Corrida a fundo multimercado amplia fiscalização sobre risco

Anbima, órgão que autorregula o setor, anuncia que aumentará a atenção sobre o perfil de risco dos investidores

Anna Carolina Papp e Pedro Ladislau Leite, O Estado de S.Paulo

23 Abril 2018 | 05h00

Com a queda dos juros, o brasileiro saiu da toca da renda fixa e logo achou um novo “queridinho”: o fundo multimercado. Em 2017, o número de investidores desse produto mais que dobrou. Só no primeiro bimestre do ano, foram mais de 200 mil novas contas. A corrida em peso para essa aplicação motivou a instituição que representa o setor a voltar os olhos a uma questão essencial nesse ramo: a chamada suitability – termo em inglês para a análise do perfil de risco do investidor.

A Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) anunciou na última semana que, com a explosão pela procura desses produtos, irá reforçar a supervisão das análises. Os fundos multimercados funcionam como uma cesta de investimento e misturam diferentes ativos, como títulos de renda fixa, ações, moedas e até commodities. Em 2017, foram a "pérola" da indústria de fundos, com captarção de R$ 101 bilhões.

Antes de indicar esse produto a um cliente, porém, a instituição financeira precisa verificar se ele é compatível com a tolerância ao risco do investidor. Para isso, o banco ou corretora deve aplicar um questionário, que identificará se o perfil é conservador, moderado ou arrojado. “São muitos cotistas buscando fundo multimercado, cada vez mais complexo, com exposição a ações e ativos no exterior”, observa o superintendente de supervisão de mercados da Anbima, Guilherme Benaderet. “É importante que façamos uma verificação mais no detalhe sobre como esses produtos estão sendo oferecidos.”

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Nessa missão, o “xerife”, responsável pela regulação do mercado, é a Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Já a Anbima, como órgão de autorregulação, auxilia nesse processo. Benaderet explica que, ao final de todo ano, os distribuidores de fundos prestam contas sobre seus procedimentos de suitability, que são analisados no primeiro trimestre do ano seguinte. Porém, neste ano, a associação irá antecipar essa avaliação, com foco nos fundos que mais captaram, mais atraíram investidores ou têm maior exposição ao risco: “Iremos solicitar os questionários apresentados, verificar se foram preenchidos corretamente e se a carteira estava adequada ao investidor.”. As instituições começarão a ser contatadas em maio.

Guia. A diretora da corretora Planner, Priscila Vargas, explica que as normas de suitability definidas pela CVM estabelecem um guia básico. Mas, mesmo assim, uma pessoa pode ser considerada agressiva em uma instituição financeira e moderada em outras. “Cada lugar dá pesos diferentes a critérios como liquidez, prazo e renda.” Para ela, a classificação deve levar em conta aspectos dinâmicos. “Alguém pode ter investido por décadas grande parte da renda em ações, mas se precisar de um tratamento médico caro, o perfil dela não pode ser arrojado.”

O gestor da Rio Bravo Investimentos, Daniel Pettine, afirma que, agora, o aperto da fiscalização sobre a análise do perfil do investidor é importante. Como exemplo, ele cita que há um ano, 35% do aportes estavam em multimercado; hoje 60% dos recursos na modalidade. “Nos preocupamos que uma volatilidade maior assuste o cliente, que pode decidir retirar os recursos na pior hora possível.” O diretor de investimentos do Itaú, Claudio Sanches, concorda. “O cliente pode achar que volatilidade é apenas para cima, então precisamos de cautela na recomendação dos produtos.” 

PRESTE ATENÇÃO

1. Termo de responsabilidade

Caso o investidor queira aplicar em produtos não compatíveis com o seu perfil de risco, só poderá fazê-lo mediante a assinatura de um termo de responsabilidade.

2. Termo de adesão e ciência de risco

É obrigatório para todos os fundos. A Instrução CVM 555, que entrou em vigor em 2015, buscou dar mais transparência e facilitar a vida do investidor, determinando que o documento tenha no máximo 5 mil caracteres e contenha os cinco principais riscos do fundo. “Não adianta ter 20 páginas. É preciso ser uma política de risco sucinta para facilitar a leitura e o entendimento”, explica Vera Simões, gerente de registros e autorizações da CVM.

 

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