Epitácio Pessoa/Estadão
Epitácio Pessoa/Estadão

Dólar fecha em alta de 2% com aversão ao risco após ataque da Rússia à Ucrânia; Bolsa cai

Moeda americana, que chegou a operar abaixo dos R$ 5 no pregão anterior, terminou cotada a R$ 5,10; mercado monitora o avanço das tropas russas e as sanções que serão impostas pelo Ocidente

Redação, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2022 | 10h14
Atualizado 24 de fevereiro de 2022 | 19h08

Após operar abaixo de R$ 5 no pregão anterior, o dólar voltou a subir nesta quinta-feira, 24, e fechou em forte alta de 2,02%, cotado a R$ 5,1052, em meio à aversão ao risco nos mercados internacionais após a ampliação da invasão da Rússia à Ucrânia nesta madrugada. Os mercados acionários também foram afetados, mas a Bolsa brasileira (B3), apoiada em Nova York, conseguiu aliviar as perdas e fechar em queda de 0,37%, aos 111.591,87 pontos.

Estados Unidos, Reino Unido e demais membros do G7 anunciaram uma série de sanções contra Moscou, com a promessa de que sejam "devastadoras" e isolem o país do sistema financeiro global. O presidente Joe Biden disse que Vladimir Putin se tornaria "párea" diante do mundo, no que chamou de uma guerra sem justificativas, e o acusou de querer restabelecer a União Soviética.

Em um discurso com fortes críticas a Putin, Biden enfatizou sanções adicionais que têm como alvo bancos russos e exportações ao país. O líder americano disse que impor sanções ao próprio presidente russo ainda é uma opção. A Casa Branca afirmou que restringirá produtos tecnológicos para uso militar na Rússia, além de aplicar restrição ampla à exportação de alta tecnologia, semicondutores e ferramentas de telecomunicações e segurança. O Tesouro americano disse que são mais de 90 entidades russas atingidas e que tais ações irão degradar a capacidade russa de "ameaçar a estabilidade e paz na Europa".

  

No Reino Unido, o premiê Boris Johnson anunciou um pacote ampliado de sanções, que exclui completamente os bancos russos do sistema financeiro britânico, impede empresas russas de levantarem capital em Londres e estabelece medidas restritivas a mais de 100 indivíduos e entidades. Na União Europeia, a presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, disse esperar que "as sanções mais fortes possíveis" sejam adotadas. Nesta noite, chefes de Estado e do governo da região se reunirão para debater as respostas à Rússia.

Por aqui, na máxima do dia, o dólar chegou a tocar os R$ 5,16. Mesmo com arrancada desta quinta-feira, a moeda ainda acumula queda de 3,78% em fevereiro. No exterior, o índice DXY - que mede a variação do dólar frente a seis divisas fortes - chegou a trabalhar no patamar dos 97,700 pontos, mas no fim da tarde já operava no limiar dos 97 mil pontos.

A moeda americana também desacelerou a alta em relação a divisas emergentes, mantendo os maiores ganhos frente ao real, o peso colombiano e o florim húngaro. O rublo chegou a apresentar queda de mais de 6%, mas recuava cerca e 4% quando o dólar fechou por aqui.

Analistas dizem que as incertezas em torno da extensão do conflito na Ucrânia tendem a manter o apetite por dólares, com recomposição de posições defensivas. O fluxo de recursos ao redor do mundo e, sobretudo aos emergentes, tende a diminuir no curto prazo, o que tira fôlego do real.

Para Álvaro Mollica, estrategista de mercados emergentes do Citi em Nova York, a magnitude do conflito pegou o mercado "um pouco de surpresa", o que explica os movimentos mais fortes de redução de exposição ao risco. "A reação do mercado é devolver um pouco da alta recente do real. As incertezas são grandes e esse tema da geopolítica tende a prevalecer no mercado nas próximas semanas", afirma Molica, acrescentando que, mesmo antes da piora do ambiente externo, havia um espaço técnico para uma recomposição de posições compradas em dólar no curto prazo.

"Se o conflito for prolongado, o dólar pode ampliar sua valorização, o fluxo de estrangeiros tende a ser interrompido para mercados emergentes, como o Brasil, e pode ser ruim para exportações de commodities agrícolas, mas commodities energéticas devem subir, elevando a pressão sobre o ciclo de alta de juros neste ano pelos bancos centrais de países desenvolvidos", diz  o economista-chefe da JF trust, Eduardo velho . O especialista prevê ainda que o Copom no Brasil pode precisar também prolongar mais o ciclo de alta da Selic neste ano, para conter a inflação pelo efeito da demanda maior pela moeda americana.

Sensíveis ao conflito no Leste Europeu, os contratos de petróleo fecharam em alta hoje, dia no qual as cotações chegaram a ultrapassar o nível de US$ 100 o barril em Londres, pela primeira vez em sete anos. O barril do petróleo WTI para abril subiu 0,77%, a US$ 92,81 em Nova York, enquanto o do Brent para o mesmo mês fechou em alta de 2,31%, a US$ 99,08 em Londres.

No Brasil, a escalada do petróleo recoloca na mesa atuação, no Congresso, para conter os efeitos sobre o bolso do cidadão, em ano eleitoral. "O sino que toca todos os dias é o do combustível crescendo de preço. E agora, com essa história da Ucrânia, pretexto ou não, vai ser um fator de elevação do preço internacional", disse o relator do projeto dos combustíveis no Senado, Jean Paul Prates (PT-RN).

Bolsas

Os mercados acionários operaram pressionados nesta quinta. Em Nova York, os índices conseguiram reverter o sinal, após o tom mais duro adotado por Biden - o que ajudou o Ibovespa. O Dow Jones subiu 0,28%, o S&P 500, 1,50% e o Nasdaq, 3,34%. Na Europa, o índice Stoxx 600, que concentra as principais empresas da região, caiu 3,28%, enquanto a Bolsa de Londres teve queda de 3,88%, a da Alemanha, de 3,96% e a de Paris, 3,83%.

No centro do conflito, a Bolsa de Moscou desabou 33,21%. As bolsas asiáticas também fecharam com fortes perdas nesta quinta: Tóquio cedeu 1,81%, Hong Kong, 3,21% e Seul, 2,60%. O índice chinês de Xangai recuou 1,07%.

Com o resultado de hoje, a Bolsa brasileira cai 0,49% em fevereiro e 1,14% na semana - em 2022, o ganho está agora em 6,46%. Parte dos ativos da carteira Ibovespa conseguiu se desconectar hoje da aversão aos riscos em todo o mundo, notadamente Sul América, em alta de 15,19%, estendendo o salto visto no fechamento de ontem, com a notícia sobre a compra da seguradora pela Rede D'Or.

Entre as ações de grande peso, as perdas se disseminaram nesta quinta-feira. Nem Petrobras, com a ON em queda de 1,57% e a PN, de 2,43%,  escapou ilesa, especialmente após o petróleo ultrapassar a marca de US$ 100 em Londres. As perdas entre os grandes bancos chegaram hoje a 3,41% para Santander no fechamento, com as siderúrgicas mostrando retrações moderadas a 1,10% para Gerdau PN no fechamento, e virada em Vale, em alta de 1,24%. /ANTONIO PEREZ, LUÍS EDUARDO LEAL E MAIARA SANTIAGO

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