Daniel Slim/AFP
Daniel Slim/AFP

Bolsa recua 1,7% e dólar avança 0,9% à espera de evento do Federal Reserve

Marcado para amanhã, evento organizado pelo BC americano deverá trazer mas pistas sobre o futuro da política monetária dos EUA; por aqui, crise hídrica preocupa

Redação, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2021 | 14h31
Atualizado 26 de agosto de 2021 | 18h32

Os ativos domésticos fecharam em baixa nesta quinta-feira, 26, afetados pelas incertezas nacionais e internacionais, com grande destaque para o Simpósio de Jackson Hole, evento organizado pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano) marcado para amanhã, que deverá trazer mais pistas sobre o futuro da política monetária dos Estados Unidos. A Bolsa brasileira (B3) perdeu o patamar dos 119 mil pontos logo no final do pregão, em queda de 1,73%, aos 118.723,97 pontos, enquanto o dólar avançou 0,87%, cotado a R$ 5,5268.

Com perdas mais visíveis em Nova York após a confirmação da morte de militares americanos em duas explosões em Cabul, no Afeganistão, o Ibovespa acentuou o ajuste à tarde, também à espera do discurso do presidente do Fed, Jerome Powell, em Jackson Hole. O índice passa agora a acumular perda de 2,53 no mês, com ganho no ano mais uma vez zerado, em queda de 0,25%.

A expectativa é que Powell dê mais pistas sobre as condições para o início da redução do programa de compra de títulos públicos, o chamado 'tapering', previsto para começar ainda neste ano. Além da adoção de um tom mais 'duro', no entanto, apertos mais firmes nas medidas de estímulos adotadas na pandemia não são esperados. "Hoje o mercado realizou lucros, tirando o pé, ajustando-se à possibilidade de Powell entrar amanhã com sinalização de 'tapering', tendo precificado antes que não viria nada em Jackson Hole", diz Daniel Miraglia, economista-chefe do Integral Group.

O clima de 'tapering' ganha força já nesta véspera, nos comentários de outras autoridades do Fed, inclusive da anfitriã da reunião anual de Jackson Hole, a presidente do Fed de Kansas, Esther George. "Ela defendeu que a autoridade monetária inicie em breve a retirada de estímulos, enquanto James Bullard, presidente do Fed de St. Louis, reforçou o discurso mais duro ao afirmar que 'provavelmente não precisamos das compras de ativos neste momento'", observa Rafael Ribeiro, analista da Clear Corretora.

"De qualquer forma, o mercado está à espera da fala de Powell, que deverá trazer uma visão mais clara sobre o programa de estímulos e, em especial, sobre a expectativa de inflação, que vem sendo um gatilho importante para as perspectivas de juros", acrescenta o analista.

"O Ibovespa ainda reage às pressões fiscais, mesmo com certo arrefecimento de tom entre os Poderes nos últimos dias e com o dado positivo do Caged, hoje, com criação de 316 mil empregos (em julho). Além da expectativa amanhã para o Powell, os dados americanos de hoje, sobre o PIB [segunda leitura do segundo trimestre] e os pedidos semanais de auxílio-desemprego, vieram pior do que o esperado", diz Breno Bonani, especialista da Valor Investimentos, destacando que a Bolsa brasileira segue muito descontada em relação as de outros países que voltam a crescer, incluindo a de emergentes.

"Localmente, pesou a insistência do Lira [presidente da Câmara, Arthur Lira] de colocar em votação a reforma (do IR)", diz Miraglia, do Integral Group. Ele lembra ainda que a priorização sinalizada recentemente por Lira à reforma administrativa, e não à fiscal, havia animado o mercado. Miraglia chama atenção também para a contagem regressiva para o 7 de setembro, evento que ganhou relevância como há muito não se via, em função da crise entre os Poderes.

No fim da tarde, contudo, Lira recuou da disposição de recolocar a reforma do IR em votação na próxima semana, ao dizer que o assunto só voltará à pauta quando houver conversa e cada partido expressar o que defende.

Em meio a tanta expectativa e com as incertezas domésticas, a correção desta quinta se espalhou por empresas e setores ao longo da tarde. O setor financeiro, de maior peso no índice, despencou, com destaque para Itaú PN, em baixa de 2,42% e Bradesco ON, de 1,99%. Petrobras ON e PN caíram 0,81% e 0,87% cada, afetadas pelo recuo do petróleo no exterior. No setor de mineração e siderurgia Vale ON baixou 1,28% e Usiminas PNA, 3,46%.

No noticiário, o Supremo Tribunal Federal (STF) formou maioria pela aprovação da autonomia do Banco Central. Uma ação na casa dizia que o projeto, aprovado no Congresso e sancionado pelo presidente Jair Bolsonaro, era ilegal. O placar final é de oito votos a favor e dois contra.

Câmbio

Depois de quatro pregões seguidos de queda, com perdas acentuadas nas duas últimas sessões, o dólar avançou nesta quinta, escorado no fortalecimento global da moeda americana, em meio à expectativa pelo Simpósio de Jackson Hole. Também jogou contra o real a cautela dos investidores locais, que monitoram as negociações em torno da questão dos precatórios. Apesar do avanço hoje, a moeda americana acumula queda de 2,38% na semana. Em agosto, o dólar registra leve alta, de 0,90%. O dólar para setembro subiu 1%, a R$ 5,2695.

Sobre o Fed, o diretor da Wagner Investimentos, José Faria Júnior, afirma que, caso Powell indique que não terá pressa em reduzir as compras de ativos, haverá uma rodada de queda do dólar, com a taxa de câmbio indo em direção a R$ 5,15. O sócio e economista-chefe da JF Trust, Eduardo Velho, descarta uma "ruptura" nos mercados amanhã, já que espera uma fala cautelosa do presidente do Fed. "O discurso de Powell ainda será de 'espera'", diz.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou hoje à tarde que a Proposta de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2022 será enviada ao Congresso prevendo o pagamento de R$ 90 bilhões em precatórios, caso uma solução não seja aprovada até o dia 31 de agosto. "Ou seja, vai desaparecer o dinheiro todo. Se não tiver sido resolvida ainda essa questão dos precatórios, será um dia depois do envio do Orçamento. Todos verão a dramaticidade dessa questão", disse.

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF)Luiz Fux, apontou que o Judiciário já trabalha numa solução que seja constitucional para o problema da União no pagamento bilionário dos precatórios, e sugeriu o que classificou como uma espécie de microparcelamento dessas dívidas do governo. /LUÍS EDUARDO LEAL, ANTONIO PEREZ E MAIARA SANTIAGO

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