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Bolsa tem leve queda e dólar cai com anúncio de compra de vacinas por parte do governo

Notícia de que o Ministério optou por comprar doses dos imunizantes da Pfizer e da Janssen ajudou a aliviar a preocupação com a PEC Emergencial e o endurecimento das restrições em São Paulo

Redação, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2021 | 11h01
Atualizado 03 de março de 2021 | 18h59

A notícia de que o governo pretende comprar doses dos imunizantes da Pfizer e da Janssen ajudou a acalmar o mercado já perto do final do pregão desta quarta-feira, 3, que até então vinha tenso, com investidores de olho na votação da PEC que vai destravar o auxílio emergencial no Senado. A Bolsa brasileira, que tocou nos piores níveis desde 30 de novembro, teve leve queda de 0,32%, 111.183,95 pontos, enquanto o dólar, que disparou a R$ 5,77, terminou com queda marginal de 0,03%, a R$ 5,6643.

O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, não informou quantas doses da Pfizer devem ser compradas, mas em apresentações recentes a prefeitos e governadores, ele comentou que poderiam ser 100 milhões de doses, mas com a entrega de uma primeira parcela de 8,71 milhões de doses em julho. O restante, entre outubro e dezembro.

Também ajudou a melhorar o clima, o compromisso do presidente da Câmara, Arthur Lira, em respeitar a regra do teto de gastos. "Tanto o Senado quanto a Câmara votarão as PECs sem nenhum risco ao teto de gastos, sem nenhuma excepcionalidade ao teto", disse por meio de sua conta oficial no Twitter. A preocupação tomou conta do mercado nesta quarta, dia em que o Senado vota a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) Emergencial, medida que vai destravar uma nova rodada do auxílio, mas pode acabar por tirando o Bolsa Família do teto de gastos.

Assim, no dia em que foi anunciado o retorno do Estado de São Paulo à fase vermelha, a mais restritiva, a queda de 4,1% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, já esperada, foi vista com pouca atenção, e o Ibovespa tendeu entre os 107 mil e os 109 mil pontos durante boa parte da tarde. "Por si, é pouco para justificar tamanha oscilação. O que temos é muita volatilidade, inclusive no exterior", observa Pedro Paulo Silveira, gestor da Nova Futura Investimentos. "As notícias, o pano de fundo, ainda são os mesmos: ruins."

Hoje, o presidente Jair Bolsonaro disse que o governo federal fez todo possível para evitar que "tivéssemos um caos no Brasil" e que, "instalando-se um caos, a gente não sabe o que pode acontecer". O infectologista americano Anthony Fauci, conselheiro do governo Joe Biden, demonstrou preocupação com a escalada da pandemia no País. "É muito difícil a situação em que o Brasil se encontra", afirmou o médico ao ser questionado sobre o assunto durante coletiva de imprensa. O cientista também se mostrou disposto a discutir com autoridades brasileiras medidas para enfrentar a crise sanitária. 

"O Brasil está aparecendo como fator de risco pandêmico, em situação fora de controle. Isso num momento em que o mercado tem exigido mais prêmio de risco para financiar a maior economia do mundo, inclinando a curva de juros nos EUA", o que afeta a atratividade dos emergentes, observa Jefferson Laatus, estrategista do Grupo Laatus. O avanço do populista Bolsonaro sobre o liberal Paulo Guedes obscurece a percepção do mercado para esta segunda metade de governo, afetando os ativos brasileiros de forma conjunta, acrescenta Laatus.

Entre os carros-chefes do Ibovespa, Petrobrás ON e PN chegaram a mostrar perdas acima de 6%, para fechar respectivamente em baixa de 4,29% e 3,64%, com a decisão de cinco conselheiros de deixar a empresa após o governo ter encaminhado a substituição do economista Roberto Castello Branco pelo general Joaquim Silva e Luna, em meio à insatisfação de Bolsonaro com os reajustes nos preços de combustíveis, especialmente o diesel.

Na ponta do Ibovespa nesta quarta-feira, destaque para alta de 4,61% para PetroRio, à frente de Magazine Luiza, com 3,50%, e de Bradesco ON, com 2,02%. Maior perda do Ibovespa na sessão, Pão de Açúcar caiu 5,61%, com CVC em baixa de 4,53% e Petrobrás ON, de 4,29%. Na semana, o índice acumula ganho de 1,04%, com perdas a 6,58% no ano.

Câmbio

Não foi a injeção de US$ 2 bilhões de recursos hoje pelo Banco Central que ajudou a conter a disparada do dólar, que bateu em R$ 5,77, mas a compra de mais imunizantes pelo governo federal. Em poucos minutos, em virada surpreendente, o dólar zerou a alta e saiu da casa dos R$ 5,75 para R$ 5,63, nas mínimas do dia. A fala de Lira sobre o teto também ajudou. Nesse cenário, o dólar para abril fechou em queda de 1,12%, a R$ 5,6235.

"Tudo vai depender de vacina, vacina é fundamental. Se a gente conseguir ter uma quantidade suficiente de vacina até o primeiro semestre, pode dar uma acelerada no segundo semestre e ter um crescimento maior, caso contrário, pode ter crescimento menor", comentou o economista-chefe da Genial Investimentos, José Marcio Camargo, em live nesta tarde. A projeção do economista é de crescimento de 3% em 2021." "Essa segunda onda está sendo muito poderosa", disse Camargo.

"Se a gente conseguir trazer essas 100 milhões de doses, é algo já relevante. Quanto mais rápido a gente andar, traz fôlego maior para a atividade econômica", comentou a sócia-diretora da Tendências Consultoria, Alessandra Ribeiro, na mesma live. "O quadro pandêmico está pior do que se imaginava e as dúvidas em relação ao quadro fiscal estão muito fortes", disse ela, prevendo PIB  negativo no primeiro trimestre.

Com o aumento da incerteza doméstica, o dólar vem sofrendo pressão adicional pela saída de recursos de investidores estrangeiros do país. Na semana entre os dias 22 e 26, ou seja, já pegando o episódio de ingerência na Petrobras, saíram US$ 1,403 bilhão pelo canal financeiro, segundo dados do Banco Central divulgados hoje. Com isso, apenas nesta semana, o BC já injetou US$ 4 bilhões em dinheiro novo no mercado, ontem fez dois leilões de dólar à vista e hoje dois de swap cambial, equivalente à venda de moeda no mercado futuro. /LUÍS EDUARDO LEAL, ALTAMIRO SILVA JÚNIOR E MAIARA SANTIAGO

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