Reuters
Reuters

finanças

E-Investidor: "Você não pode ser refém do seu salário, emprego ou empresa", diz Carol Paiffer

Bolsa fecha com forte queda de 2,4% e dólar vai a R$ 5,63 após anúncio do Renda Cidadã

Criação do programa, que vai substituir o Bolsa Família, preocupou o mercado, que teme o aumento descontrolado dos gastos públicos no País

Redação, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2020 | 09h02
Atualizado 29 de setembro de 2020 | 15h39

Apesar do dia positivo no exterior, a aversão aos riscos prevaleceu no mercado doméstico nesta segunda-feira, 28, após o governo anunciar o Renda Cidadã, novo programa social que irá entrar no lugar do Bolsa Família. A proposta, ainda cercada de dúvidas e poucas explicações, fez crescer o temor dos investidores em relação ao aumento dos gastos públicos do País e levou a Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, a fechar com recuo de 2,41%, aos pontos aos 94.666,37 (menor nível desde junho), enquanto o dólar encerrou com forte valorização de 1,44%, a R$ 5,6353, maior nível desde maio.

Após uma reunião, o presidente Jair Bolsonaro, líderes do governo e o ministro da Economia, Paulo Guedes, informaram que o programa será financiado com o dinheiro reservado no Orçamento para o pagamento de precatórios e recursos do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb), o principal mecanismo de financiamento da educação. Vale lembrar que o novo programa vem duas semanas após Bolsonaro enterrar o Renda Brasil, que teria como uma das fontes de financiamento o congelamento de pensões e aposentadorias

  

O anúncio, no entanto, desagradou o investidor que espera pelas reformas e acompanha tenso o aumento de gastos do País. "Com reformas necessárias ainda distantes, o que prevalece é o encontro com a verdade, após um avanço prolongado movido basicamente por fluxo doméstico. Ainda sem reformas, fala-se agora no Renda Cidadã, se preciso for até tirando de precatórios. Assim, Bolsonaro volta a se mostrar mais preocupado com a reeleição do que com o ajuste das contas e as reformas", diz Luiz Roberto Monteiro, operador da mesa institucional da Renascença. "Apesar de toda retórica do Guedes, a agenda econômica está emperrada, houve poucos avanços neste governo", completa.

"A cada dia que passa a percepção é de que não vai haver reformas este ano, com as eleições municipais se aproximando. E depois, no início do próximo ano, ainda tem a eleição para as presidências da Câmara e do Senado. Quando se posterga o pagamento de dívidas (precatórios) ou há distorção de finalidade (Fundeb) em prol de gastos perenes (Renda Cidadã), o que se tem é algo insustentável no longo prazo", aponta Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa Investimentos.

"Hoje, o Ibovespa começou a mostrar definição mais clara, confirmando, a princípio, as perdas dos suportes de 98 e 97 mil pontos. A B3 saiu de um momento de consolidação e pode entrar em tendência de queda, chegando aos 90 mil pontos de forma mais rápida", observa Fernando Góes, analista gráfico da Clear Corretora. Na mínima, o Ibovespa foi hoje aos 94.370,60 pontos, no menor nível desde 29 de junho (93.825,27), saindo de máxima nesta segunda-feira aos 98.313,73. No mês, as perdas chegam a 4,73% - no ano, cede agora a 18,14%.

Mais cedo, as ações de bancos conseguiam dar algum suporte ao Ibovespa, em dia positivo para o segmento no exterior - aqui, contribui avaliação do Bank of America, ao apontar que as provisões dos bancos brasileiros devem ter chegado a pico no segundo trimestre deste ano e que os lucros das instituições devem começar a melhorar. Ao final da sessão, subiram apenas a Unit do Santander, com 2,10% e Banco do Brasil On, com 0,69%.

