'Corte de IPI resgatou confiança'

Jackson Schneider.[br]Presidente da Anfavea

, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2010 | 00h00

Na sexta-feira, Jackson Schneider passa o comando da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) ao presidente da Fiat, Cledorvino Belini. No cargo desde abril de 2007, ele avalia que a infraestrutura brasileira, principalmente em relação ao transporte público, não acompanha o crescimento do País e do mercado de veículos. "Se todos os carros saíssem na rua em uma cidade como São Paulo, ela pararia. Se os carros fossem proibidos de sair à rua, a cidade também pararia porque não tem transporte coletivo para todo mundo."

Como o setor conseguiu não sucumbir à crise internacional?

Conseguimos, em parceria com todos os segmentos envolvidos na cadeia produtiva, desenhar junto com o governo uma série de medidas que permitiram a superação da crise. Entre elas estão a liberação de linhas de crédito e depósitos compulsórios, linhas do BNDES para máquinas agrícolas e caminhões, o IPI para automóveis, linhas de crédito do Banco do Brasil e da Nossa Caixa. O IPI foi a medida que teve maior impacto, pois produziu um efeito emocional de atração do consumidor para a loja. Criou-se um movimento positivo que se espalhou inclusive para outros setores quando algumas das medidas foram replicadas. Mas, como o setor automotivo representa cerca de 25% do PIB industrial, isso trouxe para o País um contrafluxo à crise e foi positivo. Aos poucos a crise foi sendo superada, os benefícios foram sendo retirados. Com o fim do IPI, neste mês, partimos para outra etapa de crescimento e investimento.

Os resultados parciais de abril já indicam o que vai ocorrer com o mercado pós-IPI?

Há um crescimento já previsto nas primeiras semanas, seja pelos veículos vendidos em março que estão sendo licenciados agora, seja por promoções que ainda estão sendo oferecidas. Até o fim do mês devemos fechar com vendas de 270 mil, 280 mil veículos, resultado recorde para um mês de abril, mas, claro, inferior aos mais de 350 mil veículos vendidos em março. Ainda é cedo para dizer se o mercado seguirá bem sem o IPI. Temos de esperar até maio para ter um retrato melhor, pois ainda há muitas promoções sendo oferecidas.

O ideal seria continuar com o IPI reduzido?

O IPI teve seu papel, foi fundamental e cumpriu aquilo para o que foi estruturado, seja com efeito real em relação a elasticidade de preço e demanda, seja como fator psicológico de atração do consumidor à loja. Ele funcionou como resgate da confiança do consumidor. E essa confiança ocorreu antes da decisão de investimentos das próprias empresas, que veio na sequência. Mas ressalto que a carga tributária em geral entra na formação do custo do carro brasileiro e ela é mais alta no Brasil em relação a outros países.

A disponibilidade de crédito ajudou muito o mercado. O aumento da Selic previsto para esta semana atrapalha?

Depende do comportamento de outros fundamentos da economia em geral, principalmente em relação ao mercado de consumo. Nos últimos seis, sete anos, mais de 20 milhões de habitantes migraram das classes D e E para a C. Essas pessoas, durante anos, foram bombardeadas por propagandas de produtos que não podiam comprar e agora podem, como carros e eletrodomésticos. Esse movimento continuará ascendente nos próximos anos.

O que o senhor diz para as pessoas que reclamam dos congestionamentos nas grandes cidades por causa do excesso de carros?

Essas mesmas 20 milhões de pessoas passaram a ter outras condições, como lazer e emprego formal, não necessariamente perto de onde moram e, portanto, precisam também de um meio de locomoção. O transporte público não foi ampliado na mesma proporção. Ou seja, não apareceram 20 milhões de novos assentos de ônibus, trem ou metrô e muitas pessoas migraram para o carro justamente como opção de locomoção. Existe um estrangulamento dos transportes coletivos que precisa de mudanças rápidas, e algumas estão ocorrendo. Se todos os carros saíssem na rua ao mesmo tempo numa cidade como São Paulo, ela pararia. Se os carros fossem proibidos de sair à rua, a cidade também pararia porque não tem transporte coletivo disponível para todo mundo. Brincando com as palavras, o efeito é praticamente o mesmo. É um debate que não vai ser resolvido da noite para o dia, pois a deficiência vem de longo prazo.

A infraestrutura é um gargalo?

Um país que cresce a uma taxa que o Brasil está crescendo - já se fala 6,5% - é claro que vai enfrentar o desafio do investimento em infraestrutura. Só não será mais um desafio quando pararmos de crescer. O Brasil continuará crescendo e cada vez mais demandando grandes e novos investimentos em infraestrutura e cada vez mais obras robustas, audaciosas e demandadoras de recursos, que terão de ser identificados pelo Estado, organismos de fomento e pela iniciativa privada. É fundamental também o investimento em educação para que não tenhamos limites de crescimento nem físico e nem humano.

Outro recorde é o das importações. Isso vai continuar?

Até determinado ponto a importação absolutamente é normal, pois grande parte vem de tradicionais mercados para os quais exportamos, temos integração. Mas, quando os mercados estão fechados para importação, não há um equilíbrio. A balança pode até se equilibrar como um todo, mas não nos produtos industriais em si, o que não é tão positivo. O Brasil terá de desenhar o modelo de exploração do grande mercado que estamos construindo. Vamos ter um modelo de venda, de produção ou vamos fazer de conta que estamos produzindo?

A China já é a ameaça que tanto se pregou nos últimos anos?

A China está absorvendo seus produtos internamente. O mercado local saiu de 9 milhões de veículos em 2008 para 13 milhões em 2009. O problema será no momento em que o país virar a chavinha e dizer que 10% ou 20% do que produz irá para exportação. Aí vira um grande dilema. Para competir, precisamos de uma indústria estruturada, sofisticada, que agregue valor aos seus produtos e tenha condições de desenvolver inteligência tecnológica./ C.S.

QUEM É

CV: Vice-presidente de Recursos Humanos, Jurídico e de Relações Institucionais da Mercedes-Benz do Brasil. Gaúcho, 44 anos, é advogado com Master Business Administration (MBA) pela Business School de São Paulo e estágio na Rotmann School, de Toronto, Canadá.

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