Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Ibovespa cai 2,9% e dólar vai a R$ 5,51 de olho em retomada da economia dos EUA

Investidores monitoram as previsões de alta para a inflação americana, que aumenta o interesse por títulos da dívida pública dos EUA e diminuí a atratividade do mercado de risco; Nova York também despenca

Redação, O Estado de S.Paulo

25 de fevereiro de 2021 | 10h45
Atualizado 25 de fevereiro de 2021 | 19h13

O temor de retomada mais forte da economia dos Estados Unidos, trazendo a reboque a alta da inflação, pesou nos negócios nesta quinta-feira, 25, após os juros dos títulos da dívida americana com vencimentos mais longos somarem retornos de 1,5%, o maior valor em um ano. Nesse cenário, a Bolsa brasileira, a B3, recuou 2,95%, aos 112.256,36 pontos, enquanto os mercados de Nova York despencaram. O dólar fechou em alta de 1,72%, cotado a R$ 5,5140, nível mais alto desde 5 de novembro.

O mercado monitora de perto as previsões de alta da inflação nos EUA, que têm feito crescer o interesse pelos títulos da dívida americana. O aumento na busca pelos Treasuries, como são chamados esses tipos de títulos, ajuda a promover a fuga do mercado de risco. Como o retorno dos Treasuries está atrelado à inflação americana, quanto mais alta ela estiver, melhor será o rendimento. Além disso, esses títulos são considerados os 'ativos mais seguros do mundo' e costumam ser o porto seguro dos investidores em caso de crise no mercado financeiro.

Na parte da tarde, para aliviar a pressão sobre o ativo, o Tesouro americano chegou a promover um leilão de títulos da dívida de sete anos, mas a medida foi apontada como "muito fraca" pelo BMO Capital. A situação ficou ainda mais tensa no final do pregão, quando o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) de Nova York, John Williams, disse projetar uma inflação de 2% no longo prazo, dentro do centro da meta do Fed, para os EUA. A alta chance de aprovação do pacote de estímulos de US$ 1,9 trilhão de Biden, somada ao avanço da vacinação no país americano, contribuem para essa possibilidade.

Com os investidores abandonando posições, os índices de Nova York despencaram. Dow Jones, S&P 500 e Nasdaq fecharam em quedas de 1,76%, 2,45% e 3,52% cada. A volatilidade levou o índice VIX, o "medidor do medo" em Wall Street, a saltar 37% no pregão. O movimento também afetou a B3, que converteu a alta de 116 mil pontos vista na parte da manhã em forte queda. Em um dos piores momentos, já no final do pregão, o Ibovespa caía 3,3%, aos 111 mil pontos. Com o resultado, o índice volta a acumular perda no mês, de 2,44%, cedendo 5,21% na semana - em 2021, recua 5,68% até esta quinta-feira.

"No último mês, houve progressão nos rendimentos dos Treasuries que os coloca agora em um nível de desconforto para o mercado, acima da marca de 1,40% para o retorno do título com prazo de dez anos. Desde o fim do ano passado, ocorreu grande rotação, do setor de tecnologia, o mais beneficiado pela pandemia, para as ações da economia real, segmento que tende a responder ao avanço da vacinação. O momento agora é de volatilidade", observa Scott Hodgson, gestor de renda variável na Galapagos.

Além disso, o mercado também reflete as preocupações de um possível fatiamento da PEC Emergencial, que vai promover a volta do auxílio, e que pode ser votada no Senado sem nenhuma contrapartida fiscal. O secretário do Tesouro Nacional, Bruno Funchal, chegou a destacar a importância de aprovar o quanto antes a PEC para liberar o crédito extraordinário e bancar o benefício. No entanto,  o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (MDB-MG), confirmou que a votação do texto, prevista para hoje, foi adiada para a próxima quarta-feira. "É o tempo mais curto para amadurecer o debate", disse. 

Neste contexto menos favorável, as perdas na Bolsa voltaram a se espalhar nesta quinta. Apenas Multiplan e Telefônica Brasil fecharam em alta, com ganhos de 0,45% e 0,29% cada. Na ponta negativa do Ibovespa, destaque para as quedas de Weg, Ultrapar e CSN, de 8,30%, 7,52% e 6,70% cada. Entre as ações de maior peso na composição do índice, Vale caiu 2,27%, Bradesco, 2,37% e Santander, 3,02%. Petrobrás ON e PN cederam 3,87% e 4,96% cada, apesar do resultado extremamente favorável no 4º trimestre, divulgado em balanço na última quarta-feira, 24.

Câmbio

O câmbio teve novo dia de tensão, lembrando o pregão da última segunda-feira. A diferença é que naquele dia a moeda americana subiu influenciada pela ingerência do governo na Petrobrás, enquanto hoje a valorização foi basicamente reflexo do exterior muito ruim. A moeda dos EUA subiu forte nos emergentes, e o real nem foi a pior divisa hoje, por conta da elevação das taxas dos títulos da dívida americanos. O dólar para março fechou em alta de 2,39%, a R$ 5,5320.

O dólar à vista chegou a bater na casa dos R$ 5,53, ganho superior a 2%. Para conter a alta da moeda, o Banco Central já vendeu US$ 1,5 bilhão em reservas internacionais em dois leilões à vista, mas o movimento não foi o suficiente. "Hoje o movimento foi totalmente externo, real esteve até melhor que vários pares, com movimentos muito fortes dos Treasuries levando a ajuste no câmbio pelo mundo", avalia um diretor de tesouraria. "Notícias locais não fizeram preço no dia", ressalta, lembrando que o noticiário local segue preocupante, sobretudo com possibilidade de desidratação na PEC Emergencial.

O estrategista do Morgan Stanley, Andrew Sheets, afirma não estar tão preocupado com a elevação dos títulos públicos americanos neste momento, porque elas estão ocorrendo por conta da visão de que a economia americana vai se acelerar. "Há muitas evidências de que os mercados podem ficar bem caso os títulos subam por causa da economia indo melhor", comenta. Ele ressalta que instrumentos de mercado sobre o comportamento futuro da inflação não estão prevendo descontrole dos preços, mas taxas perto dos objetivos do Fed. /LUÍS EDUARDO LEAL, ALTAMIRO SILVA JÚNIOR E MAIARA SANTIAGO

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