Gary Cameron/Reuters
Gary Cameron/Reuters

Dólar cai 0,5% antes das decisões dos bancos centrais do Brasil e EUA; Bolsa recua

Enquanto o mercado vê os EUA mantendo sua política monetária inalterada, não há unanimidade para os juros no Brasil, com analistas prevendo alta de 0,75 ponto ou de 1 ponto

Redação, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2021 | 18h00

Um dia antes das reuniões sobre política monetária dos bancos centrais dos Estados Unidos e do Brasil, o dólar acabou tendo um dia volátil, virando da alta para queda em poucos minutos nesta terça-feira, 15. Hoje, após bater em R$ 5,10 na máxima, a moeda americana fechou em queda de 0,55%, a R$ 5,0428. A Bolsa brasileira (B3) também foi impactada pelo clima de cautela e cedeu 0,09% , aos 130.091,08 pontos , acompanhando o recuo visto no mercado de Nova York.

Hoje, o real acabou indo na contramão de outras moedas emergentes, que perderam força ante o dólar de forma generalizada. As captações externas de empresas brasileiras no exterior ou potenciais aportes de estrangeiros em um ambiente de juros mais altos no Brasil, favoreceram a moeda brasileira. O dólar para julho cedeu 0,38%, a R$ 5,0500.

O diretor da NGO Corretora de Câmbio, Sidnei Moura Nehme, ressalta que mais cedo o dólar subiu ante o real, com a moeda americana ganhando força após a divulgação do índice de preços ao produtor (PPI, na sigla em inglês) dos Estados Unidos. O indicador subiu 0,8% em maio, acima do esperado pelos investidores. Com isso, as taxas longas dos juros americanos passaram a subir, ajudando o dólar a se fortalecer e enfraquecendo as moedas de países emergentes. "Foi uma pressão externa."

Nehme avalia que o dólar pode romper o piso de R$ 5,00 esta semana "de forma sustentável" caso o Banco Central não decepcione e entregue ao menos uma alta de 0,75 ponto porcentual na Selic, além de possíveis novas elevações para a frente. Neste cenário de juro em alta, a melhora do real pode ser sustentável, com chance de a divisa dos EUA operar entre R$ 4,60 e R$ 4,80, avalia o economista. 

No entanto, não há unanimidade nas projeções. "O mercado hoje já está bem dividido na precificação de juros futuros, entre alta de 0,75 ponto e alguma probabilidade de alta de 1 ponto porcentual na Selic, amanhã. Os juros futuros indicam alguma possibilidade de a taxa subir 1 ponto, e agora o mercado já incorporou bastante no preço que seja retirada (no comunicado do Copom) a referência a ajuste parcial, e (o BC) comece a falar no ajuste que for necessário para trazer as expectativas de inflação de 2022 de volta para o centro da meta", diz Daniel Miraglia, economista-chefe do Integral Group.

"Se vier 1 ponto porcentual de alta, a reação do mercado já está em parte acontecendo, ontem e hoje. Se vier mesmo, não será uma grande surpresa, porque já está sendo incorporado nos preços", acrescenta. "A reunião do Fed [Federal Reserve, o banco central americano], amanhã, também é bastante relevante - se vai dar algum sinal sobre redução de estímulos. A economia americana está crescendo muito fortemente, e a inflação também subiu nos Estados Unidos. É uma composição de fatores, com Copom e Fed", conclui o economista.

A perspectiva de mais elevações de juros no Brasil, com potencial da Selic chegar a 6,5% no final do ano, aliada a um visão de atividade econômica mais aquecida em 2021, tem aumentado o otimismo com o real. Pesquisa do Bank of America com gestores de América Latina mostra que cresceu a fatia de investidores, de menos de 5%, em maio, para cerca de 25%, este mês, que veem o dólar entre R$ 4,50 e R$ 4,80 ao final de 2021. A maioria destes gestores, que há poucos meses alertava dos riscos de dólar acima de R$ 6,00, agora veem ao menos a moeda americana abaixo dos R$ 5,10 ao final do ano.

Há até um pequeno porcentual (cerca de 4%) de gestores ouvidos pelo BofA que já veem o dólar abaixo de R$ 4,50, patamar considerado o preço justo do câmbio no Brasil pelo Instituto Internacional de Finanças (IIF), quando se leva em consideração os fundamentos das contas externas, que têm tido melhora expressiva este ano. A avaliação dos ouvidos na pesquisa do BofA é que o real é a moeda que pode ter o melhor desempenho na América Latina nos próximos seis meses, superando pares como o peso do México e do Chile. Para o Fed, a pesquisa do BofA mostra que a maioria espera que o "tapering", o processo de redução de compras mensais de títulos públicos, só seja anunciado em agosto.

Na visão do estrategista-chefe do canadense TD Bank, Jim O'Sullivan, o Fed não deve fazer anúncios de mudanças amanhã, mas pode sinalizar que as conversas sobre o "tapering" ganharam força, mas ainda vai precisar de progressos adicionais na economia para o movimento começar de fato. O comunicado deve ser levemente menos pró-estímulos que o de abril, ressalta o economista, em relatório. Já as projeções para a inflação devem subir. Em conjunto, estes movimentos tendem a valorizar o dólar.

Bolsa

Sem dados econômicos relevantes que ajudassem a renovar o fôlego do mercado, o Ibovespa conseguiu sustentar assim como ontem a linha de 130 mil pontos, tendo permanecido na estreita faixa de 129 a 130 mil em todos os fechamentos de junho a partir do dia 2, após encerrar maio aos 126,2 mil pontos. O resultado de hoje vem em sintonia com Nova York, onde todos os índices fecharam em baixa, de olho na política monetária. Na semana, o índice avança 0,50%, colocando os ganhos da primeira quinzena do mês a 3,07% e os do ano a 9,30%.

Na Bolsa, destaque nesta terça-feira para Sul América e PortoRio, ambas em alta de 4,84% e 3,61% cada, na ponta do Ibovespa. Entre as ações de maior peso na composição do índice, o dia foi positivo para Petrobrás, com PN e ON em altas de 0,97% e 0,72% cada, na esteira da alta do petróleo no exterior, enquanto Vale ON fechou em baixa de 1,95%, a R$ 111,50. O dia foi majoritariamente negativo para as ações de grandes bancos, à exceção de Bradesco PN, que subiu 0,07%). As siderúrgicas também cederam terreno, com destaque para CSN ON, em baixa de 1,37%.

Além do avanço nas cotações da commodity, fatores intrínsecos à Petrobrás mantiveram as ações da empresa na contracorrente das blue chips nesta sessão. "Ao longo da semana, a estatal anunciou duas notícias que animaram os analistas, e que reforçam os planos de redução de alavancagem, assim como maior fluxo de caixa - ou seja, mesmo com a mudança recente da diretoria, a estratégia de desalavancagem não está em risco, e aproxima a empresa da meta de pagar maiores dividendos aos acionistas", diz Rafael Ribeiro, analista da Clear Corretora/ALTAMIRO SILVA JÚNIOR, LUÍS EDUARDO LEAL E MAIARA SANTIAGO

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