Werther Santana/Estadão - 18/6/2021
Werther Santana/Estadão - 18/6/2021

Temor de calote da chinesa Evergrande derruba Bolsas mundiais; Ibovespa tomba 2,33%

Crise da gigante do setor imobiliário na China derreteu o mercado mundial, com perdas de até 2,4% em Nova York; dólar subiu quase 1% e B3 fechou no menor nível desde novembro

Redação, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2021 | 11h00
Atualizado 21 de setembro de 2021 | 10h56

O medo de um calote da gigante do setor imobiliário chinês Evergrande e potenciais efeitos na economia da China mexeu com índices de todo o mundo nesta segunda-feira, 20, incluindo Nova York. Seguindo o mesmo movimento, a Bolsa brasileira (B3) teve tombo de 2,33%, aos 108.843,74 pontos - no menor nível desde 23 de novembro. Entre as ações, o setor de mineração foi o mais afetado. No câmbio, o dólar foi pressionado e subiu 0,93%, cotado a R$ 5,3312 - maior valor de fechamento desde 23 de agosto.

Hoje, o índice atingiu o menor nível intradia desde de 3 março, ao baixar aos 107.520,14 pontos, queda superior a 3%. Dessa forma, a perda acumulada pelo Ibovespa desde o recorde histórico de fechamento, em 7 de junho (130.776,27 pontos), de quase 22 mil pontos, corresponde agora a 16,77%. Considerando apenas esta segunda-feira, o índice cedeu 2.595 pontos. No mês, as perdas são de 8,37% e no ano, de 8,55%.

Em porcentual, a perda desta segunda-feira foi a pior desde o último dia 8, quando havia cedido 3,78%. De lá para cá, o arrefecimento da crise político-institucional deu lugar a outros desdobramentos, negativos, como a elevação do IOF até o fim do ano e os crescentes receios quanto às consequências de eventual insolvência da Evergrande para a economia chinesa e global.

Em Nova York, índice Dow Jones fechou em queda de 1,78%, o S&P 500, de 1,70% e Nasdaq, de 2,40%. O índice VIX, conhecido por termômetro do medo, chegou a operar com alta acima de 36%. Na Europa, a Bolsa de Londres cedeu 0,79%, Frankfurt perdeu 2,31% e Paris, 1,74%. A Bolsa de Hong Kong fechou em baixa de 3,3% sob efeito da Evergrande, enquanto os mercados acionários da China, do Japão, da Coreia do Sul e de Taiwan não operaram em função de feriados.

O quadro de tensão também pressionou o petróleo hoje. Em Nova York, o WTI para novembro fechou em baixa de 2,34%, a US$ 70,14 o barril, e o Brent para o mesmo mês caiu 1,88%, para US$ 73,92 o barril em Londres.

Temores quanto a um risco sistêmico no setor de construção chinês, e os efeitos para a retomada da segunda maior economia do mundo, mantêm as commodities sob pressão, com o minério de ferro em novo tombo, de quase 9% hoje, a US$ 92,98 por tonelada na China. No dia 8, o minério iniciou série negativa, ainda não interrompida, que se agravaria especialmente a partir do dia 16, quando cedeu 8%, refletindo a piora de percepção sobre a China, visão que já vinha se debilitando há algum tempo com iniciativas regulatórias restritivas em setores como o do aço.

"Durante a maior parte da última década, o mundo se preocupou com o forte aumento da alavancagem líquida e bruta da China", aponta o Barclays, que em relatório a clientes destaca que dos 300 bilhões em passivos detidos pela Evergande, apenas 11,4% são empréstimos bancários.

"Os preços das matérias-primas estão associados à nova política do governo chinês, com relação a metas ambientais, diminuição da produção de aço e desaceleração do setor de construção civil no país", diz Túlio Nunes, especialista de finanças da Toro Investimentos. "Os passivos da incorporadora (Evergrande) giram em torno de US$ 300 bilhões, e as preocupações sobre a alta alavancagem do setor imobiliário chinês ligam o sinal de alerta nos mercados globais. As agências de classificação de risco já reduziram suas notas de classificação para um possível calote", acrescenta Nunes.

Assim, na B3, o setor de mineração e siderurgia esteve, de novo, entre os mais penalizados da sessão, com Vale ON em queda de 3,30% - que superavam 5%, mais cedo - e CSN ON, de 3,09%, também moderada em direção ao fechamento do dia. As perdas entre os grandes bancos chegaram a 3,75% para Bradesco PN no encerramento, enquanto Petrobras ON e PN cederam, respectivamente, 1,06% e 1,12%, após perdas superiores a 3% observadas até o meio da tarde.

