Werther Santana/Estadão - 18/06/2021
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Bolsa sobe 0,1% e dólar cai 0,6%, após Auxílio Brasil ser recebido com menos espanto

Ministro da Cidadania confirmou hoje um auxílio de R$ 400, além de reajuste de 20% para o Bolsa Família; porém, sem saber de onde virão os recursos, ativos acabaram segurando os ganhos

Redação, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2021 | 12h10

Após a queda de 3,3% no pregão anterior, a Bolsa brasileira (B3) tentou uma recuperação, ainda que tímida, nesta quarta-feira, 20, ao fechar com leve ganho de 0,10%, aos 110.786,43 pontos. Se ontem os ativos foram castigados pelos arranjos do governo para o Auxílio Brasil, que envolviam o uso de recursos fora do teto, hoje, o anúncio do programa foi recebido com menos espanto, mas ainda assim, pesou no desempenho do mercado. No câmbio, o dólar - que encostou em R$ 5,61 na sessão anterior -, caiu 0,59%, a R$ 5,5608

Após adiar ontem o anúncio do programa, o ministro da CidadaniaJoão Roma, confirmou hoje que o Auxílio Brasil terá parcela de R$ 400 em 2022. Ele também anunciou um reajuste linear permanente de 20% no Bolsa Família. Ainda segundo o ministro, um benefício temporário será pago até dezembro do ano que vem para garantir que todas as 16,9 milhões de famílias que serão contempladas pelo Auxílio Brasil recebam os R$ 400.

Roma não disse, porém, de onde virá o dinheiro para bancar o programa - mais cedo, o presidente Jair Bolsonaro comentou que o teto de gastos seria respeitado. Em aceno para o mercado, ele prometeu apenas "responsabilidade fiscal". "Não estamos aventando que o pagamento desses benefícios se dê por créditos extraordinários", disse. A falta de clareza sobre os recursos para bancar a medida ficaram no radar de investidores e afetaram o desempenho dos ativos.

Antes disso, "a referência de Roma a que o aumento de gastos na passagem do Bolsa Família para o Auxílio Brasil seria de 20%, portanto dentro do teto, chegou a animar o mercado, com efeito para o câmbio e a Bolsa. Mas essa animação durou pouco: há muito barulho, muita surpresa na forma como o governo tem feito as coisas", diz Danilo Batara, sócio-fundador e head da mesa de operações da Delta Flow Investimentos, escritório ligado ao BTG Pactual.

"Não tem ainda uma contrapartida (para esses gastos), lembrando que a PEC dos Precatórios foi adiada (possivelmente) para amanhã (na comissão especial da Câmara, que votaria hoje o parecer do relator, Hugo Motta), o que ajuda a entender a devolução rápida vista no Ibovespa", acrescenta Batara, observando um elemento positivo que emergiu na tarde de ontem, com o adiamento de última hora na terça-feira, 19, da cerimônia de lançamento do Auxílio Brasil.

"A equipe econômica não vai assinar da forma como estava sendo sinalizado, o que, se viesse a ocorrer, seria uma indicação ruim para o futuro com relação a gastos e à situação fiscal", diz Batara. Segundo mostrou o Estadão/Broadcast, a proposta inicial do governo, de conceder um benefício de R$ 400, mas com R$ 100 sendo pagos fora do teto de gastos, pode resultar em despesa de R$ 30 bilhões fora do teto de gastos, segundo cálculos do Ministério da Economia.

O sócio e economista-chefe da JF Trust, Eduardo Velho, também menciona a falta de definições sobre a estrutura de financiamento do programa social. "Parecem dizer que vão respeitar a regra fiscal ao estabelecer que a as despesas com precatórios e as emendas parlamentares ficam dentro do teto e o gasto com o Auxílio Brasil pode ficar de fora, porque é transitório", diz Velho.

Em evento agora no fim da tarde, o ministro da Economia, Paulo Guedes afirmou que contava como a PEC dos Precatórios e a reforma do Imposto de Renda para financiar o novo programa. "Mas como o projeto do IR não avança no Senado, o governo "tem que tomar uma atitude". "Em vez dos R$ 300 sustentáveis que o IR permitiria, fizemos número maior [referência ao valor de R$ 400 do Auxílio Brasil). Não temos fonte para que programa seja permanente, então uma parte é transitória", disse Guedes, ressaltando que o "compromisso fiscal continua".

Na máxima do dia, o Ibovespa subiu aos 112 mil pontos, mas não conseguiu segurar o patamar. Na semana, cai 3,37%, com perda de 0,17% no mês e de 6,92% ano ano. Entre as ações, Petrobras ON e PN subiram 1,70% e 1,43%, equilibrando a queda de 3,28% de Vale ON, apesar da estabilidade para o preço do minério de ferro na China. Banco Inter PN subiu 5,17%, e B3, 4,71%. GetNet teve queda de 8,24%, realizando lucros após a estreia, nesta semana, na Bolsa.

No exterior, o mercado de Nova York ficou sem sinal único, com Dow Jones e S&P 500 em altas de 0,43% e 0,37% cada, enquanto o Nasdaq caiu 0,05%. Hoje, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) divulgou o Livro Bege, que reúne as percepções dos empresários sobre a economia dos Estados Unidos. O documento mostrou desconforto com a alta de preços, mas não há consenso se ela é temporária ou não. Na Europa, os avanços foram tímidos, com Londres em alta de 0,08%, Paris, de 0,54%, e Frankfurt, de 0,05%. Na Ásia, os índices chineses de Xangai e Shenzhen caíram 0,17% e 0,11% cada, após o banco central chinês manter a taxa de juros inalterada.

Câmbio

O dólar à vista encerrou a sessão desta quarta em queda firme, devolvendo parte dos ganhos expressivos de ontem. Na mínima do dia, a moeda bateu em R$ 5,5213, baixa de 1,30%, diante da incerteza com a fonte de financiamento do Auxílio Brasil. Mesmo com a queda de hoje, a moeda ainda acumula ganhos de 1,95% na semana e registra avanço de 2,10% em outubro.

A despeito do alívio hoje na taxa de câmbio, Velho, da JF Ttrust, não vislumbra possibilidade de uma melhora significativa dos ativos domésticos, com o dólar recuando para a casa de R$ 5,40, dado que o governo dá sinais reiterados de que vai praticar uma política fiscal mais expansionista. "O governo Bolsonaro e o presidente da Câmara estão juntos e vão buscar a reeleição. Isso está claro com várias medidas que estão tomando, como o vale gás, a mudança no ICMS e a pressão para mudar a bandeira tarifária", diz Velho.

A economista do Banco Ourinvest Cristiane Quartaroli atribui a queda do dólar hoje a dois motivos principais: o avanço dos juros futuros, que precificam aumento do ritmo de alta da Selic, e a bateria de leilões de swap cambial realizada pelo Banco Central. "A autoridade monetária deixou claro que vai utilizar os instrumentos que tem uma variação atípica do dólar", diz Quartaroli. "A volatilidade, contudo, deve continuar, já que as incertezas sobre o Auxílio Brasil e, consequentemente, com o teto dos gastos continuam no radar dos mercados", afirma. /LUÍS EDUARDO LEAL, ANTONIO PEREZ E MAIARA SANTIAGO

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