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Efeito da trégua de Bolsonaro perde força e dólar avança 0,76%; Bolsa recua 0,9%

Mercado viu sinal de paz do presidente com ceticismo, principalmente após ele sinalizar que movimento foi para conter a alta do dólar; mau humor do mercado de Nova York também pesou

Redação, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2021 | 11h00
Atualizado 10 de setembro de 2021 | 18h00

O efeito da bandeira branca levantada pelo presidente Jair Bolsonaro ontem, em forma de nota, durou apenas na parte da manhã nas negociações desta sexta-feira, 10, com o mercado já vendo o movimento com ceticismo. Influenciada também pelo mau humor do mercado de Nova York, a Bolsa brasileira (B3) fechou com queda de 0,93%, aos 114.285,93 pontos - na semana, cede 2,26%. No câmbio, o dólar subiu 0,76%, cotado a R$5,2671.

O vice-presidente Hamilton Mourão afirmou hoje que a carta pedindo harmonização entre os poderes, assinada pelo presidente Bolsonaro, abre espaço para que se retome diálogo respeitoso entre o Executivo e o Judiciário. Na mesma linha, o ministro da Economia, Paulo Guedes, aposta na pacificação e na continuidade das discussões de reformas. "A iniciativa do presidente ontem colocou tudo de volta aos trilhos", disse Guedes em evento virtual do Credit Suisse.

No entanto, a trégua foi colocada em prova logo na manhã de hoje, após Bolsonaro dizer a apoiadores que a publicação do documento foi como uma espécie de antídoto à alta do dólar e ao preço dos combustíveis. Na ocasião, o presidente disse que a manifestação do dia 7 de setembro, quando atacou duramente o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, "não foi em vão". Ontem, em reação à nota, o dólar despencou para R$ 5,19 na mínima e a Bolsa, que até então vinha em queda, disparou subitamente para 1,7%.

Bolsonaro minimizou também o arrefecimento dos bloqueios de caminhoneiros em estradas do País e rechaçou que haja um "recuo" de manifestações bolsonaristas contra o STF. "Você quando quer matar um verme, às vezes mata a vaca. Até domingo, se ficar parado, a gente vai sentir, mas se passar disso, complica a economia do Brasil. Ninguém está recuando. Não pode ir pro tudo ou nada", disse . Em outra ocasião, ele comentou que não pode "degolar todo mundo".

Na avaliação da economista-chefe da Veedha Investimentos, Camila, Abdelmalack, a manifestação de Bolsonaro ontem foi positiva, ainda mais por contar com o auxílio de Temer, visto como um hábil articulador político, mas ainda não assegura uma mudança definitiva na postura do presidente. "Não se sabe como vai ser daqui para frente. É natural os investidores adotarem uma postura mais de cautela quando chega o fim de semana", afirma Abdelmalack.

A economista-chefe do Banco Ourinvest, Fernanda Consorte, pondera que há dúvidas sobre os próximos passos de Bolsonaro e seus impactos "na evolução das reformas", em meio a um cenário de inflação elevada e de revisões para baixo do crescimento econômico. "Isso gera cautela e aumenta a aversão ao risco para Brasil", diz Consorte.

Ainda no noticiário político, o ministro Ricardo Lewandowski, do STF, pediu destaque no julgamento do caso, de relatoria da ministra Cármen Lúcia, que trata da falta de norma que regulamente o prazo para o presidente da Câmara decidir sobre pedidos de impeachment contra o presidente da República. Lewandowski entende que a importância do tema demanda uma análise mais aprofundada, em sessão presencial, não em julgamento virtual.

Porém, além do cenário local, o clima do exterior, com os investidores preocupados com a recuperação da economia, também afetou os negócios por aqui. A aversão aos riscos pesou principalmente no mercado de Nova York, com Dow Jones, S&P 500 e Nasdaq em quedas de 0,78%, 0,77% e 0,87% cada.

O clima azedo no mercado americano foi sentido pelo Ibovespa, que agora cede 3,78% no mês e 3,98% ao longo do ano. Entre as ações, destaque para Meliuz, em alta de 8,41%, à frente de Minerva, com ganho de 6,10% e de BRF, com 3,03%. Na ponta oposta, Magazine Luiza cedeu 8,86%, Banco Pan, 7,08%, e Locamerica, 5,46%. Os grandes bancos tiveram desempenho negativo, à exceção de Banco do Brasil ON, em alta de 0,31%, em dia de variação moderada para as ações de commodities, com Petrobras ON e PN em baixa respectivamente de 0,08% e 0,63%, e Vale ON em alta de 0,12%.

Câmbio

Segundo operadores, o ziguezague na comunicação presidencial deixou o mercado com o pé atrás e estimulou a busca por proteção na véspera do fim de semana, empurrando o dólar para cima. Na reta final dos negócios, a moeda americana registrou novas máximas, correndo até R$ 5,2711, alta de 0,84%, em meio ao mau humor externo, com aprofundamento das perdas nas Bolsa de

Nova York novas máximas do índice DXY - que mede o desempenho do dólar frente a seis moedas fortes.

A moeda americana também ganhou certo fôlego em relação a divisas emergentes, diminuindo as perdas frente ao rand sul-africano e o peso mexicano, considerados pares do real. Por aqui, o dólar  encerra a semana com valorização de 1,59%. No acumulado do mês, o dólar sobe 1,84%.

Para Gustavo Gomiero, head da mesa câmbio e operações PJ da Wise Investimentos, o tom da carta de Bolsonaro, acalmou um pouco o mercado, mas não é garantia de uma mudança de postura do presidente. "Ele vai continuar falando o que pensa e isso vai provocar muita volatilidade na taxa de câmbio", afirma.

Gomeiro ressalta, contudo, que os fundamentos macroeconômicos domésticos, o ambiente externo ainda favorável e o diferencial de juros apontam para um cenário de pressão de baixa para o dólar, o que levaria o real a acompanhar o desempenho das demais moedas emergentes. "Até o fim do ano, se a crise política arrefecer e as pautas andarem no Congresso, os fundamentos podem jogar o dólar para baixo", diz. /ANTONIO PEREZ, LUÍS EDUARDO LEAL E MAIARA SANTIAGO

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