Washington Alves / Reuters
Corte de 92,6 milhões de toneladas de minério de ferro deve reduzir crescimento do PIB do País em 10%. Washington Alves / Reuters

Corte de produção da Vale deve abater 10% do crescimento do PIB em 2019

Redução de 92,8 milhões de toneladas na produção de minério pode prejudicar a indústria extrativa e tirar 0,2 ponto porcentual do PIB este ano, segundo cálculo da FGV; efeito pode ser em parte compensado por alta de produção esperada na Petrobrás

Fernando Scheller, Impresso

13 de abril de 2019 | 22h00

A redução da produção de minério de ferro da Vale deve ter um impacto devastador para Minas Gerais e, segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV), o efeito para a economia brasileira também é considerável. Cálculo feito a partir do peso da indústria extrativa no Produto Interno Bruto (PIB) mostra que o corte estimado pela Vale de 92,8 milhões de toneladas de minério – 23% da produção do País – deve gerar um impacto de 0,2 ponto porcentual no PIB nacional em 2019. Ou seja: considerando a média das estimativas para o avanço da economia este ano (que é de quase 2%), 10% do crescimento deve se perder na esteira da tragédia de Brumadinho, que deixou 277 vítimas, entre mortos e desaparecidos.

Em Minas, a restrição da produção da Vale – seja em resposta a sentenças judiciais ou por decisões internas – terá um efeito brutal, segundo a Fiemg, federação das indústrias do Estado. Além de prever que, mantida a situação atual, 850 mil vagas podem ser fechadas, a entidade calcula que o PIB estadual só vá avançar 0,8% este ano – menos de um quarto da projeção anterior, de 3,3%. “Temos de aprender com os fatos (de Brumadinho e Mariana), mas os efeitos na economia são perversos”, diz o presidente da Fiemg, Flávio Roscoe. Para ele, após a tragédia de Brumadinho, a Vale adotou “posição conservadora”.

Enquanto para Minas a saída do buraco financeiro depende da retomada da produção da Vale, a compensação para o Brasil pode vir de outra fonte, segundo a FGV. A Petrobrás anunciou que pretende elevar a produção de petróleo em 10% em 2019. Caso a previsão se confirme, diz a pesquisadora Luana Miranda, do Ibre/FGV, metade do efeito negativo no PIB seria eliminado, reduzindo a perda para 0,1 ponto porcentual, ou 5% do avanço estimado para 2019.

O reflexo da redução na extração da Vale é mais agudo para municípios como Itabira, Nova Lima, Ouro Preto e Mariana, que têm até 90% da arrecadação atrelada à mineradora. Diante dessa dependência, a Vale anunciou repasse de R$ 100 milhões, nos próximos três meses, para garantir que as cidades tenham como pagar funcionários e serviços essenciais.

Embora essa compensação para a perda de arrecadação resolva a questão de curto prazo, a Amig, associação dos municípios mineradores, diz que a ordem econômica só se restabelecerá com a retomada da produção. “Nas minas Timbopeba (Ouro Preto), Alegria (Mariana) e Brucutu (São Gonçalo do Rio Abaixo), a questão pode ser resolvida até o meio do ano”, diz Waldir Salvador, consultor da Amig.

Procurada, a Vale diz que a estimativa de corte de 92,8 milhões de toneladas para o ano segue válida. Destaca que “a produção nessas localidades só será retomada quando a segurança das estruturas estiver assegurada”.

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Mariana agora vive temor do colapso econômico

Após ser palco da tragédia da Samarco, em 2015, município sente os efeitos da paralisação das minas após o caso Brumadinho

Fernando Scheller, enviado especial, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2019 | 22h00

MARIANA (MG) - Com a paralisação das minas da Vale em Mariana, os 2,2 mil funcionários da empresa na cidade se dedicam a tarefas de manutenção e segurança. Nas montanhas do entorno do município, não se vê movimentação de caminhões e máquinas pesadas. Esse marasmo se reflete na economia da cidade, que foi palco da tragédia da Samarco, em novembro de 2015, evento que deixou 19 mortos e um impacto ambiental sem precedentes. Com a Vale sem data para voltar a produzir, Mariana vive sob o medo de uma onda de desemprego ainda maior, que pode levá-la ao nocaute.

A gravidade da situação levou a prefeitura a decretar, no fim de março, calamidade financeira. Com arrecadação de R$ 27 milhões ao mês até 2015, o município viu suas receitas caírem a R$ 20 milhões após a paralisação das atividades da Samarco, parceria entre a Vale e a australiana BHP Billiton. Com a parada de toda a atividade minerária em março, a expectativa era de que a arrecadação caísse a R$ 12 milhões. “Não daria nem para pagar a folha”, diz o prefeito Duarte Júnior.

