DIDA SAMPAIO/ESTADÃO - 22/10/2021
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Bolsa tem a quarta pior semana em dois anos após manobra do teto de gastos

Apoio de Bolsonaro a Paulo Guedes e 'fico' do ministro ajudaram Bolsa a estancar parcialmente as perdas do dia, com queda de 1,3%, após despencar mais de 4%; no câmbio, dólar caiu 0,7%, a R$ 5,62

Redação, O Estado de S.Paulo

22 de outubro de 2021 | 09h39
Atualizado 22 de outubro de 2021 | 20h42

A visita do presidente Jair Bolsonaro ao Ministério da Economia na tarde desta sexta-feira, 22, e a reiteração do seu apoio ao ministro Paulo Guedes - que também manifestou sua decisão de permanecer no governo -, deram espaço para que o mercado buscasse uma recuperação, com o dólar em baixa de 0,71%, a R$ 5,6273. A Bolsa brasileira (B3) chegou a estancar parcialmente as perdas, em baixa de 1,34%, aos 106.269,18 pontos, após subir mais de 4%. Mesmo assim, o Ibovespa teve perda de 7,28% no acumulado dos últimos cinco dias, em sua pior semana em dois anos.

O resultado é o quarto pior do índice, atrás apenas dos recuos semanais registrados após a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretar a pandemia do coronavírus, em março. Com isso, a queda de mais de 7% do Ibovespa fica atrás apenas das semanas encerradas em 28 de fevereiro de 2020, quando caiu 8,37%, 13 de março de 2020, com queda de 15,63%, e 20 de março de 2020, com forte recuo de 18,8% em apenas cinco dias.

No ano de 2021, o Ibovespa cede 10,69%, com perda de 4,22% no mês de outubro. Na mínima do dia, o índice caiu aos 102.853,96, menor nível intradia desde 13 de novembro de 2020 - na máxima, tinha leve ganho de 0,01%, primeira variação positiva dos últimos dias. Hoje, a Bolsa fechou no menor nível desde 20 de novembro.

"Vamos ficar até o fim do governo", disse Guedes em pronunciamento ao lado de Bolsonaro. A declaração trouxe alívio ao mercado, principalmente após as especulações em torno da permanência do ministro. Momentos antes, Bolsonaro disse que tem absoluta confiança em Guedes e que ele entende "as aflições que o governo passa".  O presidente repetiu que a economia voltou em 'V' e que não quer " e que não existe descompromisso.

As declarações vem após o acordo feito pelo governo para mudar a regra do teto de gastos e permitir R$ 83,6 bilhões em gastos extras - já aprovado pela comissão especial da PEC dos precatórios -, para conseguir acomodar o Auxílio Brasil de R$ 400. O arranjo resultou em uma debandada na equipe de Guedes, com a baixa de dois importantes membros do ministério: Bruno Funchal (secretário especial do Tesouro e Orçamento) e Jeferson Bittencourt (secretário do Tesouro).

Hoje, foi confirmado que o atual chefe da Assessoria Especial de Relações Institucionais da Economia, Esteves Colnago, irá assumir o lugar de Funchal. Em pronunciamento, Guedes relativizou a situação e disse que é "natural que a política queira furtar o teto e gastar mais", mas que está de olhos nos limites. "Isso não é uma falta de compromisso, é uma coisa muito ponderada". O ministro também disse que não vai deixar ninguém passar fome para tirar 10 no fiscal.

"O rompimento do teto foi bem precificado e a aparição de Bolsonaro e Guedes juntos traz um pouco mais de tranquilidade, embora ninguém tenha gostado dessa notícia da semana, a ruptura do teto, uma medida populista, 100% voltada para eleição", diz Viviane Vieira, operadora de renda variável da B.Side Investimentos, escritório ligado ao BTG Pactual

Para Viviane, a depender da definição dos novos nomes para recompor o Tesouro, e dos desdobramentos da próxima semana, pode haver alguma recuperação gradual tanto para o real como para o Ibovespa, que esta semana esteve bem descolado do exterior, especialmente da Bolsa de Nova York, com S&P 500 em novo pico histórico, refletindo a positiva temporada de balanços trimestrais nos Estados Unidos.

"A debandada no Tesouro foi uma sinalização ruim, deixando Paulo Guedes isolado, o que explica a reação negativa, estressada, do mercado", diz Leonardo Milane, sócio e economista da VLG Investimentos, para quem a "poeira não está baixando", com outros fatores de risco ainda pendentes no curto prazo, como a possibilidade de paralisação de caminhoneiros. "O estouro do teto mostra que o Guedes não está mais lá para impedir que o teto seja furado", acrescenta.

Após o pronunciamento na economia, ações como as de Petrobras e as de grandes bancos, de forte peso no Ibovespa, encerraram o dia limitando a correção vista mais cedo, quando mostravam perda em torno ou acima de 5% na sessão. Ao final as ações ON e PN da petroleira caíam 1,697% e 0,98% cada, com Itaú em baixa de 3,84%. Na contramão, diante da alta do minério de ferro na China, Vale subiu 1,22%, Gerdau Metalúrgica, 2,08% e Usiminas, 1,34%.

Câmbio

O mercado doméstico de câmbio viveu uma sessão agitada e de muita volatilidade nesta sexta - na máxima, o dólar bateu em R$ 5,7545, enquanto na mínima, despencou na R$ 5,6223, bem perto do valor de fechamento. A moeda americana termina esta semana com valorização de 3,16% e já acumula alta de 3,33% em outubro - o que evidencia uma reprecificação relevante do real nos últimos dias. O dólar para novembro fechou em queda de 0,24%, a R$ 5,6530.

A economista-chefe do Banco Ourinvest, Fernanda Consorte, vê a queda do dólar após o discurso do Guedes como um "pequeno ajuste" depois de um período de grande estresse, mas ressalta que a percepção de risco segue em nível elevado. "O fato de o Guedes continuar deu algum ânimo e possibilitou esse ajuste, já que ele é o único braço relativamente liberal no governo", diz Consorte. "Mas o dólar no patamar atual sugere que o mercado não gostou das mudanças fiscais, que ainda são vistas como 'pedaladas'. Devemos ver ainda bastante volatilidade".

Para  o gerente da mesa de derivativos financeiros da Commcor DTVM, Cleber Alessie Machado, após as movimentações dos últimos dias, a taxa de câmbio já carrega um prêmio de risco considerável, o que pode, em tese, abrir espaço para uma queda do dólar. A disputa pela formação da taxa Ptax de fim de outubro na semana que vem e eventuais fluxos podem, contudo, levar a moeda a flertar novamente com R$ 5,75. "Pelos fundamentos, é mais plausível o dólar ir para R$ 5,50, porque o pior momento do ajuste de prêmios já passou. Mas é preciso ver a questão do fluxo e da demanda", ressalta Machado.

A expectativa dos analistas é que o BC continue a atuar com leilões extras de swaps cambiais (equivalente a venda de dólares no mercado futuro) para suprir demandas específicas. A perspectiva de uma aceleração do ritmo de aperto monetário pelo Copom na próxima semana, com o mercado já projetando alta de 1,5 ponto percentual na Selic, pode dar também algum fôlego ao real, caso não haja novas surpresas no front fiscal. /MAIARA SANTIAGO, LUÍS EDUARDO LEAL E ANTONIO PEREZ

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