Na ponta negativa do Ibovespa, Yduqs cedeu 5,35%, seguida por Minerva, com 5,02% Entre as commodities, destaque para a queda de 0,79% da Vale On e do recuo de de 2,48% e 2,42% de Petrobrás Pn e On. O resultado da petroleira veio descolado dos contratos do petróleo no exterior: hoje, o WTI para novembro encerrou o dia em alta de 0,87%, a US$ 40,60, enquanto o Brent para o dezembro avançou 1,08%, a US$ 42,87 o barril.

Câmbio

O dólar hoje testou as máximas em quatro meses e , em dia que o noticiário local não ajudou e a moeda americana ainda subiu ante divisas emergentes no exterior. A questão fiscal do Brasil voltou aos holofotes quando o governo anunciou na tarde de hoje que pretende financiar o Renda Cidadã, o novo programa social do Planalto, com precatórios. Além disso, a sinalização de que ainda não há acordo para aprovar a reforma tributária também causou desconforto.

Nesse ambiente de nervosismo, o Banco Central precisou intervir e vendeu US$ 877 milhões no mercado à vista, no primeiro leilão neste segmento desde 21 de agosto. Assim, o dólar arrefeceu o ritmo de valorização, ajudado também pelo fato de a oferta do BC ter coincidido com perda de fôlego da moeda americana no mercado internacional.

O gerente de Tesouraria do Travelex Bank, Felipe Pellegrini, destaca que o dia no mercado de câmbio foi "nervoso", com o anúncio do financiamento do programa Renda Cidadã provocando "indisposição", fazendo o investidor buscar proteção no dólar. "Vamos ter que aguardar cenas do próximo capítulo. O problema é como fica o Orçamento", disse ele. Outro risco no cenário, principalmente para o longo prazo, é ficar sem a reforma tributária, afirmou ele.

"No exterior, o dólar teve um comportamento ruim hoje entre os emergentes mais frágeis, mesmo com o dia de busca por ativos de risco em Nova York", destaca um diretor de tesouraria. Como reflexo, a moeda americana teve as maiores altas do dia ante o real e a lira turca (+1,67%).

Apesar da alta ante emergentes e mesmo perante moedas fortes, investidores seguem pessimistas com o dólar na Bolsa de Mercados de Chicago (CME, na sigla em inglês). As apostas dos especuladores mostram novo aumento de posições vendidas líquida no dólar na semana passada, que subiram ao nível mais alto desde novembro de 2017, de acordo com dados da Commodity Futures Trading Commission (CFTC).

Bolsas do exterior

Apesar das perdas locais, o dia foi favorável para os mercados lá de fora.  Impulsionadas pelos setores de tecnologia, energia e financeiro, as bolsas de Nova York registraram ganhos. O Dow Jones subiu 1,51%, o S&P 500 avançou 1,61% e o Nasdaq ganhou 1,87%, retomando a marca de 11 mil pontos. Por lá,  Morgan Stanley subiu 2,85% e Citigroup ganhou 3,14%. Apple saltou 2,39% e Amazon avançou 2,55%.

No velho continente, sustentou o ânimo dos índices a possibilidade dos Estados Unidos conseguirem passar um novo pacote de estímulos fiscais.  Com isso, o Stoxx 600 encerrou em alta de 2,22%, enquanto a bolsa de Londres avançou 1,46%,  Frankfurt ganhou 7,35% e Paris subiu 2,40%. MilãoMadri e Lisboa tiveram ganhos de 2,47%, 2,46% e  2,33% cada.

O mercado asiático, no entanto, ficou sem sinal único antes do feriado prolongado que começa na quinta-feira na China. O japonês Nikkei subiu 1,32%, enquanto as bolsas de XangaiShenzhen caíram 0,06% e 0,76% cada. Em Hong Kong, o Hang Seng fechou em alta de 1,04%, o sul-coreano Kospi avançou 1,29% e o Taiex subiu 1,88% em Taiwan. Já a bolsa australiana fechou em baixa de 0,21%./ LUÍS EDUARDO LEAL, ALTAMIRO SILVA JÚNIOR E MAIARA SANTIAGO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.