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Preocupação com plano de vacinação segura os ganhos da Bolsa, enquanto dólar vai a R$ 5,12

Investidores estão preocupados com a falta de ação do governo federal quanto a imunização da população contra o coronavírus; questão fiscal também chama a atenção

Redação, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2020 | 09h57
Atualizado 08 de dezembro de 2020 | 19h09

A falta de um plano nacional de vacinação contra o coronavírus azedou o humor dos ativos locais nesta terça-feira, 8, após uma reunião entre governadores e o governo federal aumentar a percepção de que ainda não há um posicionamento claro sobre o tema. Com isso, a Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, que vinha em forte alta, fechou com leve ganho de 0,18%, aos 113.793,06 pontos, enquanto o dólar subiu 0,15%, a R$ 5,1275. Além disso, as questões fiscais do País também afetaram o desempenho do mercado.

Nesta terça, a percepção do mercado sobre o processo de vacinação contra a covid-19 no Brasil se turvou, depois de declarações de governadores após reunião com o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello. Embora os chefes de executivo estaduais tenham transparecido otimismo, com a chance de o governo agilizar o processo de autorização da vacina e adicionar inclusive a chinesa Coronavac no rol de opções, chamou a atenção do mercado a declaração do governador do Pará, Helder Barbalho (MDB). "É prematuro estabelecer data de vacinação de algo que precisa de registro na Anvisa", afirmou. 

Na sequência, o mercado de ações passou a ficar estável, após o presidente da Pfizer no Brasil, Carlos Murillo, dizer que a empresa pedirá o uso emergencial de vacinas à Anvisa e que estuda uma forma de facilitar o transporte e a armazenagem das doses. Murillo afirmou que a imunização poderia começar logo após o produto ser liberado pela agência reguladora e estimou que as primeiras doses do imunizante chegam ao Brasil em janeiro.

Além disso, o cenário fiscal do País também preocupou. Perto das 15h, circulou nas mesas de operação o rumor de que há parlamentares articulando pela prorrogação do Estado de calamidade e do pagamento do auxílio emergencial. Embora não haja disposição de alguns políticos-chave para tal medida (principalmente o presidente da Câmara, Rodrigo Maia), o processo de sucessão no comando do Congresso inspirou cautela por parte dos agentes do mercado. Com a informação, a Bolsa caiu aos 112.820,31 pontos, na mínima do dia.

Suavizou toda essa oscilação o forte desempenho do mercado americano nesta tarde. Lá, cresce a percepção de que o Congresso vai aprovar um novo pacote fiscal, clamado pelo presidente eleito, Joe Biden. No exterior, o Dow Jones teve ganho de 0,35%, o S&P 500, 0,28% e o Nasdaq, 0,50%, com os dois últimos voltando a bater recordes históricos de fechamento, após Biden também afirmar que pretende vacinar 100 milhões de americanos em seus primeiros 100 dias de governo.

Nas ações, Eletrobrás ON saltou 5,92% e o PNB avançou 4,99%. Mas o maior avanço foi da BRF, com 8,69%, após a empresa estimar investimentos de aproximadamente R$ 55 bilhões nos próximos dez anos. Na ponta oposta, a Usiminas cedeu 4,29%, em dia de pressão de exportadoras.

Câmbio

O dólar operou em momento distintos hoje, caindo pela manhã, com entrada de fluxo externo, até a mínima de R$ 5,06 e voltando a subir pela tarde, quando foi a R$ 5,13 e o real passou a operar descolado de seus pares, como o peso mexicano. Profissionais das mesas de câmbio relatam que começou a pesar nas cotações um fator novo, as dúvidas sobre o processo de vacinação em massa no Brasil contra a covid-19 e a volta dos ruídos fiscais do País. O dólar para janeiro fechou com alta de 0,32%, a R$ 5,1165.

"A gente fica surpreso que o Brasil não consiga apresentar um plano que ataque o fiscal de maneira crível", destaca o gestor Carlos Woelz, da Kapitalo. "O governo não está falando como vai ser o ajuste e tem ainda discussão atual de aumentar os gastos", disse. Woelz vê que o real subvalorizado, em alguns casos, 20%, considerando diversas métricas, como o diferencial de juros e a balança de pagamentos. Mas para a moeda brasileira voltar para preços mais justos, o ponto principal é a melhora fiscal. "Precisa ter apenas um plano e vontade de seguir o plano."

O sócio da Verde Asset Management, Luis Stuhlberger, no mesmo evento, destaca que a questão fiscal é um limitador para a melhora do real, com dólar ainda operando acima do preço justo no Brasil, que seria na casa dos R$ 4,20. Para o gestor, o presidente Jair Bolsonaro acaba ficando "premido" para gastar mais, ainda que seja para furar de forma temporária o teto de gastos. Mas Stuhlberger alerta que se o governo furar o teto em 2021 seria muito ruim, mesmo que isso seja feito de forma provisória. Neste caso, a depreciação cambial se acentuaria, levando os juros mais longos para patamar superior ao atual, que já estão altos. "O Brasil sempre foi muito gastador."/ ALTAMIRO SILVA JÚNIOR, SIMONE CAVALCANTI, MATEUS FAGUNDES E MAIARA SANTIAGO

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