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Corte de R$ 50 bi terá efeito quase nulo na inflação

Cálculos de consultoria mostram que efeito será de apenas 0,16 ponto porcentual; esforço pode, porém, evitar alta adicional na Selic

Lu Aiko Otta e Fabio Graner, da Agência Estado,

27 de fevereiro de 2011 | 22h00

O corte de R$ 50 bilhões nas despesas federais, cujo detalhamento está prometido para hoje, ajudará a reduzir a inflação deste ano em apenas 0,16 ponto porcentual. O cálculo é da consultoria Tendências. Para se ter uma ideia, o aumento das passagens de ônibus nas principais regiões metropolitanas do País em janeiro respondeu por um aumento da mesma magnitude no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

Ou seja, o aperto nos gastos federais, se concretizado, conseguirá apenas anular o efeito inflacionário da alta dos ônibus. Mesmo assim, a ajuda da política fiscal permitirá ao Banco Central elevar menos a taxa de juros, como deseja o ministro da Fazenda, Guido Mantega. Nos cálculos da consultoria, o controle de gastos evitará alta adicional de 0,4 ponto porcentual na Selic. "O efeito na inflação é pequeno", disse Alessandra Ribeiro, economista da Tendências.

Os cortes no orçamento e as medidas de contenção no crédito anunciadas em dezembro passado entraram em cena para evitar que o governo desse uma "paulada" nos juros para conter a inflação. Era uma tentativa de cumprir a promessa de campanha da presidente Dilma Rousseff, que o combate à inflação não seria mais tão concentrado na taxa Selic.

É nesse cenário que os diretores do Banco Central, que formam o Comitê de Política Monetária (Copom), deverão decidir na quarta-feira a nova taxa de juros no País, atualmente em 11,25% ao ano. A aposta majoritária dos analistas é de alta de 0,5 ponto porcentual, mas parte acredita que o BC pode ser mais agressivo e subir 0,75 ponto porcentual. Apesar de defender que as medidas de restrição ao crédito e contenção fiscal ajudam no combate à inflação, o BC não abre mão da alta de juros, que considera o meio mais eficiente no controle de preços.

"O Banco Central pode surpreender e dar 0,75 ponto porque as expectativas estão muito desancoradas", disse o economista Bráulio Borges, da consultoria LCA. A meta de inflação para 2011 é de 4,5%, com margem de tolerância entre 2,5% e 6,5%. Em média, o mercado trabalha com o IPCA em 5,8%. Há analistas que veem risco de que o teto seja ultrapassado, hipótese rejeitada pelo governo.

São grandes as chances de a inflação acumulada em 12 meses ultrapassar os 6,5% no terceiro trimestre. "Acho que por volta de setembro ela bate em 7%", disse o economista-chefe do banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves. Esse risco é admitido por parte da equipe econômica e, apesar do desgaste político que deverá provocar, é tratado como um "efeito estatístico" que "está no preço", ou seja, não deverá surpreender ninguém.

O próprio Banco Central admite que a inflação fechará o ano acima de 4,5%, mas ainda dentro da faixa de tolerância, embora tente se mostrar seguro com o caminho adotado e da convergência da inflação para a meta até 2012. O governo considera que o IPCA começará a cair lentamente no segundo semestre. A avaliação no governo é que muitos analistas dão excessiva importância para a inflação corrente e não incorporaram devidamente em suas contas tudo o que está sendo feito (controle do crédito, alta dos juros e corte de gastos).

Desaquecimento

 Os economistas ouvidos pelo Estado acreditam que a taxa de juros subirá 0,5 ponto porcentual porque a economia já vem dando sinais de desaquecimento e se aproximando do seu potencial. A abertura de empregos com carteira assinada, por exemplo, caiu 16% na comparação com janeiro de 2010.

Bráulio Borges acredita que a produção industrial nacional mostrará queda de 1,5% em janeiro. Os empréstimos para aquisição de automóveis caíram 27,2% no mês passado. A taxa média de juros, por sua vez, subiu de 40,6% em dezembro para 43,8% em janeiro.

A crise nos países árabes ligou sinais de alerta no BC. A preocupação não é com o preço da gasolina, que pode ser mantido pela Petrobrás, mas com o impacto em derivados como nafta, diesel e querosene de aviação. Por outro lado, pode ter impacto no ritmo de crescimento mundial, reduzindo a inflação de bens, incluindo as commodities agrícolas, com forte peso no IPCA.

Alessandra Ribeiro disse que, pelos cálculos da Tendências Consultoria, a Petrobrás tem boa margem para não repassar para o mercado interno a alta no mercado externo. O barril do petróleo teria de ficar, na média, em US$ 130 ao longo deste ano para a estatal ter de mexer no preço da gasolina.

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