Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Bolsa fecha em alta com ajuda do exterior, mas termina a semana com queda de 2,6%

Hoje, dólar cedeu 0,7%, mas também encerra os últimos cinco dias com ganho acumulado de 2,66%; temor com variante Delta, impasse político no Afeganistão e cenário fiscal do Brasil ainda preocupam

Redação, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2021 | 10h30
Atualizado 20 de agosto de 2021 | 19h48

Com a melhora dos mercados internacionais, a Bolsa brasileira (B3) conseguiu recuperar o fôlego no pregão desta sexta-feira, 20, e reparar parte da perda semanal. Hoje, o Ibovespa fechou com alta de 0,76%, aos 118.052,77 pontos - o bastante para reduzir as perdas dos últimos cinco dias de 5% para 2,59%. No câmbio, o dólar manteve a trajetória de queda ante o real e fechou em baixa de 0,70%, a R$ 5,3848 - apesar do alívio, a moeda fecha a semana em alta de 2,66%.

No ano, o índice da B3 ainda acumula perda de 0,81%, tendo virado para o negativo nesta semana. No mês, a baixa é de 3,08%. Com o suporte proporcionado pelo dia positivo nos mercados acionários da Europa e dos Estados Unidos, que também acumularam perdas na semana assim como os da Ásia, a moderação da aversão a risco desde o exterior contribuiu para que o Ibovespa respirasse, voltando a olhar um pouco para o corporativo, contaminado recentemente pelos temores macro, sobre a política e o fiscal.

"Como dizia Benjamin Graham (autor do clássico 'O Investidor Inteligente'), no curto prazo o mercado é como urna de votação, o resultado da opinião de diversas pessoas, mas, no longo prazo, o que conta é a balança onde os fatos são pesados", diz Luiz Fernando Araújo, CEO da Finacap Investimentos. "Temos ainda muito ruído, que prejudica o desempenho, mas há fundamentos bons nas empresas, e também no macro, como a balança comercial. O mercado envia sinais às autoridades, especialmente pelo câmbio, que causa por um lado nível de desconforto, pela inflação. No curto prazo, o mercado estará mais inclinado às impressões do que aos fatos, preocupado especialmente com os precatórios, se resultarão em problema fiscal ou não", acrescenta.

"Hoje, todos os ativos de risco reagiram bem, com o exterior: dólar caindo, Bolsa subindo, terminando a semana com humor um pouquinho melhor do que quando começou, mas ainda com uma soma negativa. A semana foi ruim por uma série de fatores, entre os quais o avanço da variante Delta da covid nos Estados Unidos, a tensão do início da semana pelo Afeganistão e, aqui, após a boa temporada de balanços, há sofrimento pelo teto de gastos, de que pode furar ou ser maquiado. Além das pesquisas que apontam favoritismo de Lula na eleição do ano que vem, o que pode levar Bolsonaro, acuado, a gastar mais", observa Rodrigo Marcatti, CEO da Veedha Investimentos.

À tarde, houve sinal de que os investidores podem cultivar um pouco mais o olhar para o noticiário corporativo, em segundo plano recentemente, após temporada de balanços do segundo trimestre em geral positiva. "Aqui no Brasil, o Ibovespa passou a operar com leve alta, impulsionado principalmente pelas ações da Sabesp, que chegaram a subir mais de 15% após falas de Rodrigo Maia a respeito da privatização da empresa", observa em nota a equipe de análise de Régis Chinchila, da Terra Investimentos.

Hoje, o governo de São Paulo divulgou nota em que esclarece que o agora secretário de Projetos e Ações Estratégicas, e ex-presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, que faz parte do Comitê de Desestatização, "irá acompanhar os estudos a serem contratados com o objetivo de analisar a Sabesp e apontar o futuro da empresa, considerando o novo marco do saneamento e a expansão dos seus serviços".

"Outro destaque foi Paulo Guedes (ministro da Economia) sobre a reforma do Imposto de Renda, em que disse que 'se for para taxar dividendos em 15% é melhor nem ter reforma do Imposto de Renda', como resposta para reduzir alíquota de 20%", acrescenta a Terra.

No noticiário de Brasília, o governo deve enviar uma proposta de Orçamento para 2022 prevendo um déficit de cerca de R$ 70 bilhões, segundo apurou o Estadão/Broadcast. A estratégia da equipe econômica é enviar primeiro o projeto e depois buscar condições políticas de reduzir a meta fiscal para algo próximo desse valor, o que depende do envio ao Congresso de uma alteração na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) do ano que vem, ainda não sancionada oficialmente.

Em recuperação na sessão, o desempenho positivo de Sabesp, em alta de 10,86%, ajudou a aliviar a pressão de Petrobras, em baixa de 0,15% para PN e de 0,04% para ON, em dia de recuo de 2% para o petróleo no exterior. Siderurgia teve desempenho ao final misto, com Vale ON mostrando alta de apenas 0,04% no fechamento, após a alta de 0,3% do minério de ferro na China. Ainda entre as altas, Ecorodovias subiu 4,53%, Yduqs, 4,42%, e Cemig, 2,55%.

Câmbio

Depois de dois pregões seguidos de alta firme, o dólar à vista recuou nesta sexta, em dia marcado por cenário externo mais benigno e sinais da equipe econômica de comprometimento com a manutenção do teto de gastos, considerado a âncora do regime fiscal do país. O alívio na taxa de câmbio veio, porém, em mais uma sessão cheia de solavancos. Na parte da manhã, o dólar chegou a correr até a máxima de R$ 5,4746, em meio ao mau humor nos mercados internacionais, sobretudo com medidas de regulação na China.

No mês, a moeda ainda sobe 3,36% - ainda hoje, o dólar para setembro fechou com queda de 0,78%, R$ 5,3830. No exterior, o índice DXY, que mede a força da moeda ante uma cesta de outras divisas fortes, teve queda de 0,08%, a 93,496 pontos. A maré começou a virar no começo da tarde, após declarações do presidente da distrital do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) de Dallas, Robert Kaplan. Hoje, Kaplan disse que pode mudar de opinião quanto ao início da redução de estímulos monetários em outubro deste ano por conta das incertezas provocada pelo avanço da variante Delta.

Boa parte da arrancada do dólar nas sessões anteriores foi atribuída aos temores de abandono, mesmo que informal, do teto dos gatos, em meio aos debates sobre a PEC dos Precatórios, a reforma do Imposto de Renda e reajuste do Bolsa Família (rebatizado de Auxílio Brasil) - este um desejo do presidente Jair Bolsonaro, que busca recuperar sua popularidade.

"O mercado reagiu bem ao ver alguém lá dentro [do governo] demonstrar responsabilidade. O mercado quer ver gente disposta a fazer o que é necessário, e não em trabalhar para a reeleição do presidente. Foi esse recado que ele passou", afirma Jefferson Laatus, estrategista-chefe do Grupo Laatus.

Para o economista-chefe da Ativa Investimentos, Étore Sanchez, é inegável que a alta recente do dólar, apesar do componente externo, veio justamente do fato de a credibilidade da política fiscal ter ficado em xeque. "As propostas enviadas pelo governo e a clara tentativa de contornar o teto de gastos são também grandes responsáveis pela desvalorização do real", afirma Sanchez, ressaltando que o debate em torno do Orçamento de 2022 ampliou muito o risco fiscal. /LUÍS EDUARDO LEAL, ALTAMIRO SILVA JÚNIOR E MAIARA SANTIAGO

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