Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Bolsa cai 0,15% e dólar diminui queda após governo anunciar veto parcial de emendas

Ministra da Secretaria de Governo disse que ideia é vetar R$ 10,5 bi em emendas do Orçamento, menos da metade dos R$ 35 bi reservados no texto para esse tipo de gasto

Redação, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2021 | 15h20
Atualizado 19 de abril de 2021 | 18h22

A Bolsa brasileira (B3) virou para o negativo perto do final do pregão desta segunda-feira, 19, após a ministra da Secretaria de Governo informar que o governo planeja vetar R$ 10,5 bilhões em emendas do Orçamento de 2021. O valor foi considerado baixo, visto que esses recursos somam R$ 35 bilhões. Em resposta, o Ibovespa fechou em queda de 0,15%, aos 120.933,78 pontos. O dólar também diminuiu o ritmo de desvalorização, terminando cotado a R$ 5,5505, baixa de 0,61%.

"Caminhamos para veto parcial, mantendo algumas emendas do relator e corte em despesas discricionárias", disse Flávia Arruda (PL-DF). Com a decisão, o governo caminha para um meio termo na queda de braço entre a alta cúpula do Congresso Nacional, que defende a aprovação sem vetos do Orçamento, e o ministro da Economia, Paulo Guedes, que defende o veto total das emendas para livrar o presidente Jair Bolsonaro do risco de cometer crime de responsabilidade.

A expectativa do mercado, no entanto, era de que o veto fosse mais amplo, atingindo ao menos metade dos R$ 35 bilhões em emendas.  A sinalização ruim sobre o Orçamento de 2021, que precisa ser sancionado até quinta-feira, com feriado na quarta, foi decisiva para colocar os investidores na defensiva no fim da tarde. Assim, o Ibovespa interrompeu série de cinco ganhos, apesar de ter alcançado 121.974,21 pontos na máxima desta segunda-feira.  No mês, índice sobe 3,69%, após avanço de 6% em março, o que o coloca agora em alta de 1,61% no ano.

"O cenário ainda é incerto para o mercado no curto prazo. A decisão sobre o Orçamento de 2021, a ser tomada até quinta-feira, é o grande ponto de atenção. Sem uma definição que demonstre controle da situação e priorização da saúde fiscal, aumentam os riscos de o teto de gastos ser desrespeitado", diz Paula Zogbi, analista da Rico Investimentos.

"Há discussão de mais de um mês sobre BEm [programa de corte e redução de jornada e salário] e Pronampe, ainda assim há incerteza sobre como elevar despesas sem ferir teto de gastos e, mais do que isso, a percepção do mercado. É provável que haverá vetos parciais (no Orçamento de 2021) até quinta-feira e talvez, mesmo com o PLN 2 divulgado hoje, a gente tenha novos projetos a serem encaminhados ao Congresso. Essa discussão deve perdurar mais alguns dias, o que deve causar mais volatilidade ao mercado", diz Fernanda Consorte, economista-chefe do Banco Ourinvest.

Na agenda de dados do dia, o IBC-Br de fevereiro, no topo das estimativas para o mês, a 1,70% ante janeiro, foi recebido como imagem de retrovisor. "O crescimento econômico em janeiro e fevereiro pode ser parcialmente compensado pela forte contração esperada para março, de cerca de -8,5%, causada pelas medidas de restrição mais severas para combater a propagação da covid-19. Nossa estimativa atual para o PIB geral no primeiro trimestre é de +0,2%", aponta em nota o banco MFUG Brasil. "A forte contração em março levaria a um carrego estatístico negativo para o PIB do segundo trimestre", acrescenta a instituição.

No entanto, uma queda mais brusca do índice foi evitada pelos ganhos das ações ON e PN de Petrobrás, de 4,99% e 5,49% cada. A sinalização do novo presidente da Petrobrás, general Joaquim Silva e Luna, de que não vai abrir mão da Paridade de Preços de Importação (PPI) trouxe tranquilidade ao mercado, depois que as sucessivas altas dos combustíveis culminaram na demissão do antecessor do militar, avaliou o analista da Ativa Investimentos, Ilan Arbetman.

Na contramão, Vale cedeu 0,87% mesmo com a alta do minério de ferro, que atingiu US$ 181,80 a tonelada na China. Segundo operadores, o recuo do dólar no mercado nacional pressionou os lucros da empresa. O mesmo aconteceu com CSN, hoje em baixa de 1,19%. Já Braskem subiu 5,62%, após notícia de que fundo soberano dos Emirados Árabes Unidos negocia com a antiga Odebrecht compra de fatia da empresa petroquímica.

Câmbio

O dólar engatou a quinta queda seguida ante o real, com ajuda da baixa da moeda americana no mercado internacional e a perspectiva de resolução para a questão do Orçamento de 2021. Também agradaram declarações do novo presidente da Petrobrás, de preservar a paridade internacional nos preços dos combustíveis. Houve relatos de entrada de fluxo externo para o País, comercial e financeiro, o que levou a moeda americana a cair para R$ 5,52 na mínima do dia, testando os menores valores em quase um mês. Se a questão orçamentária for resolvida sem rupturas ao teto, economistas projetam nova rodada de melhora para o real. O dólar para maio fechou em queda de 0,80%, a R$ 5,5550.

Para o economista Samuel Pessôa, chefe de pesquisa econômica da Julius Baer Family Office, pode haver uma descompressão no câmbio se o governo conseguir resolver a questão do Orçamento de 2021 respeitando dois princípios. O primeiro é que tudo que seja extra teto de gastos seja só de medidas associadas à pandemia, com despesas transitórias, e as despesas recorrentes dentro do teto. "Dada a dimensão da segunda onda, é natural que haja gastos adicionais." O segundo princípio é que as despesas extra teto têm tem ter um orçamento.

Com o orçamento resolvido, o economista-chefe da Genial, José Márcio Camargo, vê pressão para a valorização do real pela frente, por conta da entrada de dólares via comércio. Ele observa que os dois maiores parceiros comercias do Brasil - Estados Unidos e China - devem crescer 8% em 2021. A Genial prevê que o dólar deve fechar o ano a R$ 5,00 ou R$ 4,90. /LUÍS EDUARDO LEAL, ALTAMIRO SILVA JÚNIOR E MAIARA SANTIAGO

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