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Bolsa fecha com queda de 2,4% após mais um recuo em Nova York; dólar fica a R$ 5,31

Aversão ao risco tomou conta dos ativos após impasse em torno de pacote fiscal americano aumentar os rumores de que talvez a medida não seja aprovada

Redação, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2020 | 09h07
Atualizado 10 de setembro de 2020 | 19h08

O mercado acionário de Nova York voltou a cair e como resposta, a Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, também cedeu e perdeu o simbólico patamar dos 100 mil pontos, além de voltar ao patamar de julho. Nesta quinta-feira, 10, o Ibovespa encerrou em queda de 2,43% aos 98.834,59 pontos, pressionado pela aversão ao risco que tomou conta dos negócios por conta de um impasse na aprovação do novo pacote fiscal americano. O real também voltou a perder força e o dólar fechou com alta de 0,39%, a R$ 5,3188.

Segundo o Washington Post, após os legisladores do Partido Democrata barrarem no Senado uma proposta do governista Partido Republicano de um pacote de estímulo fiscal de US$ 300 bilhões, as perspectivas de que qualquer acordo que tenha a aprovação dos dois partidos seja aprovado diminuíram nos Estados Unidos, principalmente agora, perto das eleições. Agora, os dois partidos não têm uma trajetória clara para avançar pela aprovação de novos estímulos fiscais antes das eleições de novembro no país.

Com isso, a bolsa de Nova York voltou a experimentar uma nova queda e seus índices fecharam novamente em baixa - a quarta em um curto período de tempo. O Dow Jones cedeu 1,45%, o S&P 500 recuou 1,77% e o índice tecnológico Nasdaq perdeu 1,99%. Por lá, os papéis de tecnologia voltaram a figurar entre as maiores baixas: apenas Apple e Microsoft perderam 3,32% e 2,80% cada.

A pressão vinda do mercado americano derrubaram a Bolsa, que bateu nos 101.536,48 pontos na máxima do dia, mas perdeu 2,4 mil pontos no final do pregão em seu menor número para um fechamento desde 13 de julho. Esse também foi o primeiro fechamento abaixo dos 100 mil pontos do mês de setembro. Agora, o Ibovespa, principal índice de ações do mercado brasileiro, cede 2,38% na semana e perde 0,54% no mês. No ano, a baixa é de 14,54%.

"Está faltando dinheiro novo - tem muita gente comprada e o estrangeiro não está vindo", diz Márcio Gomes, analista da Necton. "Quando as coisas parecem melhorar um pouco, vem uma notícia negativa, estimulando a aversão ao risco e a volatilidade. O momento é de seletividade, de garimpo mesmo. As blue chips [ações de grandes empresas com maior peso na Bolsa], que são as queridinhas da grande massa, estão em correção", acrescenta.

Por aqui, a aversão ao risco atingiu em cheio o setor bancário, que ajudou a tirar o fôlego do Ibovespa. Bradesco Pn perdeu 3,29%, Santander Unit recuou 3,06%, Banco do Brasil On cedeu 2,08% e Itaú Unibanco Pn teve baixa de 2,13%. "Não teve nenhuma notícia específica sobre os bancos hoje, mas ainda fica no ar essa questão fiscal e a aversão ao risco que a gente vê lá fora acaba refletida no setor daqui, porque é onde tem bastante investidor estrangeiro", diz Julia Monteiro, analista da MyCap.

As ações do setor de commodities também sentiram o peso. Vale On encerrou com baixa de 2,45%, enquanto Petrobrás On e Pn caíram 3,78% e 2,68% cada. O resultado veio em sintonia com as cotações do petróleo no exterior - o WTI para outubro encerrou com baixa de 1,97%, a US$ 37,70, ainda abaixo do patamar de US$ 40. Já o Brent para novembro caiu 1,79%, a US$ 40,06. 

Câmbio

O câmbio passou boa parte do tempo ao largo do nervosismo que tomou conta dos demais mercados na tarde de hoje, à medida que as bolsas americanas pioravam, após o partido democrata barrar nova proposta dos republicanos. A sinalização, segundo o The New York Times, é a de que um acordo para um novo pacote fiscal está cada vez mais distante. Nesse ambiente, o dólar firmou alta no exterior e, no mercado doméstico, passou a subir na reta final dos negócios, ainda que em ritmo moderado,  após bater na mínima de R$ 5,26 pela manhã.

De acordo com o CEO da BGC Liquidez, Erminio Lucci, após chegar perto dos R$ 5,60 em meados de agosto, a volatilidade do câmbio caiu nos últimos dias e o dólar tem se estabilizado na casa dos R$ 5,30. "O câmbio já precificou muita notícia ruim", diz ele, citando entre os fatores o baixo crescimento este ano, o aumento de gastos com o auxílio emergencial e o fiscal deteriorado este ano e em 2021.

Em meio às incertezas domésticas, a moeda brasileira apresenta um dos piores desempenhos entre as divisas de países emergentes desde o início de junho, destacam os estrategistas de moedas do banco americano Citi. Mesmo com as condições globais em trajetória de melhora, com os preços das commodities no nível mais alto desde março deste ano - quando a pandemia chacoalhou os mercados - e um dólar mais fraco, pesa a preocupação com a questão fiscal no Brasil. "Acreditamos que essa evidência esteja provavelmente relacionada a piores riscos fiscais domésticos", avalia o banco norte-americano.

Bolsas do exterior

Um clima misto tomou conta dos mercados internacionais nesta quinta, após diversos fatores aumentarem as preocupações dos investidores. Os índices chineses Xangai Composto Shenzhen Composto caíram 0,61% e 2,14% cada, após relatos de que Pequim quer coibir as transações especulativas. Já o Hang Seng cedeu 0,64% em Hong Kong. Na contramão, o japonês Nikkei subiu 0,88%, o sul-coreano Kospi avançou 0,87% e o Taiex registrou ganho de 0,66% em Taiwan. A Bolsa australiana encerrou com alta de 0,51%. 

Já na Europa, ajudou a derrubar os negócios as sinalizações negativas do Banco Central Europeu (BCE) e de sua presidente Christine Lagarde, que decidiu manter inalterada a sua política monetária, sem reajustes na taxa de juros. Por lá, o Stoxx 600 encerrou em queda de 0,59%. Já a bolsa de Londres caiu 0,16%, a de Frankfurt recuou 0,21% e a de Paris teve baixa de 0,38%. Madri e Lisboa caíram 0,31% e 0,64%. Apenas bolsa de Milão subiu e terminou com alta de 0,2%./LUÍS EDUARDO LEAL, ALTAMIRO SILVA JÚNIOR E MAIARA SANTIAGO

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