Pixabay
Pixabay

Corrupção não é a única explicação para todos os males do Brasil

Grau de maturidade das instituições que moldam a governança de um país também é um fator relevante

Luís Eduardo Assis*, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2021 | 04h00

Em pesquisa recente da Genial-Quaest, 41% dos pesquisados apontam a crise econômica como o principal problema do País e apenas 10% elegeram a corrupção como a preocupação mais importante. Ainda assim, é provável que o debate eleitoral tenha a corrupção como o tema principal.

O Brasil é um país muito corrupto? Difícil saber com certeza. Não há uma medida objetiva de corrupção; o que se faz é apenas medir a percepção da população a respeito dela. Esse índice, chamado CPI, é publicado desde 1995 pela Transparência Internacional. Na edição de 2020 foram pesquisados 178 países e não, não somos campeões mundiais. O Brasil ficou na 94.ª posição. Estamos entre o Equador e a Etiópia. Na ponta, considerados menos corruptos, temos Dinamarca, Nova Zelândia, Finlândia e Cingapura. Na rabeira, temos Sudão do Sul, Somália, Síria e Iêmen. O primeiro grupo é, claramente, constituído por países mais ricos que o segundo. O coeficiente de correlação do CPI desses 180 países com os respectivos índices de desenvolvimento humano, medido pelas Nações Unidas, é de 76%, o que indica uma correlação positiva relativamente forte. 

Mas é importante resistir à tentação de concluir que um menor índice de corrupção leve automaticamente a maior desenvolvimento. O mais provável é que as duas variáveis sejam correlacionadas, porque ambas dependem simultaneamente de uma terceira, que deve ser o grau de maturidade das instituições que moldam a governança de um país. 

Mas é sempre mais conveniente atribuir um peso crucial à corrupção nas explicações de todos os nossos males. Por que isso? Porque a corrupção está alheia ao embate que envolve os vários segmentos da sociedade. Os corruptos são uma ínfima minoria da população e atribuir a eles um papel fundamental nos exime de uma discussão inconveniente sobre ajustes que nos afetam. São terceiros, o que nos permite pensar que não pagaremos a conta. Não é conosco. Ao contrário, a solução da crise fiscal, que está na raiz de nossa estagnação econômica, nos envolve a todos. 

Uma reforma tributária que promova um sistema mais progressivo significa que os ricos vão pagar mais impostos e os subsídios vão ser reduzidos. Mudanças na estrutura de gastos do setor público implica que segmentos organizados perderão privilégios. Tudo isso gera conflitos. É mais conveniente acreditarmos que a corrupção explica tudo. Não é verdade, mas dói menos. 

* ECONOMISTA. FOI DIRETOR DE POLÍTICA MONETÁRIA DO BANCO CENTRAL E PROFESSOR DE ECONOMIA DA PUC-SP E FGV-SP

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.