Filipe Fradinho, analista da Clear Corretora, observa que o preço do minério de ferro acumula queda de 55% em apenas dois meses, o que afeta diretamente o Ibovespa, pela exposição que o índice tem a commodities - em Cingapura, segundo ele, o minério foi negociado a US$ 92,80 por tonelada. A Evergrande "viu suas ações despencarem 10%, em meio a temores sobre a incapacidade da empresa de pagar sequer uma parte de sua dívida que vence na próxima quintafeira", acrescenta.

"O mercado já abriu hoje em queda acentuada acompanhando os do mundo todo, por conta dos temores sobre possível default da Evergrande, e os impactos que isso teria sobre o sistema financeiro chinês como um todo. Além disso, há postura mais conservadora dos mercados, primeiro, para o início - iminente - do processo de 'tapering' [retirada de estímulos monetários] nos Estados Unidos", diz Bruno Mansur, especialista da Valor Investimentos.

A onda de aversão a ativos de risco vem justamente na semana que abrigará a "Super Quarta" (dia 22), com decisões de política monetária aqui e nos Estados Unidos - o que reforça a cautela no mercado doméstico de câmbio. Para o economista-chefe e sócio da JF Trust, Eduardo Velho, é provável que o Fed sinalize o início da retirada de estímulos no fim do ano (novembro ou dezembro) ou até mesmo no começo de 2022, uma vez que os resultados recentes do payroll, inflação e a variante Delta 'confortam' a ala pró-estímulos do Fed. "A despeito do aumento das vendas do varejo, Fed deve estar preocupado com os reflexos da "desaceleração" chinesa sobre os mercados globais", afirma Velho, em relatório.

Neste contexto desafiador, apenas cinco ações da carteira Ibovespa conseguiram resistir ao malestar geral para fechar o dia em alta: Copel, com ganho de 4,68%, Sabesp, de 1,81%, CVC, de 0,88%, Iguatemi, de 0,40% e Energias BR, de 0,11%. Na ponta negativa do Ibovespa, Braskem cedeu 11,54%, à frente de Via, de 6,74% e de Méliuz, de 5,91%.

A Capital Economics observa, em relatório enviado a clientes hoje, que as repercussões do "caso Evergrande" para o resto do mundo estão crescendo, embora a consultoria avalie que a turbulência ainda não chegou à escala de "sustos" anteriores na China, como a guerra comercial com os Estados Unidos, em 2018 e 2019, ou a desaceleração da economia do país asiático, em 2015 e 2016.

"Pequim provavelmente apoiará o que for necessário para evitar o envio de ondas de choque através de seu sistema financeiro", avalia em nota Edward Moya, analista de mercado da OANDA em Nova York.


O Barclays também trata o tema com positividade. "Por mais surpreendente que possa parecer, Evergrande por si só não tem passivos suficientes para representar um risco para o sistema financeiro da China. Mesmo que as autoridades não tomem nenhuma ação para mitigar os efeitos de um default "grave", o que permanece muito improvável, em nossa opinião."

Câmbio

Os negócios no mercado doméstico de câmbio foram pautados nesta segunda pela onda de liquidação de ativos de risco deflagrada pela crise de solvência da incorporadora chinesa Evergrande, que reascendeu temores de risco sistêmico no mercado financeiro global e de desaceleração mais aguda da economia do gigante asiático.

Em movimento típico de fuga para a qualidade, investidores liquidaram posições em mercados acionários e correram para o abrigo do dólar e da renda fixa americana, os Treasuries - as taxas da T-note de 10 anos chegaram a cair mais de 4,5%. As divisas emergentes e de países exportadores de commodities - cujos preços despencaram - caíram em bloco em relação à moda americana. O real, por questões técnicas do nosso mercado e já fragilizado pelos problemas locais, foi quem mais apanhou.

Já em alta desde o início dos negócios, o dólar à vista operou sempre na casa de R$ 5,30. Na máxima, a moeda subiu a R$ R$ 5,3772, em alta de 1,80%. O Credit Default Swap (CDS), derivativo que protege contra calotes e serve termômetro do risco-país, subiu de 180,14 pontos, no fechamento de sexta-feira, 17, para 198,76, segundo dados da IHS Markit. A última vez que o CDS havia trabalhado na casa de 190 pontos foi em 20 de agosto.

No exterior, o dólar teve ganho ante a maioria das moedas. Por sua vez, uma valorização do iene, outra moeda buscada como refúgio, limitou os ganhos do índice DXY, que mede o dólar ante seis rivais, e fechou em alta de 0,09%. Ao final da tarde, o euro ficava perto da estabilidade, com leve alta, a US$ 1,1732, enquanto a libra cedia a US$ 1,3661. Já o dólar se desvalorizava a 109,40 ienes. /LUÍS EDUARDO LEAL, ANTONIO PEREZ E MAIARA SANTIAGO

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