''Corte de R$ 10 bi é insuficiente''

ENTREVISTA

Fernando Dantas / RIO, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2010 | 00h00

Affonso Celso Pastore,

economista, ex-presidente do BC

Para o economista Affonso Celso Pastore, o corte de R$ 10 bilhões no Orçamento anunciado pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, é insuficiente para esfriar a economia. Pastore vê uma aceleração política da economia em ano eleitoral.

Dá para crescer a 7%?

Estamos crescendo a 7% num momento em que já praticamente se encerrou o ciclo da capacidade ociosa. Então tem inflação de demanda, e tem que desacelerar o crescimento para o nível potencial, para 4,5% - não instantaneamente, mas de forma dosada.

Com quais instrumentos?

O fiscal e o monetário, e o fiscal não é substituto do monetário. O governo tem grande orgulho das políticas fiscais contracíclicas durante a crise. Mas o gasto público continua crescendo. O governo continua usando os bancos estatais do mesmo jeito que o Geisel usou as estatais, para fazer dívida e expandir; uma velha política industrial na qual setores são empurrados para crescer mais. Está tentando usar um fundo de riqueza soberana para capitalizar o BB e expandir mais crédito - são políticas fiscais altamente expansionistas que, no fundo, jogam em cima dos ombros do BC uma carga de ajuste muito maior.

E o corte de R$ 10 bilhões no Orçamento proposto pelo ministro Mantega?

É absolutamente insuficiente. Numa conta simples, baseada no fato de que o peso do governo na economia é de 20%, e que os gastos do governo crescem a 10%, seria preciso zerar a expansão do gasto para se chegar a 2% do PIB - equivalente a uma desaceleração de 7% para 5%. Aquele corte é muito menos que isso. Os gastos crescem mais do que o PIB.

Como o sr. vê o aumento do déficit em conta corrente?

Se o PIB está crescendo a uma taxa anualizada de 8%, a demanda doméstica está crescendo a 12%. O déficit em conta corrente é esse excesso de absorção da economia doméstica em relação ao PIB. Não vai gerar uma crise, já que há fluxos de capitais para financiar esse déficit a um câmbio relativamente estável. A anomalia não está no tamanho do déficit, mas sim no fato de que ainda se está bombando demanda para dentro da economia, para sustentar esse ritmo de crescimento do PIB muito acima do potencial. Tem um desequilíbrio enorme. O Brasil está procurando encrenca com esse crescimento. Tem que trazer todo esse negócio para baixo.

É possível fazer isso?

Admito que é um ano eleitoral, e que o governo não queira fazer isso. O que me leva a achar que tem um componente de ciclo político nesse crescimento. Acho que a chance de o candidato oficial ganhar essa eleição é muito grande, exatamente em função desse tipo de política. Só que ela é desestabilizadora. Gera um ganho a curto prazo, mas gera um ajuste lá na frente que vai ser profundamente desagradável. Ou o Brasil vai ter de aceitar uma inflação permanentemente mais alta.

O Banco Central se atrasou?

Sem dúvida. Antes dos últimos dados, um ciclo de alta de três pontos porcentuais da Selic (taxa básica) era consenso de mercado. Hoje o pessoal já pensa em quatro pontos porcentuais, e também em que se mexa de novo nos compulsórios, para cima. Então o BC errou em não começar a subir a Selic em março, mas começou a corrigir. O BC é independente e erros acontecem. Mas agora tem de bater firme em cima da inflação e eu acho que isso vai levar a um ciclo de aperto monetário que, infelizmente, é longo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.