Por ora, Mariana desviou-se da insolvência financeira. A decretação de calamidade – que incluiu o anúncio de cortes nos gastos do município em educação, segurança e saúde – gerou reação rápida da Vale. Dias depois de Duarte Júnior para expor a situação de Mariana, a empresa comprometeu-se a investir R$ 100 milhões para compensar o impacto que a paralisação das minas teria na arrecadação dos municípios mineradores.

No caso de Mariana, 85% da arrecadação da cidade vêm da mineração. Apesar de ser um centro turístico, a atividade só responde por 1,8% da receita. O prefeito admite que o dinheiro da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM), criada pela Constituição de 1988 como um fundo para diversificar a economia dos municípios, acabou não sendo usado para esse fim. Isso agora intensifica o problema das cidades.

Mesmo sem produzir, a Vale se comprometeu não só a repassar R$ 100 milhões a dez prefeituras, mas também a manter os empregos que gera atualmente. Segundo a prefeitura, o desemprego em Mariana é de 19%. Trata-se do triplo do índice da época na qual a Samarco ainda operava. A piora do indicador reflete tanto o fechamento de quase 900 vagas pela mineradora quanto a crise econômica.

Tensão

Como não há previsão de retomada das operações, a Vale se comprometeu com a Associação dos Municípios Mineradores de Minas Gerais (Amig) a voltar a debater novos repasses em três meses. Enquanto a situação não se resolve, cresce o temor de desemprego entre os trabalhadores da Vale. O medo se baseia em um precedente: afinal, a Samarco manteve os empregados durante algum tempo, mas, como até hoje não retomou as atividades, acabou fazendo cortes.

O que se vê nos dados da prefeitura se reflete no dia a dia da população – e principalmente no comércio da cidade. A dependência da Vale é tão forte que um dono de farmácia da cidade diz que, com medo de ficarem “visados”, trabalhadores passaram a “racionar” o uso do benefício da empresa que dá descontos de até 70% na compra de medicamentos. “A gente está sentindo muito”, diz ele.

Um dos membros da família proprietária de uma quitanda no centro de Mariana, Douglas Magalhães, de 31 anos, afirma que, em Mariana, “ou a pessoa trabalha na Vale ou no comércio, não tem outra opção”. Segundo ele, desde que a produção da mineradora foi totalmente interrompida, as vendas caíram 40%. “As pessoas estão com medo, é natural.” O açougueiro Antônio Rosivaldo Gomes, 70 anos, também se queixa das vendas. Ele tem uma fórmula para evitar prejuízo: “Não vendo fiado, como fazia meu irmão. Às vezes a máquina de cartão enguiça. A pessoa diz que volta no dia seguinte e não aparece mais.”

A situação de Mariana não tem prazo para ser resolvida, pois depende da liberação técnica das barragens. A renovação da chamada Declaração de Condições de Estabilidade (DCE) está agora sujeita a regras mais duras da Agência Nacional de Mineração (ANM), que passará a fazer vistorias presenciais das barragens – antes, o órgão tomava decisões baseadas em documentos enviados pelas mineradoras.

A Vale diz estar trabalhando “com técnicos e especialistas de renome mundial” para resolver o problema, mas não dá uma data para normalizar a situação.

Por ora, a única opção que resta a Mariana é esperar.

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‘Quem vai se arriscar a liberar uma barragem?’

Moradores de Mariana querem a volta da Vale, mas sabem que questão da segurança será difícil de resolver

Fernando Scheller, enviado especial, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2019 | 22h00

MARIANA (MG) - “Tudo o que a gente quer é que a Vale volte a operar”, diz Ronilton de Castro Condessa, 56 anos, diretor do Sindicato Metabase, de Mariana, e trabalhador da Vale. “Mas, diante de toda essa bagunça, quem vai se arriscar a assinar um relatório de estabilidade de barragem? Ninguém vai fazer isso.”

Como a tragédia de Brumadinho expôs a deficiência na fiscalização das barragens – levando a Agência Nacional de Mineração (ANM) a apertar as regras para a liberação das estruturas – e também levou à prisão engenheiros que atestaram a segurança da mina Córrego do Feijão, o setor se viu com uma “batata quente” nas mãos. De órgãos governamentais a consultorias privadas, a noção é de que ficará bem mais difícil convencer um profissional a garantir que uma barragem tem risco zero de romper.

Por essa razão, a Vale evita fazer previsões de quando retomará a produção nas localidades paralisadas. Outro trabalhador da Vale, Josimar César Alcântara, de 51 anos, diz que, no caso da mina Alegria, a estrutura que impede os trabalhos não é uma barragem a montante – semelhante à de Brumadinho –, mas uma pilha de minério de ferro seco. Até agora, no entanto, ninguém se habilitou a atestar a estabilidade dessa estrutura.

Nas minas paralisadas, a Vale diz que os trabalhadores se dedicam a atividades de manutenção. Logo após a tragédia de Brumadinho, a mineradora liberou funcionários para instalar sinalizações em áreas próximas a barragens, mas diz que esse trabalho já foi concluído.

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