Eric Baradat/AFP
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Bolsa recua aos 115 mil pontos com piora do mercado de Nova York; dólar sobe 1,5%

Wall Street reagiu mal ao tom de cautela adotado pelo banco central americano, que manteve a taxa de juros entre 0% e 0,25%, e disse que a recuperação dos EUA ainda demora a vir

Redação, O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2021 | 09h15

Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, recuou pela sexta vez consecutiva e fechou com baixa de 0,50%, aos 115.882,30 mil pontos nesta quarta-feira, 27, após a piora do mercado de Nova York, cujos índices tiveram quedas em torno dos 2%. O recuo aconteceu no mesmo dia em que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano), optou por manter a taxa de juros da economia americana entre 0% e 0,25% ao ano. No câmbio, o dólar também reagiu à decisão e teve alta de 1,51%, a R$ 5,4071.

Nesta quarta, o presidente da entidade monetária, Jerome Powell, adicionou mais cautela ao cenário, ao dizer que ainda há um "longo caminho" para atingir as metas de inflação e emprego. Além disso, pela primeira vez em muito tempo, Powell não disse que a economia americana precisa de mais estímulos, mas sim, apontou que as atuais medidas de apoio já estão surtindo o efeito desejado. Já os dirigientes do Fed constataram que o ritmo de recuperação dos Estados Unidos se moderou recentemente.

O mercado aguardava com expectativa redobrada o comunicado do Federal Reserve e especialmente por novas declarações de Powell, no momento em que se prepara para um pacote fiscal possivelmente menor nos EUA, e mais tardio do que se chegou a antecipar. Com isso, Dow Jones, S&P 500 e Nasdaq fecharam com quedas de 2,05%%, 2,57% e 2,61% cada em Nova York. Já a Bolsa brasileira, após a fala, inverteu o sinal e perdeu os 117 mil pontos, caindo ao patamar de 115 mil pontos. 

Já no noticiário local, além das habituais preocupações com a situação fiscal e o teto de gastos, novos fatores de risco começam a emergir no horizonte. Hoje, o presidente Jair Bolsonaro  fez um apelo direto aos caminhoneiros para que não realizem paralisação na próxima semana, sem contudo acenar concretamente para a demanda da categoria, relacionada ao preço do diesel. Hoje, a Federação Única dos Petroleiros (FUP) decidiu apoiar a greve dos caminhoneiros marcada para o dia 1º de fevereiro, próxima segunda-feira.

O interno se soma assim ao externo. "Os investidores estão mais cautelosos, com possíveis impactos econômicos das novas variantes do coronavírus e os novos lockdowns gerados pela escalada de novos casos pesando nas negociações, que estavam fortes no fim do ano passado com a aposta no fim das restrições e na recuperação após a vacina", observa Júlia Aquino, especialista da Rico Investimentos.

No Brasil como no exterior, a progressão da pandemia e a lentidão da imunização em torno do mundo, com disponibilidade de vacinas abaixo da demanda, permanecem como preocupação central para os investidores. No Estado de São Paulo, três pessoas testaram positivo para a variante do coronavírus encontrada no Amazonas, enquanto ao menos oito países, entre eles, Estados Unidos, já registraram casos da mutação.

Nesse cenário, para Álvaro Bandeira, economista-chefe do ModalMais, está entre as boas notícias a informação de que o Tesouro conta com reserva de liquidez equivalente a mais de seis meses do serviço de principal e juros da dívida pública federal em mercado. "Isso dá certa tranquilidade ao ter mais seis meses de liquidez para rolagem da dívida, embora saibamos como está o montante [elevado]. De todo modo, isso ajuda na recuperação", diz.

Com o resultado de hoje, no ano, as perdas do Ibovespa estão agora em 2,63%, com ajuste negativo de 1,28% na semana. Entre as altas, estão os papéis PN e ON e Petrobrás, com ganhos de 1,41% e 1,38% cada, Banco do Brasil ON, com 2,44%, Bradesco PN, com 1,60% e Eletrobrás, com 2,89%. Entre as quedas, está a baixa de 2,78% de Vale ON, 2,73% de CSN e 2,06% de Usiminas.

Câmbio

O dólar devolveu hoje parte da forte queda de ontem e encerrou o dia acima dos R$ 5,40. O fator determinante para o movimento no câmbio nesta quarta-feira foi o exterior, onde a moeda americana ganhou força de forma generalizada, ante divisas fortes e nos mercados emergentes. Vacinação caminhando lentamente em alguns locais, impasse do pacote fiscal proposto por Joe Biden no Congresso, balanços corporativos mistos nos EUA e a decisão do Fed, estão entre os fatores que provocaram a busca por refúgio no dólar. Hoje, a moeda para fevereiro fechou em alta de 1,06%, a R$ 5,4140.

Por aqui, a analista de mercados emergentes e moedas do alemão Commerzbank, You-Na Park-Heger, observa que apesar de ser positiva para o real a discussão que ganhou força ontem sobre a elevação dos juros, as preocupações sobre a situação fiscal e como Bolsonaro vai lidar com a pandemia vão seguir limitando a melhora da moeda brasileira. Uma das evidências da piora das contas públicas foi a divulgação hoje pelo Tesouro de que a dívida bruta bateu em R$ 5,009 trilhões ao final de 2020.

Os analistas do inglês Barclays Roberto Secemski e Juan Prada veem chance de o real ganhar força quando houver mais clareza sobre a situação fiscal do Brasil para 2021, mas até lá, a volatilidade deve seguir alta. Eles observam que o crescimento dos casos de coronavírus segue aumentando a pressão pela prorrogação do auxilio emergencial. Se a extensão vier acompanhadade (futuras) medidas de austeridade fiscal, não será um movimento (muito) negativo para os ativos brasileiros./  LUÍS EDUARDO LEAL, ALTAMIRO SILVA JÚNIOR E MAIARA SANTIAGO

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