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Dan Kawa: Separar o ruído do sinal é a única forma de investir corretamente daqui para a frente

Corrupção vira foco de campanhas publicitárias

Agosto é conhecido por ser o mês da racionalidade no Brasil. O dinheiro está curto porque acabou de ser torrado nas férias de julho e mais da metade do ano já foi embora. Ou seja: é hora de encarar a realidade. Esse sentimento parece ter contaminado até a publicidade. Neste mês, a grife Fórum e o canal MTV estréiam duas campanhas contra a corrupção e a falta de ética no País com um discurso que no passado recente era dos partidos de oposição. A campanha da Fórum faz parte de um movimento maior iniciado pela grife há quatro anos, quando foram lançadas camisetas ?pedindo? fé, respeito, honestidade, esperança e luta. Desta vez, porém, a mensagem é bem mais engajada. Num dos cinco anúncios, por exemplo, há um modelo cortando, com tesoura de jardineiro, o nariz de Pinóquio de homens engravatados e carregados de mala de dinheiro. Não há como não ligar a cena ao escândalo do mensalão. Num outro, o sabão em pó é colocado numa urna, numa referência explícita à faxina. Numa terceira peça, uma modelo joga pequenos bonecos de uma caixa (onde se lê CPI) numa lata de lixo. Do lado de fora da lata, restam poucos bonecos. A mensagem é clara: a moça em questão está separando o joio do trigo. Com essas imagens, não foi preciso dizer muito. A única referência à Fórum são os modelos magros e bonitos usando calças jeans. O objetivo da Fórum não é fazer panfletagem. A grife evita a todo custo associar a campanha às eleições de outubro. Mas a ligação é inevitável a três meses do pleito. ?Não é uma campanha política, é uma campanha de ética e de atitude. Não há nenhuma referência aos políticos?, diz Vicente de Mello, vice-presidente da Fórum.A campanha não irá para a TV. Ficará em outdoors, nas vitrines de lojas da grife e será veiculada em jornais e revistas de grande circulação até o fim deste ano. A Fórum investiu R$ 2 milhões na campanha.Campanha na MTVO canal MTV foi mais radical. Não hesitou em escancarar a sua indignação com os políticos do País. A primeira parte da campanha entrou no ar na última semana de julho e criou polêmica no blog do prefeito do Rio, César Maia. Ele acusou a rede de TV de incentivar o voto nulo. O slogan da campanha é provocativo. Pede que os eleitores preparem ovos, tomates e a pontaria para votar nessa eleição. ?Nosso objetivo não era incentivar o voto nulo. Quisemos dar uma porrada inicial, mas parece que o César Maia vestiu a carapuça?, diz Zico Goes, diretor de programação da MTV. ?A gente quer fomentar a indignação, mostrar que não basta votar. É preciso votar com raiva?, diz.Na sexta-feira passada, o canal colocou mais lenha na fogueira ao inserir a segunda propaganda da série, desta vez contra o ?político nulo?. ?Isso já estava planejado, mas antecipamos a campanha por causa da polêmica?, diz Goes. A provocação não acabará aí. A MTV inventou um horário político próprio só com músicas de protesto para ir ao ar logo após o horário político obrigatório da TV.Cenário políticoAs propagandas entram em circulação num momento de descrença provavelmente nunca antes visto no País. O governo Lula já é apontado como um dos mais corruptos da história. O mesmo se pode dizer do atual Congresso. A última pesquisa CNI/Ibope, divulgada na sexta-feira passada, captou bem esse clima. Os votos brancos e nulos somaram 9%, o equivalente a 11 milhões de brasileiros.Nesse mesmo período, no ano de 2002, a pesquisa do Ibope registrou um porcentual de 5% para votos brancos e nulos. ?O clima de indignação está claro em todas as pesquisas de opinião?, diz o cientista político Ricardo Guedes, do Instituto Sensus. ?A esquerda simbolizava no imaginário social a ruptura, o último reduto da ética. Há uma frustração com toda a classe política?.Essa não é a primeira vez que a publicidade se pauta pela política. A diferença é que essas duas campanhas chegam com um tom mais agressivo, discurso que até então pertencia aos partidos de oposição . ?A campanhas, sem dúvida, estão sintonizadas com o sentimento geral da população. Há um tom mais amargo nelas?, afirma Paulo Nassar, professor da Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo.?Os manifestantes que quebraram o Congresso não usavam calça Fórum, mas pensavam da mesma maneira. As campanhas são um espelho da sociedade, são feitas para um público também transgressor.? Nassar compara as duas campanhas à série de crônicas políticas feitas pelo Garoto Bombril no passado. Segundo ele, o tom dos anúncios era mais caricatural e menos indignado. O Garoto já fez sátiras ao casal Celso e Nicéa Pitta e Fernando Henrique e Ruth Cardoso. O criador da campanha, o publicitário Washington Olivetto, avisa: ?Nós, fatalmente, faremos alguma peça política nesta eleição.? Para ele, o que não falta são bons personagens. ?A gente só não usou a deputada que dançou no Congresso e o caseiro porque o Garoto Bombril ainda não tinha voltado ao ar.? A patrulha só começou.

Agencia Estado,

06 de agosto de 2006 | 08h51

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