Correios vão lançar cartão de crédito próprio

Estatal se prepara para entrar no segmento, desvinculada da instituição financeira que vencer a licitação para os serviços de correspondente bancário 

Karla Mendes, da Agência Estado,

16 de fevereiro de 2011 | 09h55

BRASÍLIA - Os Correios vão aproveitar a licitação do Banco Postal para entrar em um dos segmentos mais lucrativos: o de cartões de crédito. A estatal se prepara para lançar um cartão de crédito próprio, com a marca dos Correios e sem vínculo com a instituição financeira que vencer a licitação para a prestação dos serviços de correspondente bancário.

Outra aposta da ECT é um cartão pré-pago especial, que funcionará como uma espécie de poupança ou cheque de viagem (traveller check), em que o usuário deposita determinado valor no cartão e vai gastando na hora de fazer compras, em operações de débito.

A estratégia da estatal de atuar nas duas frentes tem um só objetivo: aumentar a rentabilidade dos serviços bancários em suas agências. No segmento de cartão de crédito, por exemplo, hoje o serviço é ofertado no Banco Postal, mas a empresa só é remunerada uma única vez pelo preenchimento da proposta pelo cliente, pois é um mero prestador de serviços para o Bradesco.

Ao administrar um cartão próprio, porém, os Correios passam a ter participação em todas as operações, desde a emissão do cartão, passando pelos ganhos com os juros que chegam a ultrapassar 10% por mês, além de todas as operações de uso do cartão em compras.

"Esse segmento no Brasil é um filé. Ainda mais porque uma das coisas mais fáceis no Brasil é montar uma empresa de cartão de crédito", disse uma fonte ao Estado. Segundo essa fonte, porém, a melhor opção para os Correios é fazer uma associação com administradoras de cartão, que ficariam responsáveis pela emissão dos cartões e fariam a análise de risco dos clientes. Dessa forma, os custos e os lucros seriam "rachados" entre a estatal e a administradora. "Normalmente é meio a meio."

Aos poucos. O cartão pré-pago será um trunfo do Banco Postal em pequenos municípios, onde os Correios são a única opção bancária. Nessas localidades, em vez de o cliente sacar todo o dinheiro do salário de uma só vez ou ir ao banco várias vezes no mês, poderá creditar a quantia desejada no cartão pré-pago e usar o valor desejado aos poucos. "É como se fosse um vale-refeição, que vai reduzir o giro do dinheiro", explicou a fonte.

Os dois projetos estavam em gestação nos Correios há cerca de quatro anos, mas só agora se chegou a um consenso.

Por essa razão, esses produtos foram incluídos no edital de licitação, que está em processo de consulta pública e será alvo de audiência pública em 25 de fevereiro. O lançamento desses dois produtos ainda depende de autorização do Banco Central.

A expectativa dos Correios é que a licitação seja concluída até junho. O contrato com o Bradesco termina em 31 de dezembro. Procurados, os Correios informaram que só se manifestarão depois da audiência pública.

Atualmente, a exclusividade de uso do Banco Postal é do Bradesco, que pagou R$ 200 milhões em 2001 pelo serviço. O banco ainda desembolsa cerca de R$ 360 milhões ao ano por participação dos Correios na quantidade de transações realizadas nas agências do banco postal. O faturamento mínimo estimado para o Bradesco nesse segmento é de R$ 1 bilhão. Por outro lado, os Correios têm um custo que oscila entre R$ 10 milhões e R$ 20 milhões para levar aos cofres da estatal uma receita, no mínimo, 15 vezes maior que o custo.

Licitação para novos produtos será feita à parte

Ciente do potencial da capilaridade da rede de mais de 6 mil agências postais, os Correios lançaram mão do novo edital do Banco Postal para estabelecer que novos produtos, como o cartão de crédito e o cartão pré-pago da estatal, não tenham vínculo obrigatório com a instituição financeira que vencer a concorrência para prestar serviços de correspondente bancário.

Assim, se a estatal tiver autorização do Banco Central para lançar esses cartões ou decidir vender seguros, títulos de capitalização ou previdência privada nas agências, por exemplo, ela fará uma licitação à parte.

Pelos critérios do edital, só poderão participar da concorrência instituições financeiras que se enquadrem nos seguintes quesitos: ativos de R$ 21,6 bilhões e patrimônio líquido de R$ 2,16 bilhões, no mínimo.

Com essas condições, podem participar do leilão Banco do Brasil, Itaú, Bradesco, Caixa, Santander, HSBC, Votorantim, Safra, BTG Pactual, Banrisul, BNP Paribas e Citibank.

Na visão de Luis Miguel Santacreu, analista de instituições financeiras da Austin Rating, a lógica é que a disputa esteja concentrada entre bancos de varejo que operam em nível nacional.

Com a recente aquisição do Panamericano, que sempre foi voltado para o público de baixa renda, pelo BTG Pactual, porém, Santacreu observa que pode fazer sentido para o BTG Pactual entrar na disputa. "O mais importante hoje é aumentar a base de clientes", destacou. Em 10 anos, o Bradesco tem mais de 10 milhões de contas abertas pelo Banco Postal.

Uma fonte revelou ao Estado, porém, que há um item do edital que pode favorecer o Bradesco na disputa: o de número 5.1.11.1, que estabelece que o valor total que deve ser repassado aos Correios, pelo período de um ano, referente às transações bancárias, seja de R$ 337,3 milhões.

"Para quem está atuando nesse segmento há algum tempo, é viável. Mas, se outro banco vencer, precisaria de uns dois anos para assegurar esse valor." No ano passado, o Bradesco repassou R$ 360 milhões.

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