Corte da Selic prejudica meta de fundos

Acostumado ao retorno garantido dos títulos públicos, fundos de pensão veem dificuldade em obter ganho de 6%, além da inflação

MÔNICA CIARELLI / RIO, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2012 | 03h06

A queda das taxas de juros no Brasil desenhou uma nova realidade para os fundos de pensão, acostumados ao retorno garantido dos títulos públicos. O diretor de investimentos da Previ, Renê Sanda, alerta que em um ano, no máximo, nenhum papel do governo vai oferecer rentabilidade suficiente para assegurar às fundações o cumprimento das metas atuariais.

Segundo ele, essa preocupação já está no radar do governo, que estuda baixar o teto da meta atuarial, fixada hoje em 6% mais inflação. Para o presidente da Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (Abrapp), José de Souza Mendonça, o setor deverá ter um cuidado maior na gestão dos ativos agora que a temporada de ganhos fáceis com títulos públicos acabou. "Correr risco não é pecado. Pecado é não saber o risco que se está correndo", argumentou.

Sanda acredita que boa parte dos recursos que vão migrar do conforto dos papéis do governo deve acabar engordando o volume de negócios da bolsa de valores. Esse movimento é bem-visto pelo executivo, principalmente pelo fato de o mercado acionário operar hoje com preços convidativos. "Acho que será uma tremenda oportunidade de formar uma carteira nesses pequenos fundos que farão com que essa rentabilidade sejam facilmente superada." E completou: "É interessante fazer esse movimento quando se tem pechinchas na bolsa".

Calibragem. Para o diretor da Funcef, Maurício Marcellini, as grandes fundações se prepararam para esse cenário. Mas será preciso uma calibragem no setor. O principal problema hoje, pondera, é que existe um número grande de fundações ainda muito aplicadas em renda fixa. "Não tem mágica. Ou se aumenta o risco dos investimentos, ou se eleva as contribuições, ou se adia a aposentadoria. Essa discussão está permeando o setor."

Uma das estratégias vislumbradas pela Funcef para obter mais rentabilidade em suas aplicações é elevar a fatia de investimentos para operações estruturadas. O objetivo é sair dos atuais 7% da carteira para um nível entre 10% e 12% nos próximos cinco anos.

Já Sanda lembra que a Previ precisou também modificar o perfil das aplicações em renda fixa. "O primeiro passo foi fugir da Selic, o que já fizemos. Estamos hoje com uma carteira (em renda fixa) indexada a inflação", explicou. "A mudança brusca do patamar dos juros foi objeto de algumas mudanças estratégicas na Previ, como o maior apetite a risco privado." A carteira de títulos privados cresceu de R$ 4,3 bilhões no fim do ano passado para R$ 7,2 bilhões em junho.

Mas, para o executivo, não há ativos em renda fixa privada suficientes para atender a necessidade crescente dos fundos de pensão. "Nas poucas emissões que ocorreram este ano, a taxa de risco foi muito baixa. Acho que está havendo um excesso de demanda. O risco de crédito, às vezes, não está sendo bem precificado", argumentou.

O risco de crédito também preocupa a Funcef. Segundo o diretor, a fundação tem optado por ficar fora dessas emissões por considerar que a rentabilidade oferecida não compensa o risco de crédito envolvido.

O governo deve baixar ainda este ano o limite da meta atuarial dos fundos de pensão, hoje em 6% mais inflação, segundo o diretor da Previ.

A expectativa é de que o teto da meta caia para 5,5% este ano, chegando em 4% mais inflação em quatro anos.

O setor já vem se antecipando a essa mudança. Dados da Previc mostram que 57% das fundações já trabalham com metas mais baixas do que o limite fixado pelo governo. Em 2009, esse porcentual era de 39%. Mas Mendonça, da Abrapp, não vê necessidade desse ajuste. Para o executivo, a regra se refere ao teto da meta e as fundações podem fazer sozinhas essa calibragem.

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