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Gilles Lapouge
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Corrupção no poder

Não é só o Brasil que produz interessantes casos de corrupção. A França também faz o que pode - aliás, nesta arte é dona de um talento especial. Nada de chauvinismo: não vou dizer que os escroques franceses são os melhores do mundo, mas, reconheçamos, tampouco são nulidades.

GILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

12 de julho de 2013 | 02h06

Para falar deste tema numa crônica esbarramos em dois obstáculos: o primeiro é que essas fraudes são tão complicadas, tão enroladas, concebidas por cérebros tão podres e ao mesmo tempo tão geniais, que é difícil apresentá-las em termos claros a um público estrangeiro, no caso o brasileiro, que não acompanhou o início deste folhetim, dez anos atrás. O segundo inconveniente é que são casos tão numerosos que não se sabe qual escolher. Cada um tem o seu pequeno mérito. Por exemplo, o de Bernard Tapie.

Tapie é um homem fascinante. Filho de um operário, não estudou em universidades. Boa pinta e bem falante, fez um pouco de tudo: foi cantor, ator, proprietário de um grande time de futebol (o Olympique de Marselha), ministro de François Mitterrand, que era socialista, amigo íntimo de Nicolas Sarkozy, que não é nem um pouco socialista. Homem de negócios genial, adquiria empresas falidas, as ressuscitava e revendia.

Uma das suas últimas façanhas data dos anos 80, quando vendeu uma de suas empresas, a Adidas, ao banco Crédit Lyonnais, numa transação não muito clara. Trinta anos mais tarde, em 2008, pouco depois da chegada de Sarkozy ao poder supremo, Tapie recebeu uma indenização fabulosa do Estado, graças a um procedimento exorbitante, uma arbitragem que lhe permitiu receber a soma gigantesca de 405 milhões.

Hoje, cinco anos mais tarde, a Justiça está se mexendo. Considerando essa "arbitragem" muito estranha, abriu um inquérito contra Tapie por "fraude e formação de quadrilha", e ordenou o confisco de parte dos seus bens. Quais? Suas posses são enormes, uma caverna de Ali Babá.

Até agora, foram confiscados até mesmo vários seguros de vida no valor de 20 milhões, mais 69 milhões sobre o palácio que ele possui em Paris, depois a Villa Mandala ( 48 milhões) em Saint Tropez, adquirida em 2011 com parte da propina da arbitragem, mais seis contas bancárias (de 15 milhões), um outro contrato de seguro de 160 milhões, etc.

A Justiça não deve parar por aí. Mas não há com que se preocupar.

Tapie tem muitas outras joias. Por exemplo, o iate Reborn, de 74 metros de comprimento, adquirido com o dinheiro da arbitragem; três grandes jornais regionais na Provence (sempre a arbitragem). E, na pior das hipóteses, a mulher de Tapie comprou para o filho, o jovem Stéphane, um apartamento em Neuilly (por 1,335 milhão) e uma mansão, sempre em Neuilly, por 15 milhões.

Mas os juízes falaram de "fraude e formação de quadrilha". Portanto, procuremos a quadrilha. E aí, novo imbróglio, porque os membros de uma quadrilha se volatilizam, se escondem, são sempre puros como cordeiros recém-nascidos na pele de raposas velhas. O certo é que foi a quadrilha que decidiu acertar o litígio Tapie/Crédit Lyonnais lançando mão do recurso inverossímil de um "tribunal de arbitragem".

Assim, foram abertos inquéritos contra várias pessoas ao mesmo tempo que Tapie: por exemplo, um alto funcionário do Ministério da Economia, ou ainda um dos três juízes que fingiram não conhecer Tapie - o qual entretanto era seu amigo. E mais alguns outros.

Tubarões. Estes são os peixes grandes, mas os juízes estão no encalço de peixes maiores ainda, verdadeiros tubarões, gente do mais alto escalão, que deu a ordem, em 2008, de solucionar o caso Tapie graças a uma arbitragem, comprada para a causa do ex-ministro. Estamos chegando à cúpula. A pessoa que deu a ordem era na época a ministra das Finanças, Christine Lagarde, hoje diretora do Fundo Monetário Internacional (FMI), cargo no qual sucedera a outro francês, Dominique Strauss Kahn, que caiu de maneira vergonhosa depois de atacar sexualmente uma pobre camareira num hotel de Nova York. Decididamente, a França não tem sorte no FMI.

Christine Lagarde foi ouvida, mas nenhum inquérito foi aberto contra ela. E há muitas outras pessoas ainda: gente que na época estava na Presidência da República, no Palácio do Eliseu, onde acabara de se instalar Nicolas Sarkozy.

Com toda a probabilidade eram estas as pessoas que constituíam a quadrilha de que fala a decisão dos juízes. Mas, para que haja uma quadrilha, é preciso que exista um "chefe", e este não é conhecido. Os juízes vasculharam as agendas de Tapie e constataram que, entre 2007 e 2009, Tapie foi recebido 22 vezes no Eliseu por Sarkozy. Além disso, em julho de 2007, ocorreu uma reunião insólita, no Eliseu, na qual Tapie defendeu sua causa e quase ditou suas ordens a um grupinho de pessoas muito importantes. Foi nesse dia que ficou decidido recorrer à arbitragem.

Interrogado a respeito desta reunião, infelizmente Tapie alegou não se lembrar do fato. Absolutamente nada! E Sarkozy, será que estava lá ou na sala vizinha? Perguntaram a Christine Lagarde se, quando ela ordenou que se recorresse à arbitragem, ela agiu por ordem de Sarkozy. Lagarde respondeu que "não". É possível que a diretora do FMI seja novamente interrogada pelos juízes. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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