Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Bolsa cai 1,5% com forte recuo do petróleo no exterior; dólar fica a R$ 5,56

Barril de petróleo fechou em queda de 7% e resultado, o pior em seis meses, afetou tanto o Ibovespa quanto os índices de Nova York; ações da Petrobrás caíram em torno de 3%

Redação, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2021 | 16h36
Atualizado 18 de março de 2021 | 18h05

A Bolsa brasileira (B3) fechou em queda de 1,47%, aos 114.835,43 pontos nesta quinta-feira, 18, após o petróleo despencar 7% no exterior, em seu pior resultado em seis meses. O desempenho negativo da commodity puxou as ações da Petrobrás, que cederam em torno de 3%, e também os índices de Nova York. O dólar, que reagia bem ao reajuste de 0,75 ponto percentual na Selic, também foi afetado e encerrou cotado a R$ 5,5695, em leve baixa de 0,30%.

No exterior, o petróleo WTI com vencimento para maio fechou em queda de 7,07%, pior resultado em seis meses, enquanto o Brent para mesmo mês cedeu 6,94%. O recuo nos preços tem a ver com as preocupações a respeito da pandemia de coronavírus, com o continente europeu voltando a registrar um aumento nos casos. Além disso, o fortalecimento do dólar lá fora também pesou.

Nesse cenário, em Nova York, Dow Jones, S&P 500 e Nasdaq fecharam com quedas de 0,46%, 1,48% e 3,02%. A queda das ações das principais petroleiras colaborou para esse resultado. Já por aqui, os papéis ON e PN de Petrobrás tiveram recuos de 2,83% e 3,49% cada. Na semana, o Ibovespa avança 0,59% e no mês, 4,36%, colocando as perdas do ano a 3,51%.

A piora no petróleo deixou em em segundo plano o aumento de 0,75 ponto percentual na taxa Selic, anunciado ontem pelo Banco Central para conter a alta da inflação no País. Com isso, a taxa agora passa a ser de 2,75% ao ano. Também saiu do foco a decisão do Federal Reserve (Fed, o BC americano), de manter entre 0% e 0,25% ao ano a taxa dos Estados Unidos.

"Era para ter sido um dia melhor hoje na Bolsa, mas o petróleo não ajudou. O Fed deixou muito claro que os juros nos Estados Unidos ficarão onde estão até 2023. Mas ainda há pressão sobre os retornos dos títulos do Tesouro americano, preocupação do

mercado com inflação, enquanto o Fed segue atento ao emprego, com dados semanais sobre pedidos de auxílio que ainda mostram fragilidade da situação do trabalho por lá. As escolhas nos EUA também não são muito fáceis", diz Rodrigo Friedrich, head de renda variável da Renova Invest.

"Ainda há muito ativo com desconto na Bolsa aqui e liquidez muito forte lá fora, com a política monetária bem afrouxada e grandes volumes de compras de títulos por bancos centrais. Mas o fluxo para cá não tem sido consistente, porque o dever de casa não avança. As reformas tributária e administrativa sumiram do noticiário, e aqui a política atua apenas por pressão", aponta Rodrigo Franchini, sócio e head de produtos na Monte Bravo Investimentos.

"Mesmo com a PEC Emergencial, ainda há incerteza sobre o fiscal e também sobre a pandemia, apesar da expectativa de que a vacinação ganhe intensidade nos próximos meses, com maior disponibilidade de doses. No ano passado, o auxílio emergencial era por três meses, mas acabou sendo em nove", acrescenta. Hoje, o governo anunciou que o auxílio emergencial voltará a ser pago em abril, para 45,6 milhões de beneficiários.

O clima de cautela com o exterior também pesou nas ações da Vale, hoje em queda de 1,78%. As ações de bancos, que contribuíam para segurar o Ibovespa mais cedo, pós-Copom, limitaram a recuperação, com BB ON passando ao negativo no fechamento, em baixa de 0,85%. Ainda assim, o setor financeiro segurou a ponta positiva do Ibovespa: Santander subiu 2,77%, Bradesco ON e PN, ambas com 1,85%. No lado oposto, PetroRio cedeu 8,60%, Gol, 7,53%, e Magazine Luiza, 6,93%.

Câmbio

O cenário externo atrapalhou hoje a esperada melhora do real, prevista ontem por analistas após a elevação da Selic pelo Banco Central ter superado as expectativa de boa parte dos participantes do mercado. Na abertura, a divisa chegou a cair forte, recuando a R$ 5,47, mas a nova rodada de elevação dos juros longos americanos, nos maiores níveis em 14 meses, e em seguida com os preços do petróleo despencando no mercado futuro, a moeda americana acabou ganhando força no exterior. Com isso, o dólar seguiu em queda ante o real nos negócios da tarde, mas em ritmo mais contido, na casa dos R$ 5,55. Hoje, a moeda para abril 

O estrategista de moedas do banco Brown Brothers Harriman (BBH), Ilan Solot, comenta que a expectativa era de real mais forte hoje, mas, ao mesmo tempo, ele observa que há, além do cenário externo mais adverso por conta da alta dos títulos públicos americanos, fatores internos dificultando a melhora da moeda brasileira, notadamente as contas fiscais deterioradas e os ruídos políticos. Por isso, a menos que o ambiente fiscal e político melhorem, o real tende a não ter melhora sustentada.

Para o economista-chefe da Frente Corretora de Câmbio, Fabrizio Velloni, o início do ciclo de aumento de juros tende a "equiparar a distorção" dos juros do Brasil com o resto do mundo. As taxas reais, descontadas a inflação, estavam mais negativas aqui que as da Suíça. Como ressalta Velloni, o juro do Brasil era um dos menores dos emergentes, enquanto o risco é um dos mais altos, o que desestimulava aportes de estrangeiros.

Com a volta das elevações da Selic, o economista acha que pode ocorrer mais atração de recursos externos para o Brasil, aumentando assim a entrada de dólares, o que reduz a pressão sobre o real. Ao mesmo tempo, a piora da pandemia, que traz dúvidas sobre a retomada da economia, deve contribuir para manter o cenário incerto e o câmbio pressionado. /LUÍS EDUARDO LEAL, ALTAMIRO SILVA JÚNIOR E MAIARA SANTIAGO

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