Correndo atrás das mansões de Mansur

Correndo atrás das mansões de Mansur

Justiça americana bloqueia movimentação financeira ligada a ex-dono do Mappin

Josette Goulart, O Estado de S.Paulo

08 de janeiro de 2017 | 05h00

Dezoito anos após a falência das lojas Mappin e Mesbla, investigadores privados conseguem as primeiras evidências de que Ricardo Mansur possui bens não declarados no exterior. Assinaturas do empresário em movimentações de contas bancárias em nome de uma empresa com sede nos Estados Unidos foram consideradas indícios suficientes pelo juiz americano da Corte de Falências da Flórida, Robert Mark, para determinar o bloqueio de qualquer movimentação financeira direta ou indiretamente ligada a Mansur. O juiz deu ainda poderes para que o síndico da massa falida no exterior, o advogado Afonso Braga, investigue o empresário.

Na prática, com essa decisão, os investigadores privados que fazem o trabalho para os credores do Mappin terão agora poder de polícia para ir atrás de bens não declarados de Mansur. Além disso, qualquer pessoa que movimentar recursos que, de alguma forma, sejam usufruídos por ele – ou seja, ‘laranjas’ – estará descumprindo uma decisão judicial e, portanto, sujeita a prisão. É como se o juiz tivesse cortado o cartão de crédito de Mansur.

De acordo com algumas fontes, diante dessa decisão que bloqueou o acesso ao dinheiro, Mansur teria deixado os Estados Unidos, onde estaria morando, e voltado ao Brasil. Seu advogado, Rodrigo Rocha Leal Gomes de Sá, garante, no entanto, que o empresário mora em São Paulo. Diz ainda que todos os bens de Mansur já foram entregues à Justiça, bloqueados na falência do Crefisul, o banco que pertencia ao empresário. Gomes de Sá também disse desconhecer a decisão da Justiça americana.

A mansão em que os investigadores acreditam que Mansur estaria vivendo ocupa uma área de 3,5 mil metros quadrados na North Bay Road, um dos endereços mais luxuosos de Miami. Até pouco tempo atrás, o ator hollywoodiano Matt Damon tinha casa na região, assim como a cantora Shakira. Eram mansões de valores na casa dos US$ 20 milhões. A suposta casa de Mansur é mais modesta que a dos vizinhos famosos. Ela tem “apenas” 600 metros quadrados e vale cerca de US$ 6 milhões (ou cerca de R$ 20 milhões). A casa possui sete quartos, cinco banheiros e uma ampla piscina. Não está no nome de Mansur, mas o objetivo dos investigadores agora é justamente provar que a residência pertence ou pertenceu ao empresário.

Além da mansão em North Bay Road, os investigadores também encontraram indícios de que Mansur pode ser dono de um apartamento de 500 metros quadrados, em um prédio de frente para o mar, em Bal Harbour, região que abriga os mais luxuosos hotéis de Miami e que custa por volta de US$ 4,5 milhões. 

A lista de bens encontrados em Miami também inclui 15 carros de luxo que pertencem à empresa Society Retail & Auction. Foi nesta empresa que o juiz determinou o congelamento da conta bancária, que traria indícios fortes de pertencer a Mansur, apesar de estar em nome de terceiros. Os carros são do quilate de um Cadillac Escalade 2016, que no Brasil custa por volta de R$ 600 mil, ou de um Rolls-Royce Phantom 2012, que segundo o site Webmotors pode custar mais de R$ 3,5 milhões. 

Além do processo nos Estados Unidos, os credores do Mappin também entraram com um pedido nas cortes inglesas, segundo o síndico da massa falida no Brasil, Nelson Carmona. Os casos correm em segredo de Justiça, mas são conhecidos alguns bens que o empresário possuía em Londres, como mansões em Kensington. O site Airbnb diz que Kensington “pode ser resumida por uma palavra: elegância”. Uma das casas de Mansur era na verdade um palácio, o Vitoria Palace, que teria sido vendido no ano 2000 por US$ 45 milhões. 

A venda do palácio foi logo na sequência da declaração da falência das lojas Mappin e Mesbla, que quebraram em julho de 1999. Naquele ano também faliu o banco Crefisul e outras empresas do grupo, como a holding Barnett. Antes de quebrar, Mansur era conhecido como o rei do varejo. Quando comprou as lojas Mappin e Mesbla, tinha por estratégia construir um império das vendas de varejo, com estratégia de comprar em grande quantidade todo tipo de produtos para vender a preços altamente competitivos. Mas as lojas, que já tinham dificuldades financeiras quando foram adquiridas, conforme conta um advogado ligado a Mansur na época, acabaram tendo problema de crédito.

Mansur acusou o Bradesco de ter sido o responsável pela falência, justamente por ter deixado de conceder crédito. O empresário processou o banco, pedindo uma indenização milionária. O caso foi julgado em primeira instância contra Mansur, por questões processuais, e o mérito do pedido de indenização sequer foi analisado, segundo Gomes Leal. O litígio hoje está em julgamento no Superior Tribunal de Justiça, que deve analisar a questão no dia 05 de fevereiro. A decisão do STJ pode extinguir de vez o processo ou então mandar retornar o caso à primeira instância para que o juiz analise a chamada questão de mérito – ou seja, se Mansur teria direito a indenização. Procurado, o Bradesco afirmou que não comentaria o assunto.

Há mais de cinco anos, Mansur foi condenado pela Justiça Federal a 11 anos de prisão por gestão fraudulenta, mas ele recorreu e até hoje o recurso não foi julgado. Com a demora para julgar o caso, a pena do empresário prescreveu.

Quanto à falência de suas empresas, apesar de já ter acontecido há quase 18 anos, até hoje o quadro geral de credores do Mappin, por exemplo, não foi sequer divulgado. Isso significa que o valor devido aos credores não é conhecido. No processo judicial nos Estados Unidos, o síndico da falência no exterior, Afonso Braga, alegou que apenas o rombo fiscal soma pelo menos R$ 350 milhões. Esse foi um dos argumentos para convencer o juiz a bloquear as contas das empresas que são suspeitas de pertencer a Mansur. Braga não quis dar entrevista porque, apesar de o processo na Flórida ser público, ele diz que as investigações são sigilosas. 

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