Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Bolsa cai 1% após nova debandada na equipe de Paulo Guedes; dólar sobe 0,2%

Trocas no Ministério da Economia acontecem logo após a sanção do Orçamento, em que o Centrão teve papel de destaque; andamento da CPI da Covid também foi monitorado

Redação, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2021 | 15h18
Atualizado 27 de abril de 2021 | 18h28

Apesar do cenário favorável que se desenhava pela manhã, as trocas dentro do Ministério da Economia, no dia da instalação da CPI da Covid, afetaram os ganhos dos ativos locais nesta terça-feira, 27, fazendo a Bolsa brasileira (B3), fechar em queda de 1,00%, aos 119.388,37 pontos. No câmbio, o dólar terminou o dia cotado a R$ 5,4612, em alta de 0,23%.

A sensação de desmonte na equipe econômica, combinada à expectativa de aumento da temperatura política pouco depois de o governo ter se mostrado refém do Centrão na longa deliberação sobre o Orçamento de 2021, aumentaram o clima de aversão aos riscos. "A cena política gerou maior estresse para os mercados e resultou em menor apetite por risco", diz Rafael Ribeiro, analista da Clear Corretora.

A princípio, as baixas na equipe econômica observadas pela manhã - a saída da assessora especial para a reforma tributária, Vanessa Canado, indicada na noite de ontem, seguida hoje pela do número 2 da Economia, Waldery Rodrigues, da secretaria especial de Fazenda - foram recebidas de forma branda na Bolsa que, embora em baixa, conservava até então a linha de 120 mil pontos que tem prevalecido nesta segunda quinzena de abril. A substituição de Waldery por Bruno Funchal, vindo da secretaria do Tesouro, foi bem recebida pelo mercado, pelo fato de ser um nome técnico.

Pouco antes das 14h, contudo, o índice da B3 passou a acentuar perdas, com o sinal de que as mudanças, conforme observou uma fonte, seriam no "atacado", como uma "debandada". Pela manhã, a percepção era de que uma mudança ou outra no Ministério da Economia poderia ser até saudável, para injetar ânimo novo na equipe, debilitada por sucessivas derrotas políticas, especialmente na definição do Orçamento. À tarde, a lista de baixas cresceu, com a indicação de que Martha Seillier, secretária do PPI, também está de saída do governo, assim como a secretária-adjunta de Comércio Exterior, Yana Dumaresq, e o secretário de Orçamento, George Soares.

No limite, o temor é de que o Ministério da Economia venha a ser fatiado para acomodar interesses políticos, especialmente em um Planejamento, Trabalho ou mesmo Desenvolvimento recriado às vésperas da batalha que parece se avizinhar no Senado, sobre o calcanhar-de-aquiles do governo: a má gestão da pandemia. Neste pior cenário, mais do que um desmonte de equipe, o que estaria entrando em decomposição, segundo a percepção de analistas, é o próprio ministério, com Paulo Guedes como capitão cada vez mais solitário no navio que faz água.

"No médio prazo, uma recomposição com maior presença do Centrão no governo pode ser positiva, se houver compromisso com o avanço das reformas, que estão paradas. A CPI da Covid, com o governo em dificuldade na comissão [após Renan Calheiros ser confirmado na relatoria], é um obstáculo a mais nisso. Acho que no momento o olhar está mais na CPI do que propriamente nas mudanças na equipe econômica, que não vêm de hoje", diz Rodrigo Knudsen, gestor da Vítreo.

Mais cedo, na agenda econômica, o IPCA-15, abaixo do esperado para abril e também da leitura de março, contribuía para algum conforto na sessão. Na B3, o balanço da Vale no primeiro trimestre, da noite de ontem, colocou a ação ON da mineradora em alta de 1,43% no fechamento desta terça-feira, enquanto as ON e PN da Petrobrás registraram, respectivamente, perdas de 2,40% e de 2,86% na sessão, em que os destaques foram CVC, em alta de 5,66% e Braskem, de 3,89%.

Na semana, o Ibovespa cede 0,95%, limitando os ganhos do mês a 2,36% - no ano, tem ainda leve avanço de 0,31%.

Câmbio

O dólar teve um dia de volatilidade, mas com oscilações em níveis mais contidos do que em sessões anteriores. A expectativa pela agenda carregada da quarta-feira, que inclui reunião de política monetária do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) e depoimento de Joe Biden no Congresso, limitou os movimentos. O fluxo externo para o Brasil ajudou a moeda a cair a R$ 5,41, em dia de definição dos preços das ações na abertura de capital (IPO) da Caixa Seguridade, mas novos ruídos em Brasília, com a CPI da covid no Senado e a nova debandada da equipe econômica. 

Relatos de entrada de fluxo externo para o Brasil prosseguiram hoje, dia em que a Caixa Seguridade definiu o preço de suas ações, com demanda forte, movimentando R$ 5 bilhões ao todo. Mas os ruídos políticos, somados ao clima de incerteza no exterior, deixaram essa informação em segundo plano. Hoje, os juros dos títulos do Tesouro americano voltaram a superar o nível de 1,60%, com o mercado à espera da decisão do Fed. Já o dólar para maio terminou em alta de 0,29%, a R$ 5,4550.

Para o estrategista-chefe do TD Bank, Jim O'Sullivan, o mais provável é que o Fed vai mostrar maior otimismo com a economia americana, que de fato melhorou desde a última reunião, mas Powell vai sinalizar que é preciso mais progresso até que se comece a falar em retirar estímulos extraordinários, pois a economia ainda está "a um longo caminho" dos objetivos do BC americano. /LUÍS EDUARDO LEAL, ALTAMIRO SILVA JÚNIOR E MAIARA SANTIAGO

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