Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Bolsa resiste à 'PEC kamikaze' e fecha em alta, aos 112 mil pontos; dólar sobe

Medida permite que governo reduza os impostos sobre combustíveis em 2022 e 2023, sem compensação fiscal; bom desempenho dos índices de Nova York ajudou o mercado nacional

Redação, O Estado de S.Paulo

04 de fevereiro de 2022 | 14h37
Atualizado 04 de fevereiro de 2022 | 19h31

A Bolsa brasileira (B3) fechou em alta de 0,49%, aos 112.244,94 pontos nesta sexta-feira, 4, apesar do clima pouco favorável aos negócios, especialmente depois de um senador apresentar um projeto que permite reduzir os impostos sobre os combustíveis em 2022 e 2023, sem compensação fiscal. Em Nova York, os ganhos do Nasdaq e do S&P 500 ajudaram o mercado nacional, enquanto no câmbio, o dólar avançou 0,50%, a R$ 5,3220.

A PEC dos Combustíveis foi apresentada hoje pelo senador Carlos Fávaro (PSD-MT). O texto, mais amplo que o do deputado Christino Áureo (PP-RJ), inclui o pagamento de um auxílio-diesel mensal de R$ 1.200 a caminhoneiros autônomos por até dois anos, subsídios ao transporte público e aumento da cobertura do vale-gás a famílias de baixa renda. O impacto fiscal seria superior a R$ 100 bilhões, de acordo com projeções iniciais da equipe econômica.

A segunda proposta de PEC sobre combustíveis caiu como uma bomba no Ministério da Economia. Nos bastidores da pasta, o texto apresentado pelo senador Carlos Fávaro ganhou o apelido de “PEC kamikaze”, em uma referência aos pilotos japoneses que usavam seus aviões como bomba na Segunda Guerra Mundial.

"A mais recente movimentação em torno da questão dos combustíveis coloca em xeque a 'carta branca' dada por Bolsonaro, nesta última semana, para que a equipe econômica prevaleça sobre outras áreas no tocante ao tema. Com o envio de uma proposta patrocinada pela Casa Civil e muito mais ampla do que deseja Guedes e sua equipe, fica claro que o debate está bastante aberto sobre qual texto deve avançar no Congresso", diz em nota a Levante Investimentos.

"A PEC gera um forte perda de arrecadação, além de minar ainda mais a credibilidade das regras fiscais. Além disso, isso não deveria levar a uma política monetária mais leniente, pois o impacto baixista sobre a inflação seria decorrente de uma "canetada" em preços administrados, sem contar que, mais a frente, os tributos teriam que ser recompostos", explica o estrategista-chefe da Renascença DTVM, Sérgio Goldenstein​.

Um operador de renda fixa também vê uma posição defensiva do mercado por causa da PEC. "Essa PEC dos Combustíveis a gente sabe onde vai parar. É ruim para todos os ativos, é populismo puro, termina mal querer controlar artificialmente o preço da gasolina. Vai diminuir um pouco o preço, mas olha como está o petróleo? Vai bater US$ 100", diz.

No entanto, o governo segue pressionado para achar uma solução, especialmente diante da alta do petróleo, com o Brent para abril em alta de 2,37% e o WTI para março, de 2,26%. Em resposta, Petrobras ON e PN subiram 1,79% e 1,75% cada, enquanto PetroRio teve ganho de 7,34%. Entre as ações de grande peso, Santander avançou 1,32% e Bradesco, 0,6%. Vale teve alta de 2,62%.

Apesar do desempenho de hoje, o Ibovespa fecha a semana com ganho de 0,30%, acumulando leve alta de 0,09% em fevereiro, colocando o ganho do ano a 7,08%. O maior apoio do índice hoje veio de Nova York, apesar da sessão marcada pela instabilidade. Hoje, o S&P 500 subiu 0,52%, enquanto o Nasdaq avançou 1,58%, diante da boa aceitação dos números trimestrais da Amazon, que registrou lucro de US$ 14,3 bilhões. Hoje, os papéis da empresa fecharam em alta de 13,54%. Em contrapartida, o Dow Jones oscilou para o negativo no final do pregão e caiu 0,06%. 

Os índices acionários americanos ganharam maior fôlego perto do final do pregão, com os investidores repercutindo positivamente a aprovação da lei "América Compete" pela Câmara dos Representantes, cujo aporte é de US$ 350 bilhões. Segundo o presidente americano, Joe Biden, a aprovação da lei é "crucial" para que o país supere a competitividade da "China e de outras nações no século XXI". Segundo ele, "empresas e trabalhadores elogiaram essa legislação como vital para continuar o impulso econômico que vimos no ano passado".

Câmbio

Além da PEC dos Combustíveis, o relatório de vagas de emprego dos Estados Unidos em janeiro (payroll) estimulou uma corrida por dólares nesta sexta, e a moeda frente a divisas emergentes. No começo dos negócios, o mercado de câmbio intercalou alta e baixa moderada em meio ao petróleo forte e o dólar misto no exterior, caindo ante moedas principais como libra e iene, mas subindo ante pares emergentes do real ligados a commodities.

O documento apontou criação de 467 mil empregos, bem acima das previsões de 150 mil novas vagas, aumentando as apostas do mercado em um Federal Reserve (Fed, o banco central americano) mais agressivo. "O payroll sacramenta a alta de juros nos EUA em março e ainda dá espaço para parte do mercado falar que o Fed pode começar com 0,50 (ponto porcentual), embora a grande aposta ainda seja de 0,25 (ponto porcentual)", afirma Gustavo Cruz, economista e estrategista da RB Investimentos.

Segundo levantamento do CME Group, o porcentual das apostas para uma elevação como descrita pela Capital cresceu de 14,3% ontem para 21,1% após o payroll. Já o Goldman Sachs decidiu não realizar alterações em sua projeção de cinco altas de juros em 2022.

Segundo o diretor da corretora Ourominas, Mauriciano Cavalcante , com a possível alta mais forte dos juros nos EUA e com o Copom indicando alta menor da Selic em março, o fluxo cambial de estrangeiro deve diminuir para o Brasil e outros países emergentes, com busca de maiores retornos em Treasuries - títulos da renda fixa americana -, e no dólar.

A chance de um aperto nos juros já em março, que pode promover ainda a fuga de capital dos ativos de risco, pesou no mercado europeu. O índice Stoxx 600, que concentra as principais empresas da região, caiu 1,38%, a Bolsa de Londres cedeu 0,17%, a de Frankfurt, 1,75% e a de Paris, 0,77%.

Apesar da alta de hoje, a moeda encerra a semana em queda de 1,26%. Na semana passada, quando o dólar se situou abaixo de R$ 5,40, as perdas foram de 1,20%. No ano, a desvalorização acumulada é de 4,55%. No exterior, o índice DXY - que mede o desempenho da moeda americana frente a uma cesta de seis moedas fechou em leve alta. O dólar subiu em bloco frente a divisas emergentes e de exportadores de commodities, como raras exceções, como o rublo.

O economista-chefe da JF Trust, Eduardo Velho, observa que, além do payroll forte, o dólar é pressionado pelo que chama de "flexibilização fiscal" no Congresso, com apresentação de PECs que representam perda de arrecadação. "Existe um movimento da base política do governo para aumentar gastos e reduzir impostos, o que piora o fiscal", diz. /ANTONIO PEREZ, SILVANA ROCHA, MAIARA SANTIAGO E LUÍS EDUARDO LEAL

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