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Bolsa cai e dólar fecha em alta com investidor de olho no cenário fiscal do País

Pressão para volta do auxílio preocupou o investidor, que vê chance de desequilíbrio nas contas públicas; inflação abaixo do esperado para janeiro também pressionou o dólar no País

Redação, O Estado de S.Paulo

09 de fevereiro de 2021 | 09h23
Atualizado 09 de fevereiro de 2021 | 18h58

Contaminada pelo risco fiscal, em meio à pressão pela volta do auxílio emergencial, a Bolsa brasileira encerrou em baixa de 0,19%, aos 119.471,62 pontos. No câmbio, o dólar diminuiu o ritmo de alta após a realização de leilões, mas a inflação abaixo do esperado para janeiro seguiu pressionando a moeda, que fechou em alta de 0,19%, a R$ 5,3829.

O câmbio teve uma tarde agitada, com duas intervenções inesperadas do Banco Central. Com o real operando descolado de seus pares emergentes, por causa do desconforto causado pela situação fiscal do Brasil, e a moeda americana batendo em R$ 5,45, o BC fez dois leilões de swap (venda de dólar no mercado futuro), somando US$ 1 bilhão.

As operações conseguiram acalmar o mercado, mas mesmo assim o dólar ainda fechou em alta. Profissionais das mesas de câmbio dizem que leilões serão ineficazes se a situação fiscal não melhorar, sobretudo após a frustração da visão inicial de que o auxílio emergencial teria como contrapartida o avanço do ajuste das contas públicas, o que o Congresso não sinaliza ter interesse em fazer neste momento.

As declarações recentes do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), e do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), só contribuem para a visão de que o teto de gastos será furado este ano, avaliam os estrategistas em Nova York do Citigroup. O banco americano prevê que as despesas vão superar o teto em R$ 75 bilhões em 2021, observando que as propostas de emendas constitucionais do governo no Congresso para o ajuste fiscal exigem tempo para aprovação, enquanto a escalada dos casos de coronavírus é rápida, o que aumenta a pressão por programas de transferências de renda.

Ex-chefe do Departamento de Operações de Mercado Aberto do BC, Sergio Goldenstein, colaborador do site de pesquisas Ohmresearch, observa que a intervenção do BC ajuda a conter a alta do dólar, mas será ineficaz se o quadro fiscal piorar. A desvalorização recente do real, ressalta ele em seu Twitter nesta tarde, ocorreu justamente por causa do aumento do risco fiscal, aliado a um juro real "muito fora do lugar".

Além da questão fiscal, a visão de que a alta de juros pode não vir em março, que ganhou força após a divulgação do IPCA de janeiro (0,25%) com número perto do piso das projeções (mediana de 0,30%, a partir de intervalo de 0,24% a 0,54%), provocou pressão no câmbio desde os negócios da manhã. A visão é que sem subir juros, e com as taxas reais negativas, a atração de capital externo do Brasil fica comprometida.

Na avaliação do economista sênior para a América Latina da Pantheon Macroeconomics, Andres Abadia, o dado de hoje de inflação é uma boa notícia para o BC, que vai tentar segurar a elevação de juros, em meio a uma atividade enfraquecida e um mercado de trabalho deteriorado. "A inflação começou o ano sob controle", afirma Abadia

Bolsa

O Ibovespa manteve-se bem perto da estabilidade na maior parte da tarde, oscilando entre leves ganhos e perdas, em sessão marcada também por pequena variação nos índices de Nova York após máximas históricas no dia anterior, renovadas hoje no Nasdaq, em meio à expectativa positiva para pacote fiscal no topo de US$ 1,9 trilhão, nos EUA. Aqui, o índice da B3 emendou a segunda sessão negativa, com as quedas de 2,03% e 2,60% de Petrobrás PN e ON, ante a desconfiança sobre a política de preços da estatal.

No cenário fiscal, a aproximação de nova rodada de auxílio emergencial contribui para reverter o ânimo da semana passada, na qual prevalecia a impressão de que o Congresso priorizaria agenda de reformas e que as discussões sobre o auxílio respeitariam o teto de gastos. Há pressão do Congresso para que a nova rodada do benefício seja aberta fora do teto de gastos e sem o corte de outras despesas. Aumentar o endividamento da União ou até criar um imposto temporário para bancar o benefício entrou no radar dos parlamentares. 

O desempenho positivo das ações de bancos com ganhos de 1,62% e 1,20% de Santander e Itaú PN, e de siderurgia, com ganhos de 2,43% e 1,30% de CSN e Usiminas. No ano, o índice limita o avanço a 0,38% e, no mês de fevereiro, sobe 3,83%. Em Nova York, Dow Jones e S&P 500 fecharam com queda de 0,03% e 0,11% cada, enquanto o Nasdaq subiu 0,14% e bateu novo recorde de fechamento./ LUÍS EDUARDO LEAL, ALTAMIRO SILVA JÚNIOR E MAIARA SANTIAGO

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