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Bolsa fecha em queda de 0,7% e dólar sobe a R$ 5,17 com mau humor em Nova York

Diminuição das chances de aprovação de um novo pacote de estímulos nos EUA segurou os ganhos do mercado; cenário político local também pesou

Paula Dias, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2020 | 09h10
Atualizado 09 de dezembro de 2020 | 19h17

Os ativos brasileiros somaram perdas nesta quarta-feira, 9, em meio ao mau humor em Nova York e ao clima de ruídos no cenário doméstico. A Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, encerrou com queda de 0,70%, aos 113.001,16 pontos, enquanto o dólar fechou em alta de 0,87%, a R$ 5,1722. No exterior, o mercado acionário americano também somou perdas, refletindo a deterioração das perspectivas por um pacote fiscal nos Estados Unidos.

Nos últimos dias, governo e oposição trocaram farpas e acusaram o lado oposto de atrapalhar e inviabilizar as discussões. Hoje, o líder republicano no Senado, Mitch McConnell, falou que a postura dos democratas na negociação é "esquizofrênica". Em resposta, em Nova York, o índice Dow Jones perdeu 0,36%, o S&P 500 cedeu 0,80% e o Nasdaq recuou 1,94%. Por lá, pesou ainda a notícia de que a Pfizer foi alvo de um ataque de hackers, que conseguiram acessar documentos relacionados à vacina do covid-19. Os papéis da farmacêutica perderam 1,60%.

 

Para Adilson Bonvino, da Unnião Investimentos, o esfriamento do Congresso americano sobre o pacote de estímulos pesou, mas também afetou os negócios a desconfiança sobre a resolução do problema fiscal no Brasil. "As declarações do ministro [da Economia], Paulo Guedes, dão alento imediato, mas temos um problema fiscal sério a resolver", ressaltou.

Em um evento do Milken Institute, Guedes, reafirmou que, de nenhuma forma, o governo vai transgredir os gastos e reiterou que os benefícios - leia-se auxílio emergencial - que ajudaram o Brasil a se recuperar serão removidos em 31 de dezembro. Após, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), disse que não vai pautar a prorrogação do decreto de calamidade pública nem da PEC do orçamento de guerra. No entanto, em entrevista coletiva, Maia criticou a eleição para a presidência da Câmara, avisando que há risco de comprometer o andamento da pauta reformista e a falta de programação para aprovar a PEC Emergencial.

Já na parte da tarde, foi a vez do presidente da Comissão Mista de Reforma Tributária, senador Roberto Rocha (PDB-MA), anunciar que a reforma tributária será apreciada no ano que vem. "De fato, há um medo do problema fiscal e político permeando os negócios e o mercado pode estar aguardando para ver", disse Bonvino, ressaltando que, especialmente hoje, há uma cautela embutida por conta da decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), que após o fechamento do mercado, manteve a Selic em 2%.

"Além do suspense com relação ao texto final da PEC emergencial, que, por enquanto, sinaliza compromisso do governo com o fiscal, mas sem dúvida deixou o mercado com um pé atrás vide a flexibilização do teto especulada no começo da semana, a queda de hoje deve-se especialmente ao balde de água fria com relação ao pacote de estímulos nos EUA", diz Rafael Ribeiro, analista da Clear Corretora.

No dia nublado de hoje, ações de primeira linha de Itaú Unibanco e Bradesco conseguiram sustentar ganhos, as preferenciais das duas instituições financeiras subiram 0,59% e 0,27%, respectivamente. Após frequentar o terreno negativo, em sintonia com os contratos futuros de petróleo no exterior, os papéis ON e PN da Petrobrás encerraram em alta de 0,11% e 1,05%.

Câmbio

O dólar teve novo dia de volatilidade, chegando a cair a R$ 5,08 pela manhã. Mas nos negócios da tarde, firmou alta, encostando em R$ 5,20, com o aumento do pessimismo sobre um acordo em Washington e com as incertezas no cenário fiscal, após o impasse em torno da aprovação da PEC Emergencial. Ajudado pelos ruídos políticos, o real voltou a ser a moeda com pior desempenho no exterior, em uma lista de 34 divisas internacionais mais líquidas. O dólar para janeiro fechou com alta de 1,07%, R$ 5,1715.

A falta de incentivos nos EUA ajudou a pressionar ainda mais o câmbio, em um momento de aumento da demanda por dólar à vista para remessas de juros e dividendos ao exterior por empresas e fundos. O dólar casado, a diferente entre as cotações no mercado futuro e à vista tem operado negativo nesta semana, indicando demanda por moeda no balcão. Nos últimos dias, o fluxo havia ajudado a aliviar esta pressão. Dados de hoje do Banco Central mostram que na semana encerrada no último dia 4, as entradas líquidas pelo canal financeiro somaram US$ 1,606 bilhão.

Considerando o cenário fiscal do País - e o impasse com a PEC Emergencial -, o economista da JF Gestão de Recursos, Eduardo Velho, acredita que o dólar só vai ficar de forma sustentada abaixo dos R$ 5,30 na medida em que as “pendências fiscais” forem equacionadas. Entretanto, o que se viu até agora sobre a PEC Emergencial, ressalta ele, só ajuda a aumentar a incerteza. Uma minuta do texto mostra, por exemplo, que a medida não incluiria redução de salários, desindexação e desvinculação orçamentária. Nesse aspecto, o tema ainda deve causar ruídos no mercado até o final da semana./ SIMONE CAVALCANTI, ALTAMIRO SILVA JÚNIOR E MAIARA SANTIAGO

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