Werther Santana|Estadão
Werther Santana|Estadão

Corte da Selic é pequeno e insuficiente, diz Pessôa

Para o chefe de crescimento econômico do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), o corte anunciado hoje foi "tímido"

Entrevista com

Samuel Pessôa, chefe de crescimento econômico do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getúlio Vargas

Douglas Gavras, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2020 | 19h29

Para o chefe de crescimento econômico do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), Samuel Pessôa, o corte para 3,75% ao ano da Selic, a taxa básica de juros, foi tímida, dado o tamanho do desafio que a economia brasileira tem pela frente, com os reflexos causados pela epidemia do novo coronavírus. A seguir, trechos da entrevista.

Como o sr. avalia esse novo corte da Selic?

É um movimento importante, mas veio um corte pequeno, insuficiente. Uma outra questão é que o texto do comunicado não é condizente com o que o tamanho da crise que a gente está vivendo. Eles falam de uma possibilidade de risco de pressões causado pelo novo coronavírus, como se ainda fosse uma possibilidade. Esse risco já está absolutamente intensificado.

Era preciso que o Copom fosse mais enfático, dada a gravidade da crise que está por vir?

Veja bem, começa a circular uma revisão de atividade econômica nos Estados Unidos para queda de 5%. No Brasil, era  importante que o Banco Central desse uma indicação de uma queda mais acentuada. Além disso, o texto tinha de evocar a total situação de excepcionalidade. Veio o mesmo texto burocrático, que reflete o comunicado de toda reunião. É um texto sistemático, sóbrio, mas a situação requer uma decisão mais incisiva.  

Por que o sr. avalia que corte da Selic foi pequeno?

O corte foi pequeno porque o choque de demanda que a economia brasileira  sofre agora significa que o juro neutro (o suficiente para manter a economia rodando sem choques inflacionários) está por volta de 2%, com a inflação em 5%. Com esse novo corte da Selic, portanto, há um impulso monetário de 1,25%. Esse choque brutal de demanda deve ter jogado o juro neutro muito para baixo. Não ficaria surpreso se o juro neutro estivesse hoje em 0% ou até negativo. A Selic, portanto, deveria ter tido um corte mais agressivo. O momento requer uma política monetária mais forte.

O governo tem conseguido responder com eficiência a um desafio desse tamanho?

Tenho sentido que o governo está atrasado, ele estava sem um sentido de urgência. Ontem, houve uma série de anúncios. É preciso avaliar com mais calma os efeitos, mas a coisa pode está começando a ganhar uma velocidade. Até o começo da semana, eu sentia um atraso injustificado. Parece que eles estão tentando recuperar terreno. Tomara que estejam mesmo.

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