Reuters/Bruno Domingos
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Cotação do real sofreu manipulação em esquema global

Documento fala em 'conspiração' e boicote a corretoras nacionais; após investigações, bancos, em especial o Barclays, foram multados em mais de multas US$ 5 bilhões

Fernando Nakagawa, correspondente em Londres, O Estado de S. Paulo

21 Maio 2015 | 16h50


LONDRES - O real também sofreu com o esquema internacional de manipulação das taxas de câmbio que envolveu seis dos maiores bancos globais e resultou em multas que superam os US$ 5 bilhões. Desconhecida até agora, a influência sobre a moeda brasileira foi revelada no acordo final entre autoridades dos Estados Unidos e o britânico Barclays. O documento fala em "conspiração" e cita que havia boicote aos corretores nacionais para aumentar o poder de fogo do esquema de manipulação de preços.

Documento do órgão supervisor do Departamento de Serviços Financeiros de Nova York (DFS) mostra que negócios com a moeda brasileira em 2009 foram alvo da ação de operadores que queriam influenciar preços para aumentar lucros. "Operadores de câmbio envolvidos no mercado entre o dólar dos Estados Unidos e o real do Brasil conspiraram juntos para manipular os mercados", diz o termo de compromisso de cessação de prática (consent order, em inglês) que envolve o Barclays. O termo foi assinado na terça-feira, dia 19, pelo conselheiro geral do banco britânico, Robert Hoyt.

A investigação analisou especialmente negócios realizados entre 2008 e 2012 e afirma que a manipulação com a moeda brasileira usava procedimentos "mais diretos" que os adotados em outros mercados, como o que negocia euros. Segundo a autoridade norte-americana, operadores "concordavam em boicotar corretores locais para reduzir a competição". Com menor concorrência, seria mais fácil influenciar a oscilação dos preços no mercado.

Mensagens. Uma indicação do esquema veio à tona com a troca de mensagens entre duas pessoas que negociavam a moeda brasileira. Em 28 de outubro de 2009, um operador do Royal Bank of Canada (RBC) conversava com um colega do Barclays. "Todo mundo está de acordo em não aceitar um agente local como corretor?", questiona o funcionário do banco canadense via programa eletrônico de troca de mensagens. "Sim, menor competição é melhor", respondeu o operador do banco britânico.

Exatamente no dia da troca de mensagens citada no processo, o dólar fechou em alta de 0,6%, a R$ 1,7447, segundo dados do Banco Central. Naquela época, o mercado de câmbio do Brasil vivia o fim de um período de quase um ano de firme valorização da moeda nacional. Enquanto o mundo tentava se desvencilhar dos problemas da crise financeira que estourara um ano antes, o Brasil crescia e o fluxo de moeda estrangeira para o País fez com que o dólar caísse do patamar próximo de R$ 2,50 visto em dezembro de 2008 para R$ 1,70 em outubro de 2009.

A manipulação do mercado brasileiro foi descoberta pela investigação que envolveu autoridades dos EUA e Reino Unido e revelou um grande esquema global que influenciou as cotações das principais moedas do planeta.

Barclays, Citibank, JP Morgan, Royal Bank of Scotland (RBS), UBS e Bank of America estavam envolvidos e pagarão US$ 5,6 bilhões em multas e acordos de compensação. O britânico Barclays sofrerá a maior punição. A ação era feita especialmente por operadores que combinavam estratégias para influenciar as cotações. A polícia federal dos EUA, o FBI, classificou o esquema como uma "ação criminosa em larga escala".

A direção do banco britânico Barclays informou "lamentar profundamente" a conduta adotada por alguns dos colaboradores dentro da instituição.

"A má conduta vista no cerne dessas investigações é totalmente incompatível com o propósito e os valores do Barclays e lamentamos profundamente que isso tenha ocorrido", disse nota distribuída após o anúncio de que o banco pagará cerca de US$ 2,32 bilhões em multas e acordos com autoridades dos Estados Unidos e Reino Unido. Portanto, o texto diz respeito a todo o processo, e não apenas especificamente à manipulação vista no Brasil.

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