Jade Gao/AFP - 14/9/2021
Jade Gao/AFP - 14/9/2021

Com IOF e tensão externa elevada por conta da China, Bolsa despenca 2% e dólar sobe 0,3%

Aumento temporário da alíquota do imposto azedou o mercado, em pregão já pressionado pela possibilidade de colapso da gigante chinesa do setor imobiliário Evergrande; Ibovespa voltou hoje ao patamar de março

Redação, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2021 | 11h30
Atualizado 17 de setembro de 2021 | 18h04

A elevação temporária das alíquotas de IOF para operações de crédito como solução para bancar as despesas do novo Bolsa Família e a tensão nos mercados internacionais provocam perdas aos ativos locais nesta sexta-feira, 17 - o último dia útil da semana, normalmente, já é de maior cautela. A Bolsa brasileira (B3) voltou ao patamar de 9 de março deste ano e fechou com forte recuo de 2,07%, aos 111.439,37 pontos - na semana, acumula perda de 2,49%. Enquanto no câmbio, o dólar subiu 0,32%, cotado a R$ 5,2821.

Emendando a quarta perda da semana, o índice eleva agora o recuo de setembro a 6,18%, a caminho de seu pior desempenho mensal desde março de 2020, então no auge do pânico de mercado frente ao início da pandemia, quando tombou 29,90% antes de iniciar reação, entre abril e julho seguintes. No ano, ele recua 6,37%. Hoje, entre a máxima e o valor de fechamento, perdeu cerca de 2,4 mil pontos.

"O aumento do IOF vem numa hora inadequada: a economia apresenta sinais de acomodação do ritmo de crescimento, e provável queda desse ritmo no ano que vem. Estamos falando, no mercado, de um Protudo Interno Bruto (PIB) (em alta) de 1% a 0,5% (em 2022), com poucas projeções atuais acima de 1%, o que significa uma desaceleração", observa Nicola Tingas, economista-chefe da Acrefi.

"O momento é de ajudar a economia porque, além de uma inflação elevadíssima, e de pressões de custo de energia elétrica, nós temos naturalmente o ajuste da taxa Selic para cima, para tentar combater a inflação do ano que vem e trazê-la para a meta. É uma política equivocada aumentar o custo (de crédito) na economia com inserção de tributos", acrescenta.

"A causa (financiamento ao Auxílio Brasil) é nobre, necessária e bem-vinda, mas devia estar sendo financiada com redução de gastos, e, não, com aumento de tributação", enfatiza Tingas. "Este aumento de IOF tem dois efeitos: maior custo de crédito, para a pessoa jurídica e a pessoa física, e inflação, mesmo que seja um efeito pequeno", aponta o economista-chefe da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento.

Ex-secretário do Tesouro Nacional e diretor da ASA Investments, Carlos Kawall afirma que o aumento do IOF reforça a visão de que a política econômica está a reboque dos objetivos eleitorais de Bolsonaro. "Isso está sendo contabilizado com outras medidas que o governo tem feito com o objetivo único de aumentar o Bolsa Família em um ano eleitoral, como a PEC dos precatórios e a reforma do Imposto de Renda", disse.

Para a Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), o aumento da alíquota do IOF "dificulta o processo de recuperação da economia". No entendimento da entidade, para enfrentar os desafios fiscais que têm adiante o governo deveria, em vez de aumentar impostos, "perseverar na aprovação da agenda de reformas estruturais em tramitação no Congresso". As ações do setor financeiro despencaram, com Banco do Brasil, Bradesco, Itaú e Santander registrando baixas de 1,12%, 3,47%, 2% e 2,22% cada.

"Foram dois pregos no caixão, ontem à noite: o aumento do IOF, que resulta em desaceleração imediata da economia, por meio do crédito, e a aprovação, mais rápido do que se imaginava, da PEC dos Precatórios na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, quando o mercado preferia a opção menos pior, de alternativa negociada via CNJ (Conselho Nacional de Justiça), que parou de andar", diz Flávio Aragão, sócio da 051 Capital.

No exterior, o sentimento negativo com relação a efeitos sistêmicos negativos decorrentes de dúvidas sobre a solvência da Evergrande, gigante do setor imobiliário na China, permaneceu como pano de fundo para mais um dia de forte correção no minério de ferro, cujos preços no país já vinham sendo impactados por iniciativas regulatórias das autoridades chinesas para cortar a produção de aço. Nesta sexta-feira, a tonelada de minério teve perda de quase 5%, negociada a US$ 101,95, vindo de queda nas casas de 8% e de 4%, respectivamente, nas duas sessões anteriores.

Em resposta, ações vinculadas ao insumo tiveram forte queda da Bolsa. Vale cedeu 2,02%, R$ 86,15, enquanto Gerdau PN teve baixa de 6,59%, Usiminas, de 5,31%, e CSN, de 4,73%. Também afetadas, Petrobras ON e PN tiveram baixas de, respectivamente, 4,57% e 4,48%, em dia moderadamente negativo para as cotações do petróleo.

Câmbio

O fantasma de uma guinada populista de Bolsonaro, materializado pelo aumento do IOF, e o fortalecimento global da moeda americana - em meio à espera do encontro do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) e às preocupações com a economia chinesa - deram o tom dos negócios no mercado de câmbio local nesta sexta.

O dólar já iniciou o dia em alta e, em uma escalada ao longo da manhã, correu até a máxima de R$ 5,3474, em alta de 1,57%. Tudo sugeria que o real amargaria a lanterna entre as divisas emergentes e de países exportadores de commodities, que caíam em bloco. A febre compradora, contudo, cedeu ainda no fim da manhã, em meio à realização de lucros e ajuste de posições, o que fez a moeda se acomodar abaixo de R$ 5,30 ao longo da tarde. Com o avanço desta sexta-feira, o dólar encerra a semana com leve valorização de 0,28% e acumula alta de 2,13% em setembro. O dólar para outubro subiu 0,60%, a R$ 5,2970.

No fim das contas, o dólar subiu mais em relação ao peso mexicano (+0,47%), considerado um principais pares do real, e ao rand sul-africano (+1,05) - este devolvendo parte dos ganhos recentes bem acima da média das demais divisas emergentes. O índice DXY - que mede o desempenho do dólar frente a seis moedas fortes - subia cerca de 0,30% e operava acima da linha dos 93 pontos.

"Mas o movimento mais forte de alta do dólar pela manhã mostra o quão sensível a taxa de câmbio está à questão política", afirma o head de câmbio da Acqua-Vero Investimentos, Alexandre Netto. "O aumento do IOF faz parte de um conjunto de medidas que reforçam a percepção de que o presidente Bolsonaro, que tem aprovação cada vez pior, pode embarcar num populismo fiscal", diz. /LUÍS EDUARDO LEAL, ANTONIO PEREZ E MAIARA SANTIAGO

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