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Corrida por títulos dos EUA provoca alta global do dólar

Temor de redução dos estímulos monetários pelo Fed, junto com a baixa liquidez dos mercados, volta a causar volatilidade no câmbio

Fábio Alves, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2013 | 02h04

Uma corrida dos investidores por proteção a uma eventual redução dos estímulos monetários pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) a partir de setembro provocou ontem uma disparada dos juros pagos pelos títulos do Tesouro americano e, a reboque, fez o dólar subir fortemente ante moedas de países emergentes e exportadores de commodities.

Essa busca em manada por papéis do Tesouro americano, levando à alta dos juros, foi exacerbada pela baixa liquidez dos mercados internacionais em razão de muitos investidores do Hemisfério Norte estarem de férias. Os que ficaram operando no mercado decidiram antecipar suas posições para a próxima reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês), marcada para 17 e 18 de setembro, quando a maioria dos analistas e investidores espera que o Fed anuncie a redução do volume de compras de ativos, hoje em US$ 85 bilhões por mês, já que os EUA mostram sinais sólidos de recuperação.

"Os investidores estão numa posição de gestão de risco até a reunião do Fomc de setembro, ou seja, independentemente de o Fed reduzir ou não os estímulos monetários em setembro, os investidores estão antecipando desde já, nos preços dos títulos do Tesouro americano e do dólar, o risco de esse anúncio ocorrer na próxima reunião do Fomc", disse o estrategista sênior de câmbio do banco francês Société Générale em Nova York, Sebastien Galy.

Os juros dos papéis do Tesouro de 10 anos chegaram a bater 2,9%, mas recuaram no fim do dia para 2,88%, o que já corresponde a uma alta de 65% em comparação com o nível do fechamento do ano passado, quando pagaram juros de apenas 1,759%. Uma elevação dos juros de mercado, mesmo antes de uma ação do Fed de retirar os bilhões de dólares injetados para estimular a economia dos EUA, provoca uma valorização da moeda americana, já que as aplicações financeiras em dólar passam a ficar mais atrativas do que em outras moedas.

REPERCUSSÃO GLOBAL

O dólar bateu, no pico da sessão, R$ 2,4260, fechando em alta de 0,92% a R$ 2,4140. O peso chileno, por exemplo, perdeu 1,22% ante o dólar. Em relação ao peso mexicano, o ganho do dólar foi de 1,3%. Ante a rupia da Índia, o dólar valorizou-se 2,43%, com um avanço acumulado de 15% em 2013. Já o dólar australiano perdeu 0,7% ante a moeda americana, levando suas perdas em 2013 a mais de 12%. O dólar da Nova Zelândia caiu 0,5% ante o dólar americano, mas suas perdas no ano são de apenas 2,4%.

"Os bancos centrais, especialmente de países emergentes, serão forçados a agir, elevando os juros para compensar um movimento mais forte de valorização do dólar e da alta dos juros pagos pelos títulos do Tesouro", disse Galy. Os estrategistas do Société Générale estimam que os juros pagos pelos papéis de 10 anos podem subir até a 3,25% no fim deste ano, o que provocaria um impacto maior ainda sobre as moedas emergentes.

Na opinião do economista-chefe para os Estados Unidos do banco ING, James Knightley, à medida que indicadores de atividade mostrarem recuperação maior da economia americana, a pressão para ganho adicional do dólar e dos juros do Tesouro americano continuará.

Na quinta-feira, por exemplo, o Departamento de Trabalho dos EUA informou que o total de pedidos de seguro-desemprego caiu na semana anterior para o menor nível desde outubro de 2007, quase um ano antes do estouro da crise financeira deflagrada pela quebra do Lehman Brothers. "Não há nada, neste momento, que possa interromper esse movimento de alta dos juros dos papéis do Tesouro americano e do dólar", disse Knightley.

Segundo ele, mesmo com os investidores antecipando nos preços dos ativos o início da redução dos estímulos monetários, em breve terá início a especulação sobre quando o Fed começará, de fato, a elevar os juros básicos nos Estados Unidos. E, se o resultado da criação de vagas de trabalho em agosto, cujo número será divulgado em 6 de setembro, surpreender positivamente, os juros poderão facilmente superar a barreira psicológica de 3%, segundo Knightley.

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