá mais recursos." Sem qualquer formação em economia, Leila Barbosa e Eloí Mozinho, operadoras de telemarketing desempregadas há mais de um ano, arriscavam suas fichas na segunda opção: "O brasileiro não está em condições de gastar nada, tudo o que entra a mais vai para pagar dívidas", comentavam. O palpite não está muito distante da realidade, de acordo com o próprio Alfieri. Entretanto, ressalta ele, mesmo que a maior parte do dinheiro liberado pelo governo se destine à quitação de carnês ou acabe diluído nos gastos do dia-a-dia, ainda é possível que os consumidores se sintam seguros para fazer novas compras a prazo. "Isso dependerá muito, também, da evolução das taxas de juros. Se baixarem, quem já quitou sua dívida tenderá a abrir novos crediários, aquecendo o comércio", afirma.

Agencia Estado,

14 de junho de 2002 | 11h29

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