Werther Santana/ Estadão
Werther Santana/ Estadão

Alívio com a Evergrande faz Bolsa avançar 1,8% e retomar os 112 mil pontos; dólar sobe

Subsidiária da incorporadora disse hoje que pretende honrar suas dívidas, aliviando os temores de um calote; nos EUA, sinalização do Federal Reserve de que pode cortar estímulos já em novembro pressionou o dólar

Redação, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2021 | 11h00
Atualizado 22 de setembro de 2021 | 18h19

A redução da desconfiança em relação à crise envolvendo a gigante chinesa do setor imobiliário Evergrande, somada ao bom desempenho do mercado de Nova York, em dia de decisão do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) e do Copom, favoreceram os ativos locais nesta quarta-feira, 22, com a Bolsa brasileira (B3) fechando em alta de 1,84%, aos 112.282,28 pontos, enquanto no câmbio, o dólar subiu 0,34%, cotado a R$ 5,3041.

O comunicado do Fed mostrou que, para 2022, nove dirigentes esperam juros entre zero e 0,25% - ou seja, no nível atual, mantido por unanimidade na decisão desta quarta-feira, conforme esperado -, enquanto três esperam taxa entre 0,50% e 0,75% no próximo ano, e outros seis, entre 0,25% e 0,50%.

"Mais cedo ou mais tarde, ambas virão (retirada de estímulos e elevação de juros), com pelo menos dois impactos na já combalida economia brasileira: o Brasil ficará menos atrativo para os investimentos do exterior e haverá mais pressão para o câmbio", diz o economista Fabio Astrauskas, professor do Insper e CEO da consultoria Siegen.

No entanto, os índices perderam parte do fôlego durante a fala do presidente do Fed, Jerome Powell, após a euforia inicial com o comunicado sobre a decisão de política monetária. Como água fria para o mercado, Powell observou que há grande consenso entre os dirigentes do Fed sobre o cronograma do "tapering", como é conhecido o processo de redução das compras de ativos, que pode começar em breve, por volta de novembro, e ser finalizado em meados de 2022, segundo indicou na entrevista coletiva desta quarta-feira.

"No parágrafo final (do comunicado), veio a ponderação de que estão estudando possível redução no programa de compra de ativos: algo que deve ser gradual, observando as condições, de que podem seguir com essa condução. Por ora, os indicadores mostram que existe possibilidade de redução de ritmo, com moderação. Não veio nada muito diferente do esperado, com relação à retirada do programa de estímulos", diz Camila Abdelmalack, economista-chefe da Veedha Investimentos.

Na visão do sócio e gestor da Galapagos Capital, Sergio Zanini, a sinalização é a de que apenas dados econômicos muito ruins, como um relatório de emprego (payroll) negativo, levariam o Fed a desistir de iniciar o tapering neste ano. "Isso foi colocado de maneira incisiva. E o Fed mostra também que não foi abalado pela deterioração do sentimento dos mercados e de eventual contágio por conta da questão da Evergrande e da China", afirma Zanini, que vê possibilidade de o tapering ser encerado em julho.

Hoje, o alívio maior do mercado veio com notícias de que uma das subsidiárias da Evergrande pretende honrar o pagamento de juros que vencem na quinta-feira, 23. Além disso, há relatos de que o governo chinês planeja reestruturar a empresa e transformá-la numa estatal. Nova injeção de liquidez pelo o banco central chinês no mercado também melhora os ânimos.

"Nos últimos dias, a gente tem visto uma volatilidade maior nos mercados globais, tanto por conta dos reflexos dessa crise imobiliária que está vindo da China, quanto também do mercado americano, que passou a cair, a corrigir um pouco mais, uma correção que a gente não via nos últimos 12 meses no S&P 500. Por aqui, o Brasil já tinha caído antes, e a nossa Bolsa encontra-se num patamar bastante barato, mas a gente tende a acompanhar os mercados globais em cenários de queda como esse", observa Fernando Ferreira, head de research e estrategista-chefe da XP.

Diante do clima mais ameno no exterior, o Ibovespa conseguiu emendar hoje sua segunda sessão positiva. Agora, o índice acumula ganho de 0,76% até quarta-feira, colocando as perdas do mês a 5,47% e as do ano a 5,66%. Em Nova York, Dow Jones subiu 1%, enquanto a Bolsa de Londres teve ganho de 1,47%.

Na B3, a forte recuperação do minério de ferro na China nesta quarta-feira, em alta superior a 16%, colocou mineração e siderurgia entre os destaques, com Vale subindo 3,55%, Usiminas PNA, 8,70% e Gerdau PN, 5,84%. Destaque ainda para a alta de 2,33% de Banco do Brasil ON e de 3,24% para Petrobras ON. No lado oposto, Hapvida cedeu 3,89%.

Câmbio

Declarações mais duras do presidente do Fed, Jerome Powell, sobre a retirada de estímulos monetários à economia americana, aliadas a ajustes técnicos no mercado de câmbio doméstico, jogaram para o dólar para cima e fizeram o real amargar o pior desempenho entre as divisas emergentes nesta quarta. A moeda já acumula valorização de 2,56% em setembro. O dólar para outubro subiu 0,36%, cotado a R$ 5,2990.

No exterior, o índice DXY - que mede o desempenho do dólar frente a seis divisas fortes - subia 0,27%, na casa dos 93,400 pontos. Mas a moeda americana recuava na comparação com a maioria das divisas de países emergentes e de exportadores de commodities, com destaque para o peso mexicano e o rand sul-africano, considerados pares do real.

O real até ensaiou uma arrancada à tarde, após o tom ameno do comunicado da decisão de política monetária do Fed. Mas o tom mais duro de Powell, com chance de corte de estímulos para novembro, afetaram o desempenho da moeda, que bateu na máxima de R$ 5,3186. A febre altista amenizou após o presidente do BC dizer que o "tapering" será realizado de forma "muito gradual.

Em relação à reunião do Copom, a aposta majoritária é em elevação da taxa Selic em 1 ponto porcentual, para 6,25% ao ano. A grande questão é qual será o tom do comunicado do comitê, que pode indicar a extensão do atual ciclo de aperto monetário. Parte do mercado já flerta com a possibilidade de a taxa básica ultrapassar 9% e, quiçá, atingir dois dígitos. /LUÍS EDUARDO LEAL, ANTONIO PEREZ E MAIARA SANTIAGO

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