Umit Bektas/Reuters
Umit Bektas/Reuters

Bolsa cai 1% e dólar sobe a R$ 5,51 de olho em troca no comando do BC da Turquia

Mudança na presidência do banco central turco, a terceira em dois anos, se deu por discordâncias sobre a condução da política monetária local; avanço da covid no País e no mundo ainda preocupa

Redação, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2021 | 09h20
Atualizado 22 de março de 2021 | 18h16

A troca no comando do banco central turco pela terceira vez em dois anos nesta segunda-feira, 22, afetou o pregão da Bolsa brasileira (B3), que fechou em queda de 1,07%, aos 114.978,86 pontos. O movimento, que pesou ainda nos mercados de Ásia e Europa, também pesou no câmbio, com o dólar hoje em alta de 0,59%, a R$ 5,5179.

A troca feita pelo presidente da TurquiaRecep Tayyip Erdogan, se deu por discordâncias sobre a condução da política monetária. O até então presidente Naci Agbal foi substituído por Sahap Kavcioglu, do partido de Erdogan, dois dias após a instituição elevar os juros básicos em dois pontos porcentuais, a 19%, acima das expectativas do mercado. 

Como fator de incentivo, porém, ajudou a melhorar o ânimo do mercado a arrecadação do País. O total recolhido pela Receita com impostos e contribuições federais somou R$ 127,747 bilhões, o melhor resultado para o mês na série histórica. A cifra representa aumento real de 4,30% na comparação com o igual mês de 2020 e ficou perto do teto da pesquisa do Projeções Broadcast (intervalo de R$ 99,0 bilhões a R$ 129,03 bilhões).

Em coletiva, o ministro da Economia, Paulo Guedes, destacou que os próprios resultados de março da arrecadação federal mantiveram o ritmo de crescimento, mas admitiu que as receitas do governo federal devem sofrer um impacto com o recrudescimento da pandemia a partir da segunda quinzena deste mês.

Já no exterior, apesar do bom desempenho dos índices de Nova York, com ganho máximo de 1,23% do Nasdaq, paira a preocupação quanto a uma terceira onda de pandemia na Europa, que viu protestos neste fim de semana no Reino Unido, na França e na Alemanha, e prorrogação do lockdown neste último país, sinalizada hoje, até 18 de abril.

" O pacote de emergentes foi afetado pelo episódio da Turquia, mas, para além disso, o mercado está começando a olhar com atenção a possibilidade de terceira onda de covid", diz Daniel Miraglia, economista-chefe do Integral Group.

O curtíssimo prazo, contudo, ainda é condicionado pela pandemia. "Após atingir 294 mil mortes por coronavírus no fim de semana, o Brasil segue no pior momento da crise sanitária, o que motivou governos estaduais a adotarem novas medidas de isolamento. Na Europa, existe preocupação com terceira onda da doença, que já levou a medidas restritivas em países como França, Itália, Alemanha e Holanda. Nesse cenário, a reação dos investidores é de aversão a risco, pela incerteza sobre a recuperação econômica", aponta Paula Zogbi, analista da Rico Investimentos.

Entre as ações, os papéis de mineração e siderurgia estiveram entre as perdedoras do dia.  "A queda de 6% (no minério de ferro) nesta madrugada, após atingir nova máxima do ano neste mês, deve-se a notícias de que o governo chinês irá apertar o cerco sobre o polo industrial de Tangshan, que responde por um quarto da produção de aço chinês", observa Rafael Ribeiro, analista da Clear Corretora.

Hoje, Vale ON teve baixa de 1,66%, Usiminas, de 3,09%, Gerdau PN, de 3,04%, e CSN, de 1,71%. Destaque também para perdas de 2,00% na PN e de 1,87% na ON de Petrobrás. A perspectiva de recrudescimento da pandemia na Europa pressionou em especial as ações de empresas ligadas à mobilidade, com Embraer, em queda de 7,44%, Azul, de 6,10% e Gol, de 3,63%.  No mês, o Ibovespa avança 4,49%, limitando as perdas do ano a 3,39%.

Câmbio

O real sentiu o baque junto com as moedas de seus pares emergentes e se desvalorizou frente ao dólar durante toda a sessão de negócios desta segunda-feira, de olho na troca da presidência do BC turco. Esse fator externo caiu em um dia no qual a moeda já sofria com questões internas, como a piora no quadro de expansão da covid e a ainda problemática situação fiscal do país, que ajudaram a pintar um quadro de tensão que levou mais cedo a cotação a R$ 5,5484 na máxima do dia no mercado à vista. O dólar para abril fechou com alta de 0,28%, a R$ 5,5095. Ao mesmo tempo, no exterior, o dólar se fortalecia 7,65% ante a lira turca.

Para Samuel Castro, Estrategista de América Latina do BNP Paribas, houve uma elevação geral do nível de risco por parte da percepção dos investidores globais em relação aos mercados emergentes e o real entrou em um movimento muito similar de seus pares, nada fora do padrão. Por outro lado, ressaltou Castro, ajudou o real hoje o fato de o Banco Central brasileiro ter iniciado, na quarta-feira passada, um processo de normalização da política monetária de uma maneira robusta e já indicando um novo ajuste forte. Não fosse isso, disse, a moeda local já estaria perdendo hoje mais do que outras moedas de emergentes frente ao dólar.

"O real está mais blindado hoje e menos suscetível a variações extremas. O Copom aumentou a Selic e deixa a moeda um pouco mais blindada em momentos como de hoje. É um fator (a normalização) que acabou ajudando e vai seguir ajudando", disse, lembrando que o real vinha sofrendo muito e, dada a baixa taxa de carregamento, era a primeira moeda a ser vendida. "Nessa posição não nos deixa desconfortável em um contexto do movimento da Turquia. Se fosse em outro momento a reação seria muito mais forte."

Ainda assim, hoje, o Credit Default Swap (CDS) de 5 anos do Brasil, termômetro do risco-País, engatou alta e chegou a 201,31 pontos no meio da tarde, mas há instantes, marcava 198.70 pontos ante 191,32 pontos de sexta-feira, 19, de acordo com cotações da IHS Markit. /LUÍS EDUARDO LEAL, ALTAMIRO SILVA JÚNIOR E MAIARA SANTIAGO

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