Gabriella Angotti-Jones/The New York Times
Gabriella Angotti-Jones/The New York Times

Corrida para atender demanda de carros elétricos por energia tem alto impacto ambiental

Início da exploração de uma mina de lítio, essencial para as baterias desses veículos, pode poluir águas subterrâneas por 300 anos, enquanto deixa um rastro colossal de dejetos

Ivan Penn e Eric Lipton, The New York Times

14 de maio de 2021 | 05h00

No topo de um vulcão há muito adormecido, no norte de Nevada, trabalhadores se preparam para iniciar as explosões para a escavação de uma gigantesca jazida que se tornará a mais nova mina de lítio para produção em larga escala nos Estados Unidos – a primeira aberta em mais de uma década no país. Um novo estoque de um ingrediente essencial para as baterias de carros elétricos e armazenamento de energia renovável.

A mina, constituída em terras cedidas pelo governo federal, poderia ajudar a aliviar a dependência quase total dos EUA de fontes estrangeiras de lítio. Mas o projeto, conhecido como Lithium Americas, gerou protestos de membros de uma tribo de nativos americanos, rancheiros e grupos ambientais, porque, segundo a previsão, consumirá bilhões de litros de preciosas águas subterrâneas, potencialmente poluindo parte do líquido por 300 anos, enquanto deixa um rastro colossal de dejetos.

A luta em torno da mina de Nevada simboliza uma tensão fundamental que surge por todo o mundo: carros elétricos e energias renováveis podem não fazer tão bem para o meio ambiente como parece. A produção de matérias-primas como lítio, cobalto e níquel, elementos essenciais para essa tecnologia, com frequência arruínam terras, águas, vida selvagem e pessoas.

Esse custo para o meio ambiente tem sido frequentemente ignorado, em parte porque existe uma corrida em andamento entre EUA, China, Europa e outras potências pela supremacia em relação aos minérios que poderiam ajudar os países a obter domínio econômico e tecnológico nas próximas décadas. Mas a mineração tradicional é um dos negócios mais sujos do mercado.

Essa fricção ajuda a explicar por que uma espécie de disputa emergiu nos EUA nos meses recentes a respeito da melhor forma de extrair e produzir grandes quantidades de lítio de maneiras muito menos destrutivas em comparação ao que a mineração fez com o planeta por décadas.

Alguns investidores estão apoiando alternativas que incluem um plano de extração de lítio das salgadas águas do Lago Salton, o maior da Califórnia, localizado cerca de 960 quilômetros ao sul da mina da Lithium Americas. Os EUA precisam encontrar rapidamente novas reservas de lítio para que seus fabricantes de automóveis possam aumentar a produção de veículos elétricos.

Ainda que possuam algumas das maiores jazidas do mundo, a maioria do lítio que é utilizado no país vem da América Latina ou da Austrália, e a maior parte é transformada em células de baterias na China e em outros países asiáticos.

O espólio de Nevada

Edward Bartell ou os empregados de seu rancho saem cedo todas as manhãs, de uma encosta de colina, para garantir que as cerca de 500 vacas e bezerros que vagueiam pelos 20,2 mil hectares de sua propriedade em pleno deserto de Nevada tenham o que comer. A poucos quilômetros de seu rancho, a Lithium Americas logo poderá iniciar a escavação da mina a céu aberto que se tornará um dos maiores polos de produção de lítio da história dos EUA.

O maior medo de Bartell é que a mina consuma a água que mantém seu gado vivo. Enquanto produz 66 mil toneladas por ano do carbonato de lítio usado para baterias, a mina poluirá águas subterrâneas com metais que incluem antimônio e arsênico, de acordo com documentos do governo federal.

“É frustrante que o projeto seja vendido como amigável ao meio ambiente, quando na realidade isso vai virar um enorme campo industrial”, afirmou Bartell, que abriu um processo na Justiça para impedir a construção da mina.

Na Reserva Indígena de Fort McDermitt, o projeto causou revolta, o que provocou até algumas brigas entre moradores, quando a Lithium Americas ofereceu empregos para membros de tribos, pagando um salário médio anual de US$ 62.675, mas que viria acompanhado de um grande prejuízo. “Quero saber que água vamos beber nos próximos 300 anos?”, berrou Deland Hinkey, membro da tribo, quando um funcionário do governo federal chegou à reserva, em março, para informar os líderes tribais a respeito dos planos de mineração.

Tim Crowley, um dos vice-presidentes da Lithium Americas, afirmou que a empresa operará de maneira responsável. Seu maior acionista é a empresa chinesa Ganfeng Lithium.

Os fabricantes de carros, porém, estão inclinados a encontrar métodos que tenham muito menos impacto no meio ambiente. “Tribos indígenas sendo expulsas ou tendo sua água envenenada ou qualquer outro desses assuntos, simplesmente não queremos ter nada a ver com isso”, afirmou Sue Slaughter, diretora de compras da Ford para sustentabilidade na cadeia de abastecimento. “Queremos realmente forçar os setores dos quais compramos materiais a garantir que estão produzindo de maneira responsável. Enquanto indústria, compraremos tanto desses materiais que teremos poder significativo para influenciar essa situação muito fortemente. E pretendemos fazê-lo.” /TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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