Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Bolsa vira o sinal e fecha em alta, apesar do dia ruim para as commodities; dólar sobe 0,9%

Dia foi negativo para as matérias-primas metálicas, diante da queda de 13% do minério na China e do recuo de 3% do petróleo; no pior momento do dia, Ibovespa caiu no menor nível intradia desde 29 de março

Redação, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2021 | 10h30
Atualizado 19 de agosto de 2021 | 19h01

Com o apoio de ações do setor financeiro, a Bolsa brasileira (B3) conseguiu zerar as perdas do dia nesta quinta-feira, 19, e escapar do mau humor generalizado que atingiu os principais ativos do exterior. Hoje, o Ibovespa fechou com leve alta de 0,45%, aos 117.164,49 pontos. No câmbio, o dólar avançou 0,89%, cotado a R$ 5,4228 - na máxima, bateu em R$ 5,45.

Na mínima do dia, o Ibovespa caiu aos 114.801,00 pontos, menor nível intradia desde 29 de marçoA recuperação de Nova York também foi fundamental para o bom desempenho da Bolsa brasileira, por lá, apenas Dow Jones fechou em queda, enquanto as Bolsas de Ásia e Europa registraram quedas fortes. Hoje, ativos em todo o mundo, em especial os ligados às commodities, despencaram, após a queda de 3% do petróleo e também o tombo superior a 13% no minério de ferro negociado na China - agora no menor nível desde 30 de novembro.

Também pesou a perspectiva de diminuição da liquidez global, após a ata do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) revelar que parte dos dirigentes da instituição quer começar a reduzir a compra mensal de títulos - da ordem de US$ 120 bilhões - ainda neste ano. Além disso, a perda de dinamismo das economias americana e chinesa, diante do avanço da variante Delta da covid, começa a preocupar.

"Ações como as de Vale, Gerdau e Usiminas tendem a continuar voláteis, com a possibilidade de o minério continuar caindo, mas setores descontados, como bancos e a própria Petrobras, podem recompor, assim como varejo", acrescenta a operadora, chamando atenção para avaliação do JP Morgan de que o Ibovespa pode encerrar o ano aos 130 mil pontos, diz Viviane Vieira, operadora de renda variável da B.Side Investimentos, escritório ligado ao BTG Pactual.

Tendo fechado a sessão anterior no menor nível desde 1º de abril, o índice da B3 acumula na semana perda de 3,32% e, em agosto, de 3,81%, colocando o ajuste negativo do ano a 1,56%. Sem muitas novidades de ontem para hoje, para corrigir eventuais excessos, os investidores buscaram em especial ações ligadas à demanda doméstica, como as do setor de serviços, que pode apresentar recuperação mais forte à medida que o ano se aproxima do fim, com a normalização das atividades - ontem, o governador de São Paulo, João Doria, declarou que a quarentena terminou no Estado.

Assim, CVC teve alta de 7,91%, Locaweb, de 7,79%, Totvs, de 5,78% e Localiza, de 5,31%. As ações do setor financeiro, por serem papéis de maior liquidez e com potencial de recuperação maior, num cenário de expectativa de aumento de juro, também contribuíram para mitigar o impacto do recuo das ações vinculadas ao setor de commodities, com Banco do Brasil ON subindo 0,34%, e Santander Unit, 0,35%. Na contramão, Vale ON despencou 5,71%, segunda maior perda do índice, enquanto CSN, caiu 5,78% e Usiminas, 5,80%. As ações de Petrobras ON e PN também foram penalizadas e caíram 0,95% e 0,56%, respectivamente. 

"Foi o segundo pregão com forte volatilidade e bastante alta no mercado de dólar, que segue puxado também pelo embate entre os Poderes e pelo acompanhamento do fiscal, com possível risco, que o mercado vê, de modificações 'criativas' em cima do teto de gastos", diz Rafael Ramos, especialista em câmbio da Valor Investimentos.

Mais cedo, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, voltou a reforçar que a autoridade monetária tem como prioridade alcançar a meta de inflação a partir do próximo ano, e enfatizou que a instituição possui os instrumentos para isso, o que contribuiu para moderar, em alguma medida, o ajuste no câmbio e para que a Bolsa neutralizasse as perdas na sessão.

 


Por outro lado, em audiência em comissão do Senado, o ministro da Economia, Paulo Guedes, disse que se a proposta de parcelamento de precatórios não passar no Congresso, não haverá verba suficiente para fazer rodar a máquina pública e poderá faltar recursos para pagamento desalários - "Brasília vai parar", chegou a dizer o ministro. Ele apontou também que será um erro se a reforma do Imposto de Renda não for aprovada. Nesta semana, a votação foi adiada na Câmara por falta de acordo.

Câmbio

Já pressionado pelas questões domésticas - fiscais e político-institucionais - o real não encontrou forças para se livrar dos ventos contrários vindos de fora, embora não tenha, desta vez, liderado as perdas entre divisas emergentes - papel que coube ao rand sul-africano. Afora alívios pontuais ao longo do pregão, fruto de fluxos esporádicos de recursos de exportadores e pausas para realização de lucros, o dólar trabalhou a maior parte do dia acima da casa de R$ 5,40. Com isso, a moeda americana

sobe 3,29% na semana e acumula valorização de 4,09% em agosto. 

No meio da tarde, o dólar deu uma arrefecida e desceu até a mínima de R$ R$ 5,3808, acompanhando a leve melhora do desempenho dos demais ativos domésticos, com a Bolsa virando para o terreno positivo. O alívio foi efêmero e o dólar voltou, rapidamente, a ser negociado acima de R$ 4,42, com o índice DXY - que mede o desempenho da moeda americana ante seis divisas fortes - renovando máximas, na casa de R$ 93,500 pontos. Por aqui, o dólar para setembro subiu 0,55%, a R$ 5,4255.

Sócio e gestor da Galapagos Capital, Sergio Zanini ressalta que o desempenho do real hoje foi "igual ou até melhor" que o de outras divisas emergentes e de países exportadores de commodities. "Parece que essa perspectiva de aumento da Selic está servindo de colchão para o real. Existe essa tentativa de controlar um pouco essa volatilidade do câmbio e as pressões inflacionárias, em meio a esses ruídos e sinalizações preocupantes do lado fiscal", afirma Zanini.

Ainda Para Zanini, da Galapagos, o programa de redução do Estado do governo Jair Bolsonaro, que garantiria juro estrutural mais baixo, ruiu com a pandemia - e o Brasil volta a ter uma "situação fiscal complicada", principalmente com as propostas para aumentar o alcance do Bolsa Família. Embora o País tenha reservas internacionais elevadas e contas externas saudáveis, a taxa de câmbio real (ajustada pela inflação) está hoje nos mesmos níveis de 2002, época de forte aversão ao risco por causa da perspectiva de vitória do ex-presidente Lula e de forte endividamento externo. /LUÍS EDUARDO LEAL, ANTONIO PEREZ E MAIARA SANTIAGO

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