Werther Santana/Estadão - 18/6/2021
Werther Santana/Estadão - 18/6/2021

Bolsa reage após nota de Bolsonaro e fecha com forte alta de 1,72%; dólar cai a R$ 5,22

Em comunicado divulgado hoje, presidente afirmou que jamais teve a 'intenção de agredir quaisquer Poderes'; logo após a nota, dólar caiu para R$ 5,19 e Bolsa virou o sinal, em alta de 1,75%

Redação, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2021 | 10h00
Atualizado 09 de setembro de 2021 | 18h15

Em um movimento súbito, após o presidente Jair Bolsonaro afirmar, em nota, que jamais teve a "intenção de agredir quaisquer Poderes", os ativos domésticos passaram a registrar forte valorização, em um pregão que até então era desfavorável para o mercado acionário. Em resposta, nesta quinta-feira, 9, a Bolsa brasileira (B3) fechou com forte alta de 1,72%, aos 115.360,86 pontos, enquanto no câmbio, o dólar caiu 1,86%, a maior queda porcentual desde 24 de agosto, a R$ 5,2273.

Em comunicado após as manifestações antidemocráticas do 7 de Setembro, Bolsonaro disse ainda que a "harmonia é determinação constitucional, que todos, sem exceção, devem respeitar". O presidente fez ainda aceno a Alexandre de Moraes, a quem chamou de “canalha” durante os comícios de terça-feira, ao citar "naturais divergências" com algumas decisões do ministro. A nota foi redigida pelo ex-presidente Michel Temer.

Logo após a divulgação da nota, o dólar, que vinha na casa dos R$ 5,27, em queda de pouco mais de 1%, passou a cair 2,47%, cotado a R$ 5,1943. O Ibovespa, que cedia 0,6%, após tentar se firmar no positivo durante boa parte do pregão, virou rapidamente para alta de 1,75%, aos 115.400,87 pontos. Com o movimento, o índice recuperou dois mil pontos em relação ao fechamento de ontem, quando ficou aos 113,4 mil pontos. Na mínima de hoje, bateu aos 112,4 mil pontos, menor nível intradia desde 25 de março. 

Na semana, o índice cede 1,34% e, no mês, perde 2,88% - no ano, a retração está agora em 3,07%. Com a virada no final do pregão, o Ibovespa se descolou de Nova York, onde Dow Jones, S&P 500 e Nasdaq fecharam com quedas de 0,43%, 0,46% e 0,25%.

A chacoalhada de Bolsonaro jogou os principais setores e empresas para cima, a maioria em baixa, até então, nesta quinta. Ao fim, Petrobras PN e ON mostravam ganho de 2,12% e 0,93%, respectivamente, enquanto entre os grandes bancos, os ganhos chegaram hoje a 1,76% para Banco do Brasil ON. Na ponta do Ibovespa, Eletrobras ON subiu 6,07%. No lado oposto, Vale ON caiu 0,36%.

"A importância do diálogo entre os Poderes para reduzir os ruídos políticos e, em especial, evitar o isolamento, era a única forma de reduzir o estresse da curva de juros e oferecer um risco menor, para, assim, justificar o potencial de valorização atual", diz Rafael Ribeiro, analista da Clear Corretora. "Em manifestação pública a respeito da crise institucional, Jair Bolsonaro colocou panos quentes sobre o inflamado último discurso e disse que não teve 'nenhuma intenção de agredir quaisquer dos poderes' e justifica que suas palavras 'por vezes contundentes', decorreram do calor do momento", acrescenta o analista.

Após o apelo direto do presidente Jair Bolsonaro, o relativo esvaziamento do protesto de caminhoneiros em relação ao que se viu ontem chegou a contribuir mais cedo para algum respiro, em dia de câmbio menos pressionado após a reação do dia anterior à crise políticoinstitucional, aguçada pelos eventos do 7 de setembro. Por outro lado, a leitura acima do esperado para o IPCA em agosto (0,87%), no maior nível para o mês em 21 anos, e que aproxima a inflação dos dois dígitos no acumulado em 12 meses, reforça a perspectiva de Selic mais restritiva, o que tende a reduzir o apelo da renda variável em momento marcado por aversão a risco.

"Como consequência (do IPCA), especialistas já projetavam Selic na faixa de 9% no ano que vem, o que aumenta a percepção de risco para o mercado brasileiro, sem falar nos potenciais ganhos da renda fixa, que retiram atratividade da renda variável", observa Ribeiro, destacando que "dos 9 grupos de produtos e serviços pesquisados, 8 registraram aumento de preços".

"No mês, destaque para o setor de transportes, em alta de 1,46%, tendo contribuição de 0,31 ponto porcentual para o índice, muito puxado pela alta dos combustíveis", diz Stefany Oliveira, analista da Toro Investimentos, destacando, também pela manhã, a leitura sobre os pedidos semanais de auxílio-desemprego nos Estados Unidos, a 310 mil, contra 345 mil no período anterior, contribuindo para firmar a melhora do mercado de trabalho americano, acompanhado de perto pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano).

Dólar

Após o tombo de hoje, a valorização do dólar no acumulado da semana passou a ser de apenas 0,83%. Apesar do desempenho no final do pregão, a moeda já vinha em queda desde o começo da sessão. O declínio do dólar no exterior e a perspectiva de alta mais forte da taxa Selic, na esteira do IPCA de agosto acima das expectativas, abriu espaço para ajuste de posições e deram certo fôlego ao real, em dia até então marcado por queda da Bolsa. A moeda para outubro fechou com queda de 1,97%, a R$ 5,2290

Antes da nota de Bolsonaro, analistas e operadores eram unânimes em afirmar que o dólar não cedia no mercado doméstico, a despeito do fluxo positivo e do aumento do diferencial de juros interno e externo, por causa do agravamento das tensões político-institucionais, que levava investidores a se abrigar no dólar e exigir prêmio de risco maior para carregar ativos domésticos.

Para o sócio e economista-chefe da JF Trust, Eduardo Velho, o mercado rapidamente "operou" as declarações de Bolsonaro, derrubando o dólar e com melhora da Bolsa. "Mas acredito que o mercado vai se manter receoso ainda para saber se essa carta do Bolsonaro vai realmente aliviar a crise entre os poderes", afirma Velho.

O economista ressalta que a crise institucional e o orçamento de 2022, ainda sem solução para a questão dos precatórios e do reajuste do Bolsa Família, acabam tirando força do real, que poderia se beneficiar mais dos fundamentos das contas externas e da queda do dólar em relação a divisas emergentes. /LUÍS EDUARDO LEAL, ANTONIO PEREZ E MAIARA SANTIAGO

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