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Bolsa tem queda de 0,9% com queda de 6,1% das vendas do varejo; dólar recua 0,2%

Dado, somado ao resultado abaixo do esperado da inflação de janeiro, fez acender uma luz amarela quanto à recuperação da demanda em meio à pandemia

Redação, O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2021 | 09h17
Atualizado 10 de fevereiro de 2021 | 19h47

A Bolsa brasileira (B3) fechou em queda de 0,87%, aos 118.435,33 pontos nesta quarta-feira, 10. A retração de 6,1% nas vendas do varejo em dezembro, anunciada pela manhã, combinada à leitura abaixo do esperado para a inflação de janeiro, divulgada ontem, faz acender a luz amarela quanto à recuperação da demanda em meio à pandemia. As conversas sobre a retomada de auxílio emergencial, sem vinculação a reformas, também continuam a afetar o humor dos investidores, deixando em segundo plano a expectativa para a aprovação da autonomia do Banco Central, do agrado do mercado. No câmbio, o dólar teve queda de 0,22%, a R$ 5,3711.

O tom amargo veio logo cedo: vendas do varejo em declínio superior ao pior prognóstico para dezembro. "Desvio de tamanha magnitude fora observado apenas nos primeiros meses da pandemia. A queda foi tão grande que o mais pessimista dos agentes projetava contração de apenas 2,0%", observa em nota Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa Investimentos.

"Por ser bem pulverizado entre setores - tirando supermercados que voltou a exibir resultado positivo -, as hipóteses de que apenas o 'fade out' do auxílio emergencial causou o dano é falaciosa", acrescenta o economista. Segundo Sanchez, embora a redução do auxílio tenha contribuído para o resultado, "setores associados a crédito também tiveram desempenho ruim, bem como outros itens vinculados a renda, que afetam faixa mais elevada do que a dos elegíveis ao programa social."

"O dado mais fraco de dezembro aumenta as incertezas com relação aos próximos passos das políticas fiscal e monetária, com a pressão maior pela volta do auxílio e um consequente receio pelo risco de elevação da inflação", aponta em nota a equipe de Research do Banco Inter. "O início deste ano pode ser bastante fraco para as vendas no varejo em meio ao aumento da pandemia, interrupção do auxílio emergencial e alta inflação de alimentos, atingindo o poder de compra da população e os índices de confiança", observa o Banco MUFG Brasil, em nota.

A sensação de que a economia continua debilitada, dependendo de estímulos para manter os sinais vitais em momento no qual a vacinação avança de forma bem gradual, acentua as preocupações sobre a situação fiscal do País. "Qualquer sinal sobre aumento de gastos, sem haver clareza quanto à origem dos recursos, tem causado estresse no mercado, afetando não apenas a Bolsa como também o câmbio e os juros. A perspectiva para os meses à frente está condicionada por uma série de 'se', o que tem resultado em tropeços após um início de fevereiro positivo, com a definição das presidências da Câmara e do Senado", diz Yuri Cavalcante, sócio-fundador da Aplix Investimentos.

O mal-estar foi em parte amenizado ainda no começo da tarde por declarações do ministro da Economia, Paulo Guedes. Em conversa com parlamentares, ele descartou a possibilidade de novo imposto e cobrou aprovação do Orçamento de 2021, bem como de regras fiscais para viabilizar o auxílio - a indicação contribuiu para que o dólar mudasse de direção, passando a cair, e que os juros fossem às mínimas do dia. "As intenções do Guedes sempre ajudam, mas o momento é de passar da intenção para o resultado concreto", observa Cavalcante. "Enquanto não houver clareza sobre as reformas e sobre o custo fiscal do auxílio, a cautela vai prosseguir."

Chamou anteção hoje a alta das ações de commodities, com Petrobrás ON em alta de 1,23% e Vale ON, de 0,48%. Entre as baixas, CSN cedeu 2,99%, BTG, 4,37% e Santander, 1,64%. Eletrobrás ON também caiu 1,88%, Via Varejo, 3,88% e Magazine Luiza, 3,58%.  Na semana, o Ibovespa acumula perda de 1,50%, limitando os ganhos no mês a 2,93%. No ano, volta a terreno negativo, em baixa de 0,49%

Câmbio

O dólar teve novo dia de instabilidade, oscilando de acordo com as notícias de Brasília sobre o auxílio emergencial, enquanto a moeda americana teve pregão de queda quase que generalizada no mercado internacional. Pela manhã, fluxo externo ajudou o dólar a cair, mas além da piora do risco fiscal, em meio ao aumento da pressão no Congresso por mais gastos do governo, os números fracos do varejo em dezembro, com as vendas mostrando a pior queda para o mês da série histórica, acabaram também pressionando o câmbio, ao sinalizar que o aumento dos juros pelo Banco Central pode demorar mais um pouco. O resultado foi volatilidade, com a moeda oscilando entre a mínima de R$ 5,35 e a máxima de quase R$ 5,44. O dólar para março fechou em alta de 0,17%, a R$ 5,3910.

No exterior, o dia foi de dólar fraco, ajudado pela divulgação da inflação ao consumidor nos EUA (CPI, na sigla em inglês), que veio abaixo do esperado, com alta de 0,3% em janeiro. Para os analistas do TD Bank, o número sinaliza que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) não terá pressa para retirar seus estímulos extraordinários, mantendo as compras de ativos por mais tempo, o que ajuda a enfraquecer o dólar.

Em meio a piora da percepção fiscal no Brasil, investidores estrangeiros, que já vinham elevando posições contra o real no mercado futuro da B3 neste começo de 2021, aceleraram a movimentação ontem. As apostas compradas em dólar futuro (contratos normais e minicontratos), cupom cambial e swap, que ganham com a valorização da moeda americana, aumentaram em US$ 2,4 bilhões apenas no pregão da terça-feira, dia em que o Banco Central injetou US$ 1 bilhão no mercado, de acordo com dados da B3 monitorados diariamente pela corretora Commcor./ LUÍS EDUARDO LEAL E ALTAMIRO SILVA JÚNIOR

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