Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Bolsa cai 0,7% e dólar sobe a R$ 5,55 de olho em retomada da economia dos EUA

Após aprovação de pacote trilionário pelo presidente Joe Biden, os mercados agora temem uma alta da inflação americana, o que favoreceria ainda mais o mercado de títulos públicos dos EUA

Redação, O Estado de S.Paulo

12 de março de 2021 | 16h35
Atualizado 12 de março de 2021 | 19h23

Os ativos locais operam em terreno negativo nesta sexta-feira, 12,  exterior, movidos por novo avanço dos rendimentos dos títulos do Tesouro americano em meio à expectativa por mais inflação nos EUA, em consequência da política monetária acomodatícia e do novo pacote fiscal, de US$ 1,9 trilhão, sancionado ontem pelo presidente Joe Biden. Com isso, a Bolsa brasileira (B3) recuou 0,72%, aos 114.160,40 pontos, em realização de lucros após subir com a aprovação da PEC Emergencial. No câmbio, o dólar fechou em alta de 0,30%, a R$ 5,5597.

"Os preços ao produtor nos EUA entregaram outro ganho sólido", observa em nota Edward Moya, analista da OANDA em Nova York, chamando atenção para o aumento da demanda final, na comparação ano a ano, de 1,7% para 2,8%, o maior desde 2018. Para o analista, o avanço da inflação ao produtor em fevereiro, que deve se estender ao mês seguinte, dá suporte à ideia de "uma subida modesta nos preços gerais", o que resultou nesta sessão em elevação dos rendimentos dos tírulos do Tesouro amercano.

Neste contexto, a atenção global se volta na próxima semana para a reunião do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), em busca de novos sinais sobre a orientação da política monetária nos Estados Unidos. "O mercado estressou um pouco esta semana com o aumento dos juros futuros lá fora, precificando uma retomada da economia com certa inflação nos Estados Unidos. Mas, como um todo, o cenário ainda é positivo, o que tem segurado um pouco é o político e as dificuldades internas", diz Márcio Gomes, analista da Necton Investimentos.

"É interessante notar que mesmo o setor de shoppings, diretamente atingido pela retomada do lockdown, com ações que estavam muito 'amassadas', teve bom desempenho na semana, o que talvez indique que o mercado avalia que o fundo ficou para trás, e que a perspectiva é de melhora, com a vacinação", acrescenta o analista. No entanto, o coronavírus continua no radar dos investidores, principalmente após o Brasil se tornar o epicentro mundial da pandemia.

Assim, Multiplan subiu 3,94%, a foi a segunda maior alta do Ibovespa na sessão, acumulando até aqui ganho de 17,94% no mês. BR Malls subiu hoje 2,21% e avança 10,90% em março, enquanto Iguatemi fechou hoje em alta de 1,60%, avançando 10,36% no mês. Com queda de 3,08% no preço do minério de ferro nesta sexta-feira na China, o setor de mineração e siderurgia fechou o dia em baixa, puxada por Vale ON, em queda de 2,31%.

Os bancos encerraram a sexta-feira na maioria com o mesmo desempenho da semana, negativo, com perdas entre 0,08% para Bradesco PN e de 3,39% para Santander, acumuladas neste intervalo de cinco sessões. O Ibovespa encerra a semana em leve queda de 0,90%.  No mês, o índice avança 3,75%, limitando as perdas a 4,08% no ano.

Em Nova York, Dow Jones conseguiu se segurar em alta de 0,90%, mas S&P 500 e Nasdaq  fecharam com quedas de 0,10% e 0,59% cada.

Câmbio

A estratégia mais ativa de intervenção do Banco Central no câmbio fez o dólar cair 2,18% nesta semana. Foi a maior desvalorização desde a última semana de novembro de 2020. A aprovação da PEC Emergencial também ajudou, enquanto a assinatura do pacote fiscal de US$ 1,9 trilhão de Joe Biden teve efeitos mistos. Primeiro, fez a moeda a cair ante pares fortes e emergentes, diante da perspectiva de mais liquidez e crescimento na economia americana. Mas nesta sexta-feira fortalece a divisa dos Estados Unidos, inclusive ante o real, ao elevar o temor dos participantes do mercado de que o crescimento maior trará alta da inflação e a possibilidade de o Federal Reserve ter de subir os juros mais cedo que o esperado.

Por isso, o dólar subiu ante o real hoje mesmo com leilão extra do Banco Central, de US$ 750 milhões. Mas a moeda do Brasil acabou tendo desempenho melhor que outras emergentes. A divisa americana subiu 1,31% na Turquia e 0,88% na África do Sul, enquanto ante o real fechou a sexta-feira com alta de 0,30%, cotado em R$ 5,5597. No mercado futuro, o dólar para abril teve alta de 0,26%,a R$ 5,5575.

Estrategistas do Citigroup em Nova York comentam que receberam muitos questionamentos de seus clientes perguntando os motivos desta ação mais "agressiva e proativa" do BC. Aos investidores, o Citi cita três possíveis as razões: busca por um dólar mais baixo antes da reunião de política monetária, que começa na terça-feira, 16: preocupação com o efeito do dólar alto na inflação; tentativa de diminuir o incentivo para o uso do câmbio local como hedge. "Achamos que pode ser uma combinação de diferentes fatores, mas certamente somos simpáticos à visão de que eles estão preocupados com a inflação."

Apesar da melhora desta semana, a dúvida é se o real vai conseguir recuperar terreno de forma sustentada, avalia a analista de moedas e mercados emergentes do Commerzbank, Melanie Fischinger. Um novo ponto de incerteza ao já incerto cenário local foi a volta ao jogo político de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que traz preocupação com o avanço das reformas fiscais de Jair Bolsonaro, que pode querer medidas mais populistas. Para a semana que vem, é esperada a primeira alta de juros em vários meses pelo Banco Central, que pode dar algum alívio ao câmbio, mas a analista avalia que pode não ser suficiente para uma recuperação mais forte do real.

Com o cenário global mais desafiador e incertezas domésticas, o Itaú elevou hoje a previsão para o dólar, prevendo a moeda em R$ 5,30 ao final do ano e R$ 5,50 em 2021, de estimativa anterior em R$ 5,00 para os dois anos. "O mercado está se ajustando à perspectiva de retirada de estímulos monetários nos EUA", comenta relatório do banco. Internamente, o Itaú observa que ainda existem muitas incertezas relacionadas à evolução da pandemia e à trajetória fiscal com a extensão do auxílio emergencial. /LUÍS EDUARDO LEAL, ALTAMIRO SILVA JÚNIOR E MAIARA SANTIAGO

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