Christophe Petit Tesson/Efe
Christophe Petit Tesson/Efe

Bolsa despenca 4% e dólar vai a R$ 5,78 após Fachin anular condenações de Lula

Com a decisão, ex-presidente fica elegível para a eleição presidencial de 2022, mas plenário do STF ainda vai analisar; entre especialistas, temor é que, com a notícia, governo se aproxime ainda mais do populismo

Redação, O Estado de S.Paulo

08 de março de 2021 | 16h43
Atualizado 08 de março de 2021 | 19h02

A anulação, pelo ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), das condenações do ex-presidente Lula nos processos relacionados à Lava-Jato no Paraná, contribuiu para a piora dos ativos locais nesta segunda-feira, 8. No câmbio, o dólar chegou a bater em R$ 5,78, para depois fechar em alta de 1,67%, a R$ 5,7783, enquanto a Bolsa brasileira (B3) recuou 3,98%, aos 110.611,58 mil pontos.

Assim, Lula ficaria elegível para a eleição presidencial de 2022. A decisão de Fachin será posteriormente avaliada pelo plenário do STF. No fim de semana, a imprensa publicou levantamento do Inteligência em Pesquisa e Consultoria (Ipec) segundo o qual Lula teria mais potencial de voto do que Bolsonaro.

"A decisão é monocrática, cabendo recurso (da PGR, que informou que apresentará). Isso vai longe, mas ruído e turbulência política nunca ajudam, ainda mais neste momento da pandemia. Falta de clareza nas regras é algo que afasta o investidor estrangeiro, que tem outras alternativas entre os emergentes", observa Luiz Roberto Monteiro, operador da mesa institucional da Renascença.

No entanto, em comunicado, a XP diz que a vê a decisão do ministro como sendo "definitiva". "A decisão é uma estratégia para tentar preservar os demais casos da Lava Jato, evitando que fosse decretada a suspeição do ex-juiz Sergio Moro", diz a consultoria.

O presidente Jair Bolsonaro, ao comentar sobre a anulação, disse que "Fachin sempre teve forte ligação com o PT" e que "não pode um homem só ser o senhor do destino." Após, o presidentr também disse acreditar "que o povo não queira sequer um candidato como esse."

Já para o ex-diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central no governo Lula, Alexandre Schwartsman, independente da movimentação do mercado financeiro, a anulação das condenações pega mal para o País. Schwartsman ainda aponta que Lula deverá vir forte para 2022, o que favorece a polarização. "Com Lula, fica inviabilizada qualquer frente contra Bolsonaro. E a polarização não é boa e não resolve os problemas do País."

"Com Lula elegível, cresce ainda mais a chance deste governo ir totalmente para o populismo", comentou Alfredo Menezes, sócio-gestor na Armor Capital. O receio de investidores de que o governo enverede por um caminho mais populista aumentou nas últimas semanas, depois de uma série de episódios em que, para o mercado, Bolsonaro agiu deixando de lado princípios de uma política econômica liberal. Destaque para a decisão do presidente de trocar o comando da Petrobrás e os alertas feitos por ele de atuação em outras estatais e setores da economia, como energia.

Na mínima da sessão, o Ibovespa caiu 4,2%, aos 110,3 mil pontos - no mês, o índice ainda sobe 0,52%, com perda de 7,06% no ano. Assim, apenas duas ações conseguiram escapar do mal-estar para fechar o dia em terreno positivo: Marfrig, com alta de 4,41% e Eletrobrás ON, de 0,19%. Entre as ações com maior baixa, chamou atenção a queda dos papéis da Petrobrás, com ON e PN em baixas de 4,81% e 5,76% cada.

Segundo a analista da MyCap, Julia Monteiro, a piora das ações da estatal reflete a fuga de investidores estrangeiros, com a percepção de aumento do risco país. "Acabou de ser acrescentada uma peça no jogo que estava fora de cogitação, e que torna o cenário político, econômico, ainda mais adverso", diz.

Câmbio

O câmbio teve novo dia de pressão e o dólar passou toda a segunda-feira em alta, acima de R$ 5,70, em um misto de influências externas e internas. Internamente, a situação difícil da pandemia, com número de casos e óbitos em alta, vacinação ainda lenta e mais medidas de restrição, faz investidores ficarem mais cautelosos com o cenário econômico. Nos negócios da tarde, a moeda americana chegou a superar os R$ 5,80, no caso do dólar futuro, que fechou em alta de 3,26%, a R$ 5,8820, com o anúncio da anulação da condenação de Lula.

Apesar de o dólar ter superado os R$ 5,80, na maior máxima diária desde 30 de outubro do ano passado, o Banco Central não fez intervenção no mercado hoje, dia marcado por pressão também em outros emergentes. Ante a lira turca, o dólar chegou a disparar 2,6% nesta segunda-feira. No fechamento doméstico, o dólar à vista encerrou em alta de 1,77%, em R$ 5,7783, no maior nível desde o encerramento de 15 de maio de 2020 (R$ 5,83). 

"Não tenho lembrança de momento econômico tão desconfortável", afirma o chefe do Centro de Estudos Monetários do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), José Júlio Senna. "É muito difícil ser otimista com o real neste momento", disse Senna, citando entre os fatores que vêm contribuindo para a desvalorização, os ruídos em Brasília, interferências do governo, políticas de cunho populista de Jair Bolsonaro, falta de apetite do Executivo e Congresso para enfrentar diretamente os desequilíbrios fiscais agora. "Tudo isso atrapalha demais o mercado de câmbio."

"Ninguém sabe exatamente para onde vamos. Não sabe em que você mira", afirma Armando Castelar, coordenador da Economia Aplicada do Ibre/FGV, no mesmo evento. Nesse ambiente de falta de clareza em Brasília, diz ele, o Brasil não vai atrair capital externo. Os investidores internacionais estão deixando emergentes neste momento, com a alta dos juros longos nos EUA, observa Castelar. /LUÍS EDUARDO LEAL, ALTAMIRO SILVA JÚNIOR E MAIARA SANTIAGO

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