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Bolsa recua aos 119 mil pontos após queda das ações da Petrobrás; dólar cai a R$ 5,37

Investidor viu com desconforto o fato da discussão da formação de preços dos combustíveis ter ido parar no Planalto, com Bolsonaro prometendo 'bater o martelo' sobre a questão

Redação, O Estado de S.Paulo

08 de fevereiro de 2021 | 09h10
Atualizado 08 de fevereiro de 2021 | 20h38

Pressionada pelas ações da Petrobrás e de bancos, a Bolsa brasileira não conseguiu manter a linha dos 120 mil pontos e fechou em queda de 0,45%, aos 191.696,36 pontos nesta segunda-feira, 8. A política de formação de preços da petroleira seguiu no radar, principalmente em um dia no qual a estatal anunciou um aumento no valor dos combustíveis - com isso, as ações encerraram em quedas de 4%. No câmbio, o dólar caiu 0,21%, a R$ 5,3726.

Após a Petrobrás ter anunciado hoje aumento de cerca de 8% no preço da gasolina, a Ativa Investimentos estima, em nota, que ainda exista espaço para nova elevação de preço no curto prazo, de até 5%, avalia o economista Guilherme Sousa. A confirmação ontem pela Petrobrás, em novo fato relevante sobre o assunto, de que havia alterado, em junho do ano passado, a periodicidade da aferição da aderência entre o preço doméstico e o internacional contribuiu para estender o mal-estar ensaiado na sexta-feira, quando a notícia veio a público, ocasionando outro fato relevante da empresa, ainda naquela noite. A petroleira apontou que a alteração na periodicidade - de três meses para um ano - não configura mudança de sua política comercial.

Em outra frente diretamente relacionada aos preços da estatal, o presidente Jair Bolsonaro anunciou, na sexta-feira, que vai enviar um projeto para estabelecer valor fixo de ICMS sobre combustíveis, em busca de solução para a insatisfação dos caminhoneiros com o custo do diesel - a iniciativa do Executivo federal recebeu críticas do governador de São Paulo, João Doria, e de secretários estaduais de Fazenda. Hoje, o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, disse que o governo não pretende interferir na autonomia dos Estados. Ele acrescentou, contudo, ser necessário que a economia brasileira tenha mecanismos para dar previsibilidade e evitar grande volatilidade nos preços dos combustíveis.

"Desde sexta há confusão na comunicação da Petrobrás, e o mercado, que não é bobo, está colocando no preço esta desconfiança até que a empresa mostre clareza. Costurando o que aconteceu nos últimos dias, a percepção é de que está havendo interferência política", diz Jefferson Laatus, estrategista do Grupo Laatus, chamando atenção para a possibilidade de investidores estrangeiros - como é caso frequente nos EUA - unirem-se para questionar a atitude da empresa na Justiça. 

No Ibovespa, as ações PN e ON da Petrobrás caíram 3,14% e 4,41% cada, com a ON registrando a maior queda do dia. No exterior, os contratos futuros de petróleo fecharam com ganhos em torno dos 2%. A Bolsa brasileira quase perdeu os 119 mil pontos com o recuo das ações. "Definitivamente, o governo se equipara a anteriores no sentido de manter a política de preços da Petrobrás limitada à agenda política. É um cenário lamentável, quando se sabe, agora, o que está acontecendo há quase um ano - o que mostra que o acionista não está recebendo tratamento equitativo. Não é um boa política de companhia aberta, o que vai resultar em prêmio negativo", diz Pedro Paulo Silveira, economista-chefe da Nova Futura Investimentos.

Na ponta do Ibovespa nesta sessão, destaque para Cosan, com alta de 8,57%, à frente de Cyrela, com 4,77%, BTG, com 3,77% e CSN, com 3,65%. No lado oposto, Ambev, caiu 3,74% e Cogna, 3,46%. O dia foi positivo para Vale ON, com 1,42% e negativo para o segmento de bancos, com perdas entre 0,27% para Banco do Brasil ON e 3,25% para Santander. No ano, o índice limita os ganhos a 0,57%, com avanço de 4,02% em fevereiro.

Câmbio

O dólar operou em queda a maior parte do dia, e chegou a cair a R$ 5,30 no início da tarde. Mas o ritmo de baixa perdeu força após declarações do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG) sobre a urgência em ter o auxílio emergencial aprovado, talvez já esta semana. O senador descartou até mesmo condicionar o auxílio à entrada em vigor de PECs que estão no Congresso, como quer o ministro Paulo Guedes e como esperam os participantes do mercado. O dólar para março fechou em leve queda de 0,04%, a R$ 5,37520.

Com isso, o real deixou o posto de moeda com melhor desempenho hoje ante o dólar e foi para o lado das divisas com pior performance, chegando a subir pontualmente após as declarações de Pacheco. Com isso, os investidores estrangeiros elevaram apostas contra o real para o maior nível em meses. "A mobilização sobre o auxílio emergencial é natural. Não tivemos uma boa estratégia para o combate à pandemia, que escalou, comprometendo o emprego, a renda - e agora vamos pagar por isso", observa Silveira, da Nova Futura.

A piora do real na tarde de hoje ocorreu a despeito do exterior positivo, com as Bolsas em novo recorde em Nova York e o dólar caindo de forma quase que generalizada no mercado internacional, em meio a perspectiva de aprovação do pacote fiscal de Joe Biden e a visão de maior crescimento da economia mundial, com o avanço da vacinação e a queda nos casos de covid. O índice DXY, que mede o dólar ante divisas fortes, caiu abaixo do nível de 91 pontos hoje, que vinha sustentando no últimos dias.

"Achamos que o compromisso do governo com o teto de gastos irá se enfraquecer", alerta a consultoria inglesa Capital Economics na tarde desta segunda-feira, ao elevar suas projeções para o dólar no Brasil. A estimativa do câmbio ao final de 2022 passou de R$ 5,33 para R$ 5,75./ LUÍS EDUARDO LEAL, ALTAMIRO SILVA JÚNIOR E MAIARA SANTIAGO

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