Andrew Harnik/EFE/Pool
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Dólar fecha em baixa com posse de Biden, mas problemas na imunização do País preocupam

Bolsa brasileira caiu 0,82% atenta ao andamento da vacinação no Brasil, que está ameaçada por conta da falta de insumos; decisão do Copom sobre a Selic também é aguardada

Redação, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2021 | 09h06
Atualizado 20 de janeiro de 2021 | 19h17

As primeiras palavras de Joe Biden como 46º presidente dos Estados Unidos foram acompanhadas de perto pelos investidores. O tom conciliatório, o compromisso com o combate às fake news e à pandemia de covid-19 ditaram o tom do discurso do democrata. Com isso, o dólar fechou em queda leve de 0,63%, a R$ 5,3118. No entanto, a perspectiva de um atraso na imunização no País segurou os ganhos da Bolsa brasileira, que fechou em queda de 0,82%, aos 119.646,40 pontos.

"Vamos voltar a nos escutar e nos ver outra vez; vamos nos respeitar", disse Biden em seu discurso de posse. "Vamos restaurar nossas alianças e nos engajar com o mundo outro vez", afirmou o presidente. Apesar das palavras que apagam a fervura belicosa do presidente anterior, Donald Trump, o mercado segue alerta e na expectativa pelo novo pacote de estímulo à economia americana.

Em Nova York, as medidas de incentivo trilionárias já anunciadas por Biden são altamente esperadas por investidores, que levaram o Dow Jones, o S&P 500 e o Nasdaq a fechar com novas máximas históricas. Os três índices tiveram altas de 0,83%, 1,39% e 1,97%, respectivamente.

Como afirmou ao Estadão/Broadcast, Bruno Guimarães, head de Renda Variável da EWZ Capital, o dia segue pautado por duas incertezas. Uma é internacional e se trata, justamente, da dúvida sobre qual vai ser o tamanho efetivo do pacote fiscal de Biden. "O foco inicial de Biden será o combate à pandemia. Se for bem-sucedido, a economia irá melhorar, o que será positivo também para seu governo. O problema número um, para os Estados Unidos e o mundo, continua a ser a vacinação", diz Scott Hodgson, gestor de renda variável da Galapagos Capital.

"Uma nova era está começando e os investidores voltam a investir em ações graças às garantias da secretária indicada ao Tesouro, Janet Yellen, e do presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Jerome Powell, de que a economia dos EUA precisa de mais ajuda. O apelo de Yellen por uma ação 'grande' significa que a quantidade de estímulos só vai crescer no primeiro ano do presidente Biden", escreve em nota Edward Moya, analista da OANDA em Nova York.

Em evento virtual do Centre for the Study of Financial Innovation, o economista Mohamed El-Erian, consultor-chefe do grupo Allianz e presidente do Queens College da Universidade de Cambridge, considerou apropriado o pacote fiscal trilionário proposto por Biden. "É uma resposta absolutamente certa", disse, ao reforçar que a liquidez que pode ser despejada na economia mundial este ano, em três frentes - fiscal, monetária e gastos das famílias - pode somar vários trilhões de dólares, entre 20% e 25% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial.

No entanto, o Ibovespa sentiu nesta quarta o peso dos problemas no andamento da vacinação contra a covid no País. O governador de São Paulo, João Doria, alertou que a capacidade de produção de vacinas no Instituto Butantan se esgotou, por conta da escassez de insumos. Estados fizeram um apelo para que Jair Bolsonaro se envolva nas negociações com China e Índia para acelerar a importação da matéria prima utilizada para fabricar os dois imunizantes aprovados até o momento no País.

Caso contrário, a expectativa é que as doses continuem limitadas até março. Nesse caso, o cenário traçado por especialistas é de descontrole da pandemia, o que obrigaria o governo a entrar com mais medidas de auxílio, aumentando a pressão no teto de gastos e correndo o risco de descontrole fiscal.

Na Bolsa, as perdas desta quarta-feira se distribuíram pelos setores de maior peso, como commodities, com Vale ON em queda de 1,85% e Petrobrás PN, de 1,67%. Siderurgia, com baixa de 1,67% de Usiminas e de 2,06% de Gerdau PN. E ainda bancos, com Santander tendo recuo de 2,56% e Bradesco PN, de 2,08%. Com seus negócios dependendo fortemente do controle da pandemia, Embraer caiu 3,27%. No lado oposto, B2W subiu 8,53%, Magazine Luiza, 5,56%, e Lojas Americanas, 4,06%.

Também pesou no mercado nesta quarta a espera pela decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), que manteve a Selic em 2% ao ano pela quarta vez seguida, mas a decisão veio com o mercado já fechado. Além disso, o comitê retirou a perspectiva de manutenção de juros baixos, aumentando a expectativa de que a fase de cortes da taxa básica de juros da economia chegou ao fim.

Câmbio

O dólar caiu hoje ante o real, em linha com os pares emergentes, à medida que o mercado cambial segue apostando em medidas fiscais a serem tomadas por Joe Biden. No discurso de posse, o democrata reafirmou o compromisso com o combate aos efeitos econômicos da covid-19, o que reforça a visão de que mais estímulos estão a caminho - sem a oposição da Casa Branca e com maiorias na Câmara e no Senado.

O dólar caiu também ante o peso mexicano (-0,15%), o rand sul-africano (-0,56%) e o rublo russo (-0,19%), para citar algumas das emergentes mais líquidas. No mercado futuro, o dólar para fevereiro fechou em queda de 1,28%, a R$ 5,2925.

"Vimos desde cedo um movimento do mercado em torno da posse do Biden, na expectativa que se gerou em torno do governo dele com os estímulos fiscais", frisou a economista-chefe da Veedha Investimentos, Camila Abdelmalack. No entanto, ela diz que é preciso fazer a "lição de casa", já que uma economia americana fortalecida resulta em um dólar alto, o que impacta negativamente nas economias emergentes.

No caso do Brasil, Camila cita as preocupações de fundo fiscal, que seguem no radar. "Um atraso no cronograma de vacinação pode levar ao debate sobre o auxílio emergencial, que nos leva ao debate do espaço fiscal... O caminho final é sempre esse, no caso do Brasil. A gente acaba sempre indo na questão do fiscal", pontuou./ LUÍS EDUARDO LEAL, ALTAMIRO SILVA JÚNIOR E MAIARA SANTIAGO

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