Daniel Teixeira/ Estadão
Daniel Teixeira/ Estadão

"Corremos o risco de virar um país normal"

Economista que vai trabalhar na campanha de Geraldo Alckmin diz que presidente eleito terá de domar situação fiscal

Entrevista com

José Roberto Mendonça de Barros

Renata Agostini e Douglas Gavras, O Estado de S.Paulo

22 Abril 2018 | 05h00

Economista e consultor de grandes empresas, José Roberto Mendonça de Barros acredita que o País está próximo de entrar num período de crescimento sustentável, no qual inflação e juros baixos não serão circunstanciais. “Corremos o risco de virar um país normal”, disse em entrevista ao Estado. Ingressar na nova fase depende, porém, de um presidente eleito que se empenhe em domar a situação fiscal, afirmou.

Para Mendonça de Barros, que foi secretário de Política Econômica no primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso, o próximo governo tem a chance de terminar o trabalho iniciado pela equipe que formulou o Real. “Precisamos de um caminho fiscal que complete a estabilização”. Ele disse que trabalhará com Persio Arida na elaboração do programa de Geraldo Alckmin (PSDB) à Presidência.

O sr. atuará na campanha?

Sim. Trabalharei com Persio Arida, que coordena o programa de Geraldo Alckmin. Estamos deixando a pior recessão da história e temos, portanto, a tarefa hercúlea de conseguir sair do buraco onde estávamos enfiados. Sinto-me não apenas compelido, mas diante de tarefa que não posso me furtar. O governador é um homem de bem, tem currículo e uma história, coisa que nem todos podem dizer que já possuem.

Teme o desfecho das eleições?

Eleições são sempre incertas. Acredito que estamos muito perto de entrar numa fase de crescimento sustentável. Seria uma pena se essa oportunidade não fosse aproveitada. É algo talvez complementar para quem participou do Plano Real lá atrás como eu, que estive no governo de 1995 a 1998. É a chance de completar o trabalho e de transformar o Brasil num país normal.

O que é um país normal?

Um país com o histórico de inflação e de juros elevados do Brasil tem uma anormalidade envolvida. Há muitas décadas estamos numa sucessão de avanços e retrocessos que mata o crescimento consistente. Um país normal, arrumado, cresce sempre. Não adianta acelerar por quatro anos e depois se esborrachar no muro. O efeito líquido é uma decepção. Isso tem de ser superado. 

O que seria completar o trabalho feito no Plano Real?

Primeiro, caminhar para a situação onde investir e melhorar faça parte do dia a dia. O setor agropecuário cresce há 40 anos, a despeito da infraestrutura e eventuais problemas climáticos. E isso se transformou em redução do custo da alimentação e da inflação. Outra coisa é enfrentar a crise fiscal, reduzindo o que o Estado se propõe a fazer. O experimento heterodoxo baseou-se em expansão enorme do Estado na hipótese de que bastaria empurrar dessa forma para o crescimento vir. Não veio. Ficou claro para todo mundo com o mínimo de honestidade intelectual que, com as regras atuais da Previdência e do setor público, não há chance de voltarmos a crescer. O desequilíbrio fiscal cresce de forma que derruba tudo. Precisamos de um caminho fiscal que permita completar a estabilização.

O governo FHC não interrompeu a expansão dos gastos públicos, que crescem desde então.

Lá atrás no Plano Real, a carga tributária era relativamente baixa. Era possível elevar gasto financiado por alta de imposto. Essa ficha foi gasta. Como prestar os serviços sem a parte fácil de aumentar tributação? A resposta está dada: transferir para o setor privado – notadamente o investimento. Outro pedaço vem da eventual redução de programas e sistemas deficitários: Previdência, regras do salário do setor público etc. Temos ainda de aproveitar o efeito da inflação, que está realmente baixa. Em três anos, considerando as projeções, teremos 3,5% de inflação, em média. E sem controle de preço, mágica cambial. Desde que temos índice de preços, não temos inflação assim. 

Qual o efeito para economia?

Empresas passam a se preocupar cada vez menos com mecanismos de indexação e cada vez mais com eficiência. Comerciantes me dizem agora que não precisam vender camisas preocupados com preço de reposição. O preço de venda é a política de posicionamento no mercado. Isso é um país normal. Vivíamos num País onde até camisa tinha spread. É uma vantagem para os empresários. Outra coisa a aproveitar é que, pela primeira vez no período pós-guerra, temos folga cambial de verdade. 

Esse cenário veio para ficar?

Pode se perenizar se conseguirmos avançar na agenda fiscal. Corremos o risco de virar um País normal: consolidar a inflação baixa, baixar de fato a Selic (a taxa básica de juros), que leve a juros mais baixos na ponta, com menor conta de juros por parte do Tesouro. Essa maior normalidade permite entrar com mais afinco no mundo moderno, saindo de estratégias defensivas para as de construção de crescimento.

A queda da Selic expõe a falta de competição no setor bancário, porque o juro na ponta não cede. 

Mas é isso mesmo, é tornar inexorável que aconteça. O Banco Central está com agenda correta, de estimular a competição com empresas novas. Em novembro passado, havia algo como 350 fintechs, empresas de base tecnológica ligadas ao sistema financeiro. Estamos beirando a possibilidade de ter expansão desse sistema.

Os bancos públicos podem ser privatizados?

Podem, mas não necessariamente devem. A política econômica que dá certo tem a ver com a época, com o próprio País. Houve período em que ou o BNDES financiava ou ninguém fazia. Hoje, boa parte desses programas pode ser feita pelo mercado de capitais. O que depende de pesquisa e desenvolvimento faz sentido ter participação do setor público. Tem coisas que o Estado faz e faz muito bem feito. Sem instituições públicas de ensino, não teríamos o agronegócio que temos hoje, por exemplo. 

Deve haver política de incentivo ao setor produtivo? 

Na partida, o espaço é muito pequeno, porque essas políticas envolvem recursos, que estão escassos. Os estímulos mais importantes são os gerais. É muito melhor ter previsibilidade das variáveis macroeconômicas, razoável convicção de que o crescimento será mantido, custo trabalhista e juros menores e políticas comerciais externas claramente definidas. O Itamaraty precisa ser resgatado para atuar num mundo com um monte de oportunidades.

Temos eleição similar a 1989?

Apenas no sentido de partir muito fragmentada. Do ponto de vista econômico, não dá para fazer paralelo. Temos a possibilidade de mostrar que dá para crescer sem pirotecnia. Importante lembrar que voltar a crescer é a matriz inicial, mas ainda somos um País de desigualdade gigantesca, que a recessão só fez piorar